Josep Lago/AFP
Josep Lago/AFP

Pressão sobre Piqué representa teste para a Espanha

Perto da Copa, seleção tem de superar críticas ao zagueiro por lutar pela independência da região da Catalunha

O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 07h00

O zagueiro Gerard Piqué levou a questão da independência da Catalunha para os vestiários da seleção espanhola. Ao usar as redes sociais para pedir a participação no referendo de domingo e criticar a repressão policial que se seguiu, o catalão, que nunca escondeu seu posicionamento político, tornou-se o rosto esportivo do separatismo.

Por causa de seu posicionamento, ele divide opiniões. Quando joga pela seleção, costuma ouvir vaias das arquibancadas. Na segunda-feira, virou alvo de protestos. Duzentas pessoas formaram o coro contra o zagueiro. “Viva Espanha!”, gritavam os manifestantes. O tenista Rafael Nadal defendeu Piqué. “O fanatismo é errado. Não gosto que vaiem ninguém”, comentou Nadal.

O técnico Julen Lopetegui pediu foco nas duas rodadas finais das Eliminatórias da Copa. E sugeriu discrição a Piqué. A Espanha enfrenta a Albânia na sexta, em casa, com chances de assegurar vaga em caso de tropeço da Itália. Na segunda-feira, pela jornada final, os espanhóis encaram Israel, em Jerusalém.

Na única entrevista que concedeu sobre o tema, o defensor de 30 anos chorou. “Há muitas pessoas que desaprovam o que aconteceu e acreditam na democracia. Mas, se o treinador ou a Federação pensam que incomodo, não tenho nenhum problema em me afastar e deixar a seleção antes de 2018”, disse, em referência ao seu anúncio de que deixaria o time no ano que vem. “Não é uma questão patriótica ir à seleção. Você tem de ir e fazer o seu melhor, como eu”, diz.

Piqué sempre projetou sua sombra além das quatro linhas. Filho de um advogado e de uma diretora de hospital, Gerard Piqué Bernabéu tem uma frondosa árvore genealógica. Seu avô, Amador Bernabéu, foi vice-presidente do Barcelona. Daí veio o sonho do neto de dirigir o clube catalão. O sobrenome Bernabéu não tem relação com o ex-presidente do Real Madrid que dá nome à arena do arquirrival. É apenas coincidência mesmo. Quem diria: um Bernabéu pode presidir um dia o Barcelona.

Desde 2012, quando se casou com a cantora Shakira, seu nome também frequenta as páginas de entretenimento. O berço garantiu boa educação e facilidade para se expressar sobre vários temas. Desde 2014, ele pede uma consulta popular sobre a separação da Catalunha. Domingo, foi votar no referendo (considerado ilegal pelo governo) antes do duelo entre Barcelona e Las Palmas, pelo Espanhol. Os funcionários da seção eleitoral não fizeram cerimônia e sacaram celulares para registrar o voto do rosto do catalão.

ANÁLISE

"No momento, é muito difícil saber o impacto que uma hipotética independência da Catalunha teria no esporte. O que está muito claro é que os dois lados perderiam, especialmente a Catalunha, por ter menor potencial de habitantes. A força das equipes catalãs seria bastante reduzida por não dispor dos mesmos recursos, mas a Espanha também seria prejudicada.

O Barcelona e todas as equipes de futebol, por exemplo, estariam fora do Campeonato Espanhol de acordo com a lei nacional do esporte. Como consequência, também ficariam fora da Liga dos Campeões. No futuro, essas equipes até poderiam, quem sabe, ganhar uma vaga na Liga dos Campeões através da sua nova federação, se houver uma de fato.

Vale lembrar ainda que os jogadores nascidos na Catalunha teriam de deixar a seleção espanhola para jogar pela seleção catalã não por convicção, mas por uma questão de nascimento. É difícil prever também que, nos Jogos de Tóquio-2020, a Catalunha tenha uma equipe independente. Para que isso ocorra, teriam de chegar a um acordo e, agora, ambas as partes estão em conflito".

JOSÉ LUIS ARTÚS É REPÓRTER DO JORNAL ‘MUNDO DEPORTIVO’, DE BARCELONA

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