Sérgio Moraes/Reuters
Sérgio Moraes/Reuters

Protestos arruinam imagem do Brasil e preocupam a Fifa

Planos de usar a Copa para promover o País são revistos; Governo tenta reforçar a segurança sem arruinar clima de festa

JAMIL CHADE - Enviado Especial, O Estado de S. Paulo

23 Junho 2013 | 07h29

RIO - A Fifa ficou irritada com a demora da presidente Dilma Rousseff em se pronunciar e tomar medida para garantir a segurança da Copa das Confederações. A entidade só aceitou manter o torneio por enquanto no País depois que recebeu garantias de que até o Exército poderia ser convocado para proteger os estádios, além das declarações da presidente em rede nacional pedindo que os manifestantes respeitem os estrangeiros. Mas, para a Copa de 2014, a Fifa avisa: ou muita coisa muda, ou não há como pensar em chegar ao País com 32 seleções e 600 mil turistas estrangeiros.

Mesmo que a situação para o evento nesta semana tenha sido relativamente resolvida, especialistas e membros da Fifa consultados pelo Estado admitem que os protestos que tomaram as ruas das cidades brasileiras já estão tendo um impacto profundo na organização da Copa de 2014.

Desconcertados diante da violência e da constatação de que o Brasil não é apenas "o país do futebol", a Fifa já estuda uma mudança drástica na organização do evento no ano que vem para salvar tanto sua imagem quanto seus lucros.

Oficialmente, a Fifa garante que não existe risco de a Copa ser cancelada. Mas todos dentro da entidade confirmam que, para o ano que vem e mesmo para outros eventos Fifa pelo mundo, os planos terão de passar por transformações radicais se o Brasil de fato for querer manter o torneio no País. Na melhor das hipóteses, a Copa ficará mais cara, já que exigirá um novo esquema de segurança. Na pior delas, o evento terá de ser transferido de local, o que ninguém quer que ocorra.

A percepção é de que se a manutenção da segurança já tem sido um problema para os oito times em apenas seis sedes na Copa das Confederações, ninguém sabe dizer exatamente como será o esquema montado para 32 times em 12 sedes na Copa do Mundo se os protestos forem mantidos.

A crise virou, no fundo, um jogo de empurra-empurra. As seleções estão pressionando a Fifa por segurança e alertam que seus jogadores milionários não podem ser ameaçados. Já os patrocinadores alertam que pagaram verdadeiras fortunas para estar na Copa e querem ter garantias de que seus convidados VIPs - CEOs de empresas, mega investidores e personalidades - poderão circular pelo Brasil.

MUDANÇAS

Se o foco internacional está voltado no momento para o Brasil, governo e Fifa sabem que já precisam trabalhar para 2014. Um dos cenários elaborados pelo governo é o de reforçar a segurança, inclusive com pessoas infiltradas entre os torcedores e o uso do Exército, em caso extremo.

A dificuldade já admitida pelo governo, porém, é o de equilibrar entre manter a segurança do evento e, ao mesmo tempo, não criar um ambiente de guerra. Em estádios pelo Brasil, o deslocamento das tropas de choque, força nacional e centenas de PMs criou um ambiente longe da festa que a Fifa e patrocinadores esperavam.

Mas, mesmo que a segurança seja reforçada, o temor é de que os planos de usar a Copa como vitrine do País terão de ser abandonados. Redes hoteleiras, que investiram milhões de dólares no Brasil nos últimos anos tendo em vista a Copa, já começam a fazer seus cálculos diante da hipótese de que o número de turistas seja bem menor.

Originalmente, o governo falava em cerca de 600 mil visitantes durante o evento. Mas diante das imagens difundidas em todo o mundo, operadoras de turismo já admitem que poderão ver uma nova situação. "Todos estavam conscientes de que a Copa no Brasil não seria feita com a perfeição da Alemanha. Mas todos apostavam que seria divertida e que as festas seriam ótimas. Mas, agora, nem esse componente de festa existe", admitiu um operador de turismo no Rio, que pediu para não ser identificado.

PRONUNCIAMENTO

Depois de dias de um mal-estar entre governo e Fifa por conta da falta de segurança, a entidade optou por elogiar o pronunciamento de Dilma na televisão, em que a presidente indicou que não irá tolerar a violência. Naquele momento, o governo havia dado garantias de que o efetivo de policiamento seria incrementado em 30%, o que tranquilizou a entidade.

No seu discurso, a presidente pediu que os brasileiros recebam os estrangeiros "com carinho" e insistiu que não haveria espaço para perder a Copa, o que foi interpretado pela Fifa como um compromisso do governo de que a promessa de segurança extra seria cumprida. "O futebol é símbolo de paz entre povos. O Brasil merece e vai fazer uma grande Copa", completou Dilma.

Jérôme Valcke, em declarações no Rio, insistia na sexta-feira que a responsabilidade pela segurança era do governo. Às autoridades, o tom foi de alerta: um plano B seria implementado se essas condições não fosse cumpridas.

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