Quando dinheiro atrapalha

Quando se tem dinheiro à vontade, as coisas dependem da sua competência. Ou burrice

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2017 | 03h00

Não reconheço mais esse time nem essa torcida. Um time que, com desprezo olímpico, se desfaz de Gabriel Jesus (recebendo uns trocados), Rafael Marques, Gabriel, Lucas Barrios, Vitor Hugo, se impõe o dever de contratar em seus lugares jogadores melhores. Não vou citar nomes de quem chegou para não expor jogadores que não pediram para jogar no Palmeiras. Digo apenas que, embora tenha chegado gente em grande numero, nenhuma contratação contribuiu para melhorar o time, ao contrário.

O resultado é que hoje há três laterais-direitos, nenhum bom. Não há mais um centroavante que possa ser reconhecido como tal. Armadores como Jadson ou Lira não existem no elenco. Zagueiro de área só há realmente um, que às vezes, conforme o andamento do jogo, vira centroavante(!!!).

Os remanescentes do time campeão do ano passado parecem meio perdidos e não sabem mais o que são. Tchê Tchê, um belo jogador de meio-campo, não sabe mais onde joga, se é lateral ou meio-campo. E, se é meio-campo, não sabe se joga mais á frente ou mais atrás. Dudu, que tinha encontrado sua posição no futebol, por obra, aliás, do Cuca, não sabe mais o que fazer e parece retroceder para seus primeiros tempos de Palmeiras. Moisés continua machucado e esperemos que quando se recuperar não seja mandado para o Corinthians, reforçando ainda mais o meio-campo do rival, exatamente como aconteceu com Gabriel.

Isso que relatei parece uma acusação ao Cuca. Pois bem, não é. Cuca faz o que pode num time que ficou pior do que era. Não sou eu quem diz isso, é o próprio Cuca. Ele rapidamente viu isso. Eu, muito menos competente e mais lento, vi um pouco depois. E vamos ser verdadeiros e dizer o que Cuca disse de maneira mais suave: não é que o time ficou pior; o time ficou MUITO pior.

Quem contrata no Palmeiras se equivocou em quase tudo, tanto na dispensa de jogadores como na contratação. Deve haver muita coisa misteriosa nas causas profundas desses negócios. Vou me limitar a apontar uma que, talvez, seja apenas a mais visível. Muito dinheiro. E isso, muitas vezes, é um problema. Quando você não tem dinheiro, sendo o dinheiro o que impulsiona tudo na vida, é fácil atribuir o insucesso à penúria. É desculpa verdadeira e confortável, melhor ainda se você tem alguma inteligência e alguma ajuda do acaso. É que esses três fatores combinados podem fazer dar tudo certo como no Corinthians.

Se você tem dinheiro à vontade, porém, as coisas só dependem de sua competência ou de sua burrice, com o perdão da palavra. O Palmeiras tem feito um péssimo uso do dinheiro. Até no modo como ostenta. À maneira de um novo rico embevecido com suas posses, está se indispondo com outros clubes pelo modo arrogante de negociar. Fez um papel feio com o Fluminense ao aliciar jogador de maneira quase truculenta, brandido seus milhões, e um papel ridículo com o Sport, no caso mais recente de Diego Souza.

A arrogância não combina bem com um clube fundado por operários e pequenos comerciantes. É difícil reconhecer neste Palmeiras aquele Palmeiras. É difícil também reconhecer a torcida. Tempos atrás, uma derrota para o Corinthians, como a de quarta-feira, quando o time levou um vareio de bola, faria tremer o velho Parque Antártica.

Hoje não há mais Parque Antártica, não há mais turma do amendoim, não deve haver sequer amendoim à venda no elegante estádio. A derrota é aceita com tímidas vaias, e foram vendidos antecipadamente 29 mil ingressos para o jogo com o Vitória. O telão está sendo preparado para exibir mais carinhas alegres e risonhas. Todos felizes como num show de Paul McCartney que, aliás, se dá no mesmo lugar, é possível até que assistido pelas mesmas pessoas.

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