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Copa 2014

Revolução no futebol alemão começou há 14 anos

Jamil Chade - Enviado especial ao Rio de Janeiro - O Estado de S. Paulo

10 Julho 2014 | 05h 00

Eliminação humilhante da Eurocopa de 2000 levou à criação de um plano de longo prazo para renovar o futebol do país

A elasticidade do placar do jogo entre Brasil e Alemanha surpreendeu. Mas, para os alemães, a superioridade do time de Joachim Löw é resultado de um plano conduzido com detalhes por mais de uma década e que, agora, colhe seus frutos. A meta sempre foi muito clara: acabar finalmente com o jejum de 24 anos sem um título mundial.

Tudo começou em 2000, depois da humilhante eliminação da Alemanha da Eurocopa. Naquele torneio, a Mannschaft não venceu um só jogo e saiu da competição após um empate (com a Romênia, por 1 a 1) e duas derrotas (para a Inglaterra, por 1 a 0, e para Portugal, por 3 a 0). Clubes, federações locais e jogadores se reuniram e fizeram uma constatação preocupante: o futebol alemão não era mais competitivo. Foi, então, montado um plano para reerguê-lo, e a prioridade não seria trazer estrelas estrangeiras, mas criar uma base de jovens para que, dez anos depois, pudessem brilhar.

A meta era atrair, em cada cidade, jovens talentos e formá-los, mesmo que levasse anos para dar resultados. No campo financeiro, a ordem foi trocar os gastos milionários com jogadores estrangeiros por investimentos locais. Todos os clubes foram obrigados a montar escolinhas de futebol como exigência para que pudessem participar do campeonato nacional.

Nilton Fukuda/Estadão
Neste período de 14 anos, foi gasto US$ 1 bilhão na formação de jogadores

Desde então, US$ 1 bilhão foi gasto no desenvolvimento de jovens estrelas. Hoje, são 366 centros de treinamento de menores, empregando mil treinadores e dando espaço para 25 mil alemães tentarem a sorte no futebol. Alguns dos garotos que se beneficiaram dos investimentos são verdadeiras estrelas, como Thomas Müller, e jovens que já estão na seleção alemã.

Não faltou espaço nem mesmo para filhos de imigrantes que, pelo plano, foram considerados essenciais para trazer ao modelo alemão um perfil mais leve e dinâmico. Sem traumas e longe da ideia de nacionalismo alemão, o time entra em campo com vários "estrangeiros" e várias religiões. O pai de Mesut Özil é turco, enquanto a família de Sami Khedira vem inteira da Tunísia. Miroslav Klose nasceu na Polônia, assim como Lukas Podolski. Jerome Boateng tem sua família em Gana e Shkodran Mustafi é kosovar.

Nos estádios, os preços de ingressos foram mantidos congelados, garantindo a lealdade do torcedor. Empresários estrangeiros foram impedidos de comprar clubes, como na Inglaterra. Hoje, a Bundesliga é o torneio mais rentável de toda a Europa, com a maior média de público, 45 mil por jogo, e o único em que todos os times estão em situação financeira estável.

A estrutura montada pelo Bayern de Munique se transformou em paradigma. O local é um laboratório da técnica e de inovações. Cinco campos de treinamento espaçados em 70 mil metros quadrados recebem, semanalmente, 185 jovens. Destes, 90% são do próprio estado da Baviera (Bayern), cuja capital é Munique.

No total, o clube mantém 11 times completos, além da equipe principal. Para selecionar os jovens que poderão treinar na "academia", o Bayern tem 26 olheiros e treinadores, todos com formação profissional. Outras 40 pessoas trabalham exclusivamente para os times de base, incluindo psicólogos.

Os investimentos chegam a R$ 10 milhões apenas nas equipes de base, o que inclui até um gramado com aquecimento subterrâneo. Os primeiros resultados são reais. Por esses campos, além de Müller, saíram Lahm, considerado um dos melhores laterais do mundo, Schweinsteiger e Toni Kroos. E o único critério para aceitar um jovem na escolinha é sua técnica. O rigor nos treinamentos segue o melhor estilo alemão. Aos jovens de 7 anos de idade, o clube exige presença obrigatória nos três treinos semanais.

Para aqueles que prometem ser novas estrelas, é garantido um tratamento VIP. Treze desses jovens entre 15 e 18 são hospedados nas instalações do Bayern, um modelo parecido ao que existe no Barcelona. Mas, sem boas notas na escola local, são eliminados do programa.

Dos 134 clubes europeus, o Bayern foi o que mais forneceu jogadores para a Eurocopa. O time também forneceu para a Copa do Mundo nada menos que 18 jogadores. Mas não são apenas os grandes clubes que investem. Para garantir que todas as agremiações conseguissem montar suas academias, a federação exigiu que clubes mais ricos financiassem parte das escolinhas dos mais pobres.

O Schalke foi um dos primeiros a reforçar suas equipes de base. Fechou um acordo com um colégio local e transformou as aulas de educação física em uma preparação para o clube. Agora, os investimentos estão dando frutos. Cinco goleiros titulares na primeira divisão vieram da escolinha, incluindo o goleiro da seleção, Manuel Neuer.

"Estamos prontos (para ganhar a Copa)", declarou o presidente da Federação Alemã de Futebol, Wolfgang Niersbach. "O segredo é que trabalhamos muito e agora podemos dizer que somos um dos favoritos."

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