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Rodrigo Caio e o fair play: a jogada que invadiu o campo da ética

Atitude do zagueiro de revelar ter ele atingido o goleiro Renan, o que anulou cartão que Jô recebera, é aplaudida, mas há quem admita que não faria igual

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Ciro Campos, Daniel Batista e Gonçalo Junior

18 Abril 2017 | 07h00

A jogada mais importante das semifinais do Campeonato Paulista passou longe de discussões táticas, técnicas ou de arbitragem e invadiu o campo da ética. Atletas e ex-jogadores elogiaram a atitude do zagueiro Rodrigo Caio, que livrou o rival Jô de levar um cartão amarelo. O ato foi ainda mais valorizado porque o corintiano seria suspenso do próximo jogo. Por outro lado, muitos atletas admitiram que não teriam o mesmo espírito esportivo.

A voz mais importante a ironizar o jogo limpo foi do zagueiro Maicon, companheiro de Rodrigo Caio. “A gente deveria respeitar a atitude do Rodrigo. Se foi certo ou não, é da consciência de cada um. Mas eu prefiro a mãe do meu adversário chorando em casa do que a minha.”

Ex-jogadores fizeram coro. “Acho louvável, bacana, corretíssimo, tem de servir de exemplo para todo mundo, inclusive para a sociedade de um modo geral, mas eu acho que não faria, não”, declarou Edmundo, ex-jogador do Palmeiras e comentarista do canal Fox Sports

Conhecido pelo estilo irreverente e provocador, o ex-palmeirense Paulo Nunes também deixou o “politicamente correto” de lado. “Não vou ser hipócrita, eu buscava irritar os adversários, tirar proveito de uma situação”, confessou. 

O técnico Guto Ferreira, hoje no Bahia, compreende o comportamento. “Nós vivemos numa cultura em que a busca pelo pão do dia a dia faz com que as pessoas não meçam esforços para se dar bem”, disse. “Infelizmente, estamos acostumados a ver os jogadores buscando levar vantagem a qualquer custo”, completou Celso Roth, atualmente sem clube. 

O atacante Jô, principal beneficiado, afirmou que se sente em débito com o são-paulino para o jogo de domingo. “Essa atitude nos responsabiliza muito. Domingo, fomos os beneficiados. Se acontecer com a gente, temos que fazer igual.”

PARABÉNS

Várias entidades parabenizaram Rodrigo Caio. “Pequenas atitudes de grandes homens há décadas enobrecem o futebol paulista”, disse a página oficial da Federação Paulista no Facebook. “Estamos vivendo muito da malandragem e isso tem prejudicado o espetáculo. Pênaltis que os jogadores simulam não são fáceis para o árbitro”, disse Marcos Marinho, chefe de arbitragem da CBF.

A discussão se situa no território da ética, aquilo que não é obrigatório, mas que deve ser feito em nome do espírito esportivo e da ética. “A conduta de Rodrigo Caio indica dois horizontes. O primeiro é o espanto por ainda nos espantarmos pelo fato de alguém fazer o correto. O segundo é a alegria por ainda nos alegrarmos pelo fato de alguém fazer o correto. O primeiro horizonte nos adverte; o segundo nos anima”, disse o filósofo Mario Sergio Cortella ao Estado

Em fevereiro, a CBF criou um cartão para homenagear as boas atitudes na Copa Verde, competição do Norte do Brasil. Ao contrário do amarelo e do vermelho, a nova tarjeta – verde – tem conotação positiva e valoriza o fair-play. 

Entre os bons exemplos estão avisar o árbitro de que o jogador cometeu uma infração não percebida. “Lembro de ter visto lances parecidos na Europa, mas precisamos ter mais exemplos no Brasil”, diz Alberto Valentim, técnico do RedBull. 

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Análise: ‘Rodrigo Caio deu um exemplo de conduta ao esporte e ao Brasil’

Você teve a situação agora de alguém que não quer ganhar a qualquer custo

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Renato Janine Ribeiro *

18 Abril 2017 | 07h00

Foi um feito fabuloso o do Rodrigo Caio. A tendência é pensar que nas situações vale tudo. No amor, por exemplo, dizem que vale tudo, porque vale mentir para conquistar uma mulher. Isso tem muito no futebol, principalmente pelo culto à malandragem. 

No momento em que a gente vê toda essa podridão surgindo, foi bom ver isso. Talvez podemos até dizer que, nesse momento ruim, você tem duas hipóteses: pode ser uma pessoa blasé e achar que como tudo vai ser podre temos que agir da mesma maneira ou repudiar isso e adotar o discurso de “queremos um Brasil melhor”. O que o jogador fez se encaixa nesse segundo exemplo.

Se você pegar as antigas lutas de cavalaria, o ideal era vencer de forma honesta. Então, vencer por causa de uma trapaça não é uma vitória. O que tivemos foi um caso público e notório, com testemunhas, de uma conduta que vai em outra direção. Só posso cumprimentar o jogador, pois deu um exemplo não só ao esporte como ao Brasil.

Vamos lembrar dos dois maiores jogadores de futebol, o Maradona e o Pelé. Você tem o episódio da ‘Mão de Deus’ que o argentino fez, na Copa de 1986, e tem o mito de que o Pelé tinha o talento para arrumar um pênalti ou uma falta. Você teve a situação agora de alguém que não quer ganhar a qualquer custo.

* É PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA USP

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