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Copa 2014

Seleções apostam na presença familiar durante o Mundial

Raphael Ramos - Enviado especial a Curitiba - Colaborou Luís Augusto Monaco - O Estado de S. Paulo

24 Junho 2014 | 05h 00

Algumas delegações incluem parentes, que acompanham cada passo de seleções como Holanda, Itália e Equador na Copa

Na manhã do último dia 13, as mulheres dos jogadores da Holanda visitaram os maridos no hotel onde o time estava concentrado em Salvador. Horas depois, os holandeses golearam a Espanha por 5 a 1, com uma atuação exuberante. Não se sabe exatamente o que aconteceu naquele encontro, mas, para o técnico Louis Van Gaal, a visita contribuiu de alguma forma para a exibição de gala. Segundo ele, os atletas ficaram mais "felizes" depois de matar a saudade das mulheres.

Entre as 32 seleções participantes da Copa do Mundo, a holandesa é a mais aberta. Seus jogadores já foram à praia no Rio e visitaram o Corcovado. É uma postura bem diferente da primeira passagem de Van Gaal pela Holanda, quando ele não conseguiu a classificação para o Mundial de 2002 e foi acusado de impor um regime demasiadamente severo.

Hoje é comum, por exemplo, ver o craque Van Persie brincando com os filhos após os treinos. "Van Gaal não é apenas um grande treinador na parte tática. Este tipo de coisa mostra que ele também é fantástico do ponto de vista pessoal", elogiou Van Persie.

Ricardo Moraes/Reuters
O holandês Van Persie com a filha Dina durante a Copa no Brasil

Enquanto algumas equipes optaram pelo enclausuramento total, como Espanha, Chile e Argentina, há outras delegações, assim como a holandesa, em que as famílias participam ativamente do dia a dia dos jogadores durante o torneio. É o caso de Itália e Equador. E para atender os familiares dos atletas foi preciso montar esquemas complexos de logística.

Cada integrante da delegação holandesa pôde trazer até quatro parentes. Assim, a comitiva é formada por 109 pessoas. Teve gente que comprou passagem para o sogro e o cunhado, por exemplo. Para levar o grupo para Salvador, Porto Alegre e São Paulo, cidades onde a seleção jogou na primeira fase, foi preciso fretar um avião.

CONTRATEMPOS

Uma agência de turismo com funcionários bilíngues cuida de toda a logística. Mesmo assim, os contratempos são inevitáveis. Após a vitória por 3 a 2 sobre a Austrália, os ônibus com os familiares dos holandeses ficaram presos no trânsito de Porto Alegre e chegaram ao Aeroporto Salgado Filho depois do horário combinado - os veículos não têm batedores nem escolta especial, a exemplo do que acontece com as seleções. Para piorar, dois integrantes da caravana ficaram para trás.

O resultado de tanta confusão é que o voo para o Rio atrasou quase duas horas, para revolta dos passageiros, que ficaram sem almoçar até as 20h. Para evitar que os holandeses voltem a passar fome em caso de novos imprevistos, a ordem agora é que, nos dias de viagem, eles tomem um café da manhã reforçado no hotel e, se possível, levem frutas e lanches para comerem ao longo do dia. 

A seleção do Equador também coleciona algumas histórias curiosas. Os familiares dos jogadores viajam juntos com os atletas e já houve até troca de bagagem. A mala do presidente da federação, Luis Chiriboga Acosta, foi parar com a mulher de um jogador, e a confusão demorou para ser desfeita. O time está concentrado em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre, e os familiares estão divididos entre Gravataí e a capital gaúcha.

No último sábado, como prêmio pela vitória de virada por 2 a 1 sobre Honduras no dia anterior, os atletas ganharam folga e foram buscar os familiares para passear em um shopping. Teve jogador, no entanto, como o meia Édison Méndez, que foi até o hotel onde estão as mulheres e ficou por lá mesmo durante a folga.

O que chama mais a atenção na seleção equatoriana, no entanto, é o fato de Alejandra, filha do treinador Reinaldo Rueda, não acompanhar o pai no Brasil como uma simples torcedora. Jornalista, a jovem de 24 anos trabalha para um canal de TV do Equador e tem como missão fazer reportagens sobre o desempenho da equipe do pai.

Bastante assediada pela imprensa, Alejandra garante não ter informações privilegiadas e diz que uma das maiores emoções da sua curta carreira foi entrevistar o pai na zona mista do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, após a partida entre Equador e Suíça, pela primeira rodada do Mundial. "Era um sonho os nossos caminhos profissionais se cruzarem", conta.

FAMIGLIA 

Na Itália, pela primeira vez numa Copa os jogadores estão dividindo com parentes o hotel que usam como base de treinamentos, em Mangaratiba, no Rio. O filho do técnico Cesare Prandelli é um dos preparadores físicos da seleção e veio com a mulher e a filha. O técnico também trouxe a namorada. O atacante Cassano foi além: a sogra e a babá estão no Brasil.

Fanny Neguesha/Instagram
O italiano Balotelli faz pose ao lado da namorada, Fanny Neguesha

Mas há regras para o convívio com a família. As áreas de uso comum são apenas o lobby, o salão de jogos, a capela e a praia. As refeições, por exemplo, são feitas em restaurantes distintos.

A primeira vez que os atletas e os integrantes da comissão técnica jantaram juntos foi no último sábado, quando Prandelli autorizou a presença de parentes e amigos no restaurante do Hotel Pestana, em Natal, onde a equipe está hospedada para enfrentar o Uruguai. O encontro foi um jeito que o treinador encontrou para tentar recuperar psicologicamente o grupo para a partida decisiva desta terça-feira, após a derrota para a Costa Rica. 

Mas a "concentração aberta" da Azzurra não é unanimidade na imprensa italiana. Por isso, coube ao veterano Buffon defender Prandelli no último domingo. "Ano passado, ficamos em terceiro na Copa das Confederações com esse mesmo modelo de concentração e o que se dizia é que o fato de termos ficado perto da família havia sido algo positivo, mas agora, por causa de uma derrota, se diz o contrário."

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