Reprodução Twitter @fenerbahce
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Sem medo de atentados, Souza quer título para coroar temporada

Volante do Fenerbahçe diz viver o melhor momento da carreira

Entrevista com

Souza, volante do Fenerbahçe

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2017 | 17h00

Quando um carro-bomba explodiu perto da Arena Vodafone, em Istambul, poucas horas após o jogo entre Besiktas e Bursaspor, no dia 10 de dezembro de 2016, pelo Campeonato Turco, o volante Souza estava em casa, pensando na partida contra o Antalyaspor, que seria dois duas depois, em Antália, cidade do sul da Turquia. O atentado terrorista assustou o ex-são-paulino e alterou sua rotina. Mas o medo se dissipou aos poucos até tudo voltar ao normal. Quase seis meses depois, o jogador de 28 anos se diz feliz no país europeu, onde mora com a mulher e os dois filhos, e, em sua melhor fase na carreira, quer coroar sua boa temporada com um título. 

Naquele atentado, 30 policiais, que trabalhavam na segurança do jogo, morreram. Apesar da preocupação momentânea até de sair de casa, Souza participou de um amistoso para arrecadar fundos para os familiares das vítimas. Foram convidados dois jogadores de cada equipe, um turco e outro estrangeiro. O brasileiro representou o Fenerbahçe.

A Turquia seguiu adiante depois da tragédia. Souza também. Neste domingo, o volante entra em campo em mais um clássico. O jogo contra o Besiktas é decisivo para o Fenerbahçe que está oito pontos atrás do adversário com cinco jogos por disputar. Com um situação difícil no Campeonato Turco, o título mais próximo é o da Copa da Turquia, em que o time está na semifinal. O segundo jogo contra o Istambul Basaksehir será no dia 11 de maio. Na ida, empate por 2 a 2.

Como vê o clássico contra o Besiktas como última chance para ainda sonhar com o título do Campeonato Turco?

Estamos encarando como um jogo importante para continuar lutando pelo segundo lugar e dar motivação para possamos vencer o título da Copa (da Turquia). Hoje são oito pontos de diferença, uma dificuldade muito grande, mas não perdemos nenhum clássico, não sofremos gol. Queremos muito ganhar, sabendo das dificuldades por ser fora de casa, para dar alegria à torcida, porque o clássico vale muito.  

O título da Copa da Turquia é uma questão de honra?

Como o cenário que nos encontramos, o título da Copa virou uma questão de honra, de obrigação para o clube. A gente sabe que não será fácil. Estamos na semifinal contra o segundo colocado do Campeonato Turco e empatamos o jogo de ida, na casa deles, por 2 a 2. O jogo de volta será no dia 17 de maio. Vamos tentar conquistar o título de qualquer forma para dar alegria à torcida e terminar o ano com um saldo positivo. 

Como avalia sua temporada individualmente?

É minha melhor temporada. Fiz seis gols, algo que nunca alcancei na carreira. Tenho dez gols em dois anos aqui. Individualmente foi maravilhoso. Fiquei marcado positivamente em vários momentos, principalmente contra o Galatasaray, quando fiz um gol em um jogo tão importante. Estou marcado na memória deste clássico. Espero coroá-la com o título da Copa.

O bom momento faz você sonhar novamente com seleção?

Vou sempre pensar em seleção. Sei do meu potencial, sei que posso estar presente. Mas é uma questão para o professor Tite. Ele conhece muito bem os jogadores, acompanha os campeonatos. Apesar da Turquia ser um pouco escondido, eu continuo fazendo o meu trabalho aqui e, se um dia ele me chamar, estarei pronto. Caso não chame também estarei torcendo pela seleção brasileira. Além de ser jogador, sou um apaixonado por futebol e pela seleção brasileira. Sei que fica mais complicado (ser lembrado), mas não é impossível.

Aquele gol contra o Galatasaray fez você mudar de patamar, virar ídolo da torcida?

O gol no clássico não é uma questão de (mudança) de patamar. A torcida vê com outros olhos todos aqueles que fazem gol em clássicos, sobretudo da forma que foi, no final do jogo, aos 90 minutos (45 do segundo tempo), na casa do adversário... Para você ter uma ideia, o Galatasaray não vence o Fenerbahçe como visitante há 17 anos. O Fenerbahçe, sempre que pode, belisca uma vitória na casa do Galatasaray. Agora faço parte disso, dessa histórica. Eu continuo com os meus pés no chão. A torcida só lembra daquele gol mais do que qualquer outra coisa, mas não acho que mudei de patamar.   

A relação da torcida do Fenerbahçe com os brasileiros é realmente diferente?

A torcida tem esse carinho porque viveu momentos maravilhosos com brasileiros aqui. Eles fizeram história, sobretudo o Alex, que é um ídolo. Mas, apesar do carinho, você tem de demonstrar o teu valor, caso contrário não adianta nada. A torcida cobra bastante, não tenho como viver do que (os brasileiros) fizeram. Tem de dar o seu melhor, se destacar ou você será visto como todos os outros.

Os torcedores turcos são mais fanáticos do que os brasileiros?

A torcida turca, como um todo, é mais fanática do que os brasileiros. Eles respiram futebol, amam o futebol... Vejo que eles têm uma devoção por seus clubes.

Você tem um planejamento para sua carreira?

O desejo no meu coração é ficar aqui na Turquia mais umas cinco temporadas. Deus sabe o que é melhor para mim, mas esse é o meu objetivo. Quero cumprir o meu contrato com o Fenerbahce e, caso não renove, ir para outro clube na Europa. Só penso em voltar ao Brasil com 33 anos, quando acredito ainda terei gás para render no time que eu for e posteriormente encerrar minha carreira.

Como é sua vida na Turquia? Fica preocupado com os atentados?

Minha vida aqui é maravilhosa, não tenho do que reclamar. Vejo o que acontece no Brasil e só tenho de agradecer pela oportunidade de criar o meu filho aqui, ter uma vida mais tranquila. As pessoas têm uma visão da Turquia um pouco deturpada. Aconteceu um atentado, agora já faz um bom tempo, pode até acontecer novamente, mas isso não me assusta, porque eu vivia no Brasil, vivia no Rio de Janeiro, quando você convive com o medo de ser assaltado e outras coisas. A vida aqui, nesta questão de segurança, é melhor.

Como lida com os problemas políticos da Turquia?

É uma situação que não gosto muito de tocar no assunto porque não é o meu país. Apesar de viver aqui, de estar inserido aqui, não me afeta em nada. Independentemente do que aconteça, eu quero o crescimento da Turquia. Não me preocupo muito com o lado político. Fico, na verdade, muito atento com o que acontece no Brasil, que é o país que escolhi para morar o resto da minha vida. Minha família mora toda no Brasil e me preocupo muito mais com isso do que com o movimento político aqui.

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