Soberba de sobra

Brasileiros voltam a pecar por excesso de confiança na Libertadores

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

21 Maio 2017 | 03h00

Brasileiro é bom de bola – fato, tradição, constatação irrefutáveis e reconhecidos no mundo todo. Mas também somos bons de conversa, cheios de pose e prosa. Bico doce, pra usar expressão antiga do Bom Retiro, para definir quem é exímio na arte de entregar menos do que promete. Em muitas atividades nos consideramos melhores do que os outros – mesmo quando estamos por baixo e deveríamos ficar de molho e na miúda. O futebol expõe nossa soberba. 

Nem sempre nossas equipes são impecáveis. Aliás, faz tempo que não temos um timaço daqueles de encher os olhos e cair o queixo dos gringos. Nos últimos anos, nos contentamos no mais ou menos, nos quebra-galhos, com algumas conquistas regionais e pouca expressão internacional. A proeza maior teve o Corinthians como protagonista, com o Mundial de 2012. Santos e Atlético-MG levaram, no suor, a Libertadores, em 2011 e 2013. Fora isso, só levamos lambadas. 

No entanto, vira a folhinha do calendário, chega nova temporada e nos flagramos a enxergar perspectivas esplêndidas para nossas equipes nos desafios com os quais se metem com os vizinhos. Na própria Libertadores e na Sul-Americana, invariavelmente entramos como favoritos. E não apenas com um clube, mas com vários! Analisamos elencos e investimentos, para chegarmos ao veredicto de superioridade. 

Desmentido com a bola a rolar que é, salvo exceções, como se decide o jogo.

O caso do Flamengo é o mais recente exemplo de falha de avaliação. Já na largada, assim que houve a distribuição dos grupos, a rapaziada de Zé Ricardo fez parte do bloco dos “candidatos ao título”. Porque tem jogadores rodadas, como Guerrero e Diego, pelo desempenho no Brasileiro em 2016, pelo potencial de jovens promessas, pelo Maracanã. Por isso, por aquilo. E coloco-me na turma que acreditava no Fla.

Daí, na prática, o que se vê? Um time com dificuldade para obter resultados como mandante – ainda assim vence as três partidas. E frágil na condição de visitante – três derrotas e, por extensão, a desclassificação na primeira fase. O que mostrou de edificante o rubro-negro para justificar as adocicadas previsões? Pouco, bem pouco. Alguns momentos de entusiasmo e um Guerrero como batalhador solitário. E só. Não há como creditar aos imprevistos do futebol outro fiasco precoce.

Não se tiram méritos dos adversários – Universidad Catolica, San Lorenzo e Atlético-PR. O Furacão também penou para seguir adiante. Assim como Palmeiras e Santos não encantam, mas se sustentam. Bem como Botafogo e Grêmio. O Atlético-MG deu uma deslanchada, depois de início vacilante. E, por falar em cochilo, a Chapecoense pode cair fora no tapetão. 

Não se trata de aniquilar com a autoestima de boleiros e agremiações daqui. Longe disso, xô complexo de vira-lata! É questão de recorrer com mais frequência ao bom senso, encarar a realidade e enxergar as limitações das equipes, muitas vezes relevadas em função da história delas, da simpatia, do apelo popular, da audiência. Fumaça que esconde o óbvio. Daí, caímos da cadeira quando um San Lorenzo (oh!) bate um de nossos representantes. Parece ofensa.

OUTRO TESTE

Na semana passada, o Corinthians cedeu dois pontos, ao empatar com a Chapecoense, em Itaquera. Na ocasião, serviram como atenuantes para o deslize a decisão do Paulista e a viagem para o Chile, pela Sul-Americana, em poucos dias. Fora gripe generalizada. Agora, os jogadores de Fabio Carille tiveram tempo de treinar e repousar. Espera-se desempenho mais convincente, no desafio reservado para a tarde deste domingo, em Salvador, diante do Vitória. Não custa lembrar que o Brasileirão é diferente – e mais difícil – do que o Paulista.

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