1. Usuário
Assine o Estadão
assine


Superar a desconfiança é o desafio de Dunga

Seleção brasileira faz dois amistosos nos Estados Unidos para tentar achar um rumo depois da Copa

Gonçalo Junior e Almir Leite

30 Agosto 2014 | 17h 00

A segunda passagem de Dunga pela seleção brasileira começa com rupturas e continuidades, como era de se esperar. O elenco que embarca hoje para realizar dois amistosos nos Estados Unidos – Colômbia, dia 5, em Miami, e Equador, dia 9, em Nova Jérsei – tem dez jogadores que disputaram a Copa e terminou em um vexatório quarto lugar. Dunga justificou dizendo que não dá para fazer milagre ou revolução em dois dias e que precisa de uma base. Já convocou Neymar para ser o centro da equipe. Nesse aspecto, as primeiras fileiras de tijolos foram alinhadas pelo prumo de Felipão.

A ruptura está na chance para jogadores que estão se destacando no futebol brasileiro, como Everton Ribeiro e Ricardo Goulart, do Cruzeiro, Diego Tardelli, do Atlético-MG, Gil e Elias, do Corinthians. E no discurso de que pode usar um falso camisa 9. A escolha dos goleiros (Rafael e Jefferson) expõe essa dualidade. A comissão técnica também se apresenta como inovadora, com a presença de um auxiliar pontual, cargo que nem o dono da cadeira, Mauro Silva, soube explicar direito do que se trata.

Entre 2006 e 2010, Dunga conquistou a Copa América de 2007 e da Copa das Confederações de 2009, mas falhou no Mundial da África do Sul. Na avaliação da CBF, teve nota suficiente para uma nova chance. Antes de pensar em títulos, tem a missão de fazer a equipe erguer a cabeça. Gosta da expressão “vida nova”, mas sabe que não poderá esperar quatro anos para dar frutos. Os ecos dos gols da Alemanha ainda vão ecoar nos jogos dos Estados Unidos. Com isso, não dá para romper.

Rafael está pronto para recomeçar na seleção

Titular do Napoli quer mostrar a mesma força que o ajudou a superar problemas e contusões

A vida de Rafael é um eterno recomeço. Aos 13 anos, teve de se reerguer depois do carrinho violento que levou do destino com a morte de sua mãe. Outra contusão grave, essa no sentido literal, foi uma fratura na perna direita, quando era o terceiro goleiro do Santos. Tinha 19 anos. Em 2012, ficou fora da Olimpíada de Londres por causa de um trauma no cotovelo. No início deste ano, o rompimento do ligamento do joelho direito tirou sua chance de disputar a Copa. Hoje, dá novo start à sua história na seleção.

Embora tenha um jeitão de novidade na lista de convocados, Rafael já atuou três vezes pela seleção brasileira, sempre com Mano Menezes. Soma duas vitórias (Argentina e Estados Unidos) e uma derrota (México). Depois de ter passado em branco na era Felipão, por opção da comissão técnica e também pelas lesões, é o novato que larga na frente para vestir a camisa 1 nesse novo ciclo. Disputa com Jefferson o peso de substituir Julio Cesar, goleiro em três Copas.

 

Wilton Junior

Rafael é titular do Napoli, da Itália, depois de uma passagem vitoriosa pelo Santos. Chegou lá no ano passado em uma negociação de R$ 16 milhões, um recorde para a posição. Depois de esquentar o banco por quase meio ano, ganhou espaço e se tornou absoluto com a negociação de Pep Reina com o Bayern.

As lesões, mais exatamente a maneira como Rafael se recuperou de cada uma, ajudam a entender as razões desse retorno. Rafael sempre conseguiu voltar antes do esperado.

O prazo para se recuperar daquela primeira lesão era de dez meses. Voltou em três. Neste ano, antecipou o retorno de seis para quatro meses. Durante os frequentes períodos de recuperação, transformou em amizade o relacionamento profissional com o fisioterapeuta do Santos, Thiago Lobo. “O Rafael mostrava força e determinação para se recuperar o quanto antes, isso é fundamental para um atleta”, afirma o fisioterapeuta.

Os dois conversavam praticamente de igual para igual. Rafael é formado em Educação Física pela Unisanta, de Santos. “Ele tem um perfil diferenciado, queria entender o que estava acontecendo durante a recuperação”, diz Lobo.

O goleiro concluiu o curso aproveitando o período em que era terceiro goleiro e não precisava acompanhar o clube em todas as viagens. Mesmo assim, amigos do Santos contam que ele volta e meia estava com um livro nas mãos. Também ajudou a compor esse perfil intelectualizado a influência da mãe, Mara Cabral, que era diretora da escola e foi lembrada em sua entrevista depois da conquista da Libertadores, em 2011.

O preparador de goleiros do Santos, Sebastião Martins Oliveira Júnior, o Arzul, afirma que Rafael também é bom tecnicamente. “Ele é arrojado e domina os fundamentos”, diz o especialista.

Rafael não é perfeito, como pode sugerir os relatos de amigos e chefes. A derrota do Napoli para o Athletic Bilbao, por 3 a 1, na fase de classificação para a Copa dos Campeões evidenciou um dos pontos em que pode melhorar: a saída de gol.

O site Calcio Mecarto caiu matando em cima de Rafael. “Ok, em grande parte a culpa é de Albiol, mas esse tipo de saída você não pode fazer em um momento assim. Agora há muitos detratores, e eles podem dizer ‘Ah, se houvesse Reina’. Falta experiência a ele, mas as habilidades estão lá”, escreveu a publicação.

Curiosamente, Rafael tem se destacado por atuar adiantado, quase como líbero, ajudando na saída de bola e na cobertura. Esse é um dos seus diferenciais desde as categorias de base e, mais cedo ainda, quando jogava futsal em Sorocaba.

Ele tem sido tão importante nesse aspecto que reforçou um argumento do técnico Rafa Benítez: incluir o goleiro na descrição do esquema tático. Assim, teríamos, por exemplo, o 1-4-4-2 ou o 1-4-4-3. Na prancheta de avaliação de Taffarel, esse é mais um ponto para Rafael.

'Melhor goleiro é o que transmite confiança'

Taffarel, preparador de goleiros da seleção, analista perfil ideal do camisa 1

O Brasil tem uma boa safra de goleiros. Continua exportando e, nas competições, os goleiros brasileiros têm feito um bom papel. O Rafael e o Jefferson (convocados por Dunga para os amistosos da seleção brasileira contra Colômbia e Equador) terão chance de demonstrar seu valor.

O melhor goleiro é aquele que, seja no clube ou na seleção, transmite confiança e tranquilidade. Dentro do campo, o goleiro precisa ter qualidade, personalidade e vontade de vencer sempre; fora dele, tem de ser uma pessoa de respeito.

Estou acompanhando sempre que possível a atuação dos goleiros. É importante jogarem bem em seus clubes. Os goleiros, como os outros jogadores de uma seleção, são chamados porque estão bem em seus clubes. Devem chegar à seleção com 100% do seu potencial.

Daremos continuidade ao trabalho de preparação para os jogos (amistosos). O tempo é curto para grandes trabalhos, mas para o conhecimento é fundamental. Aqui, uma boa conversa inicial e trabalho é basicamente o que vamos fazer.

Todo goleiro tem ponto forte e ponto menos forte. São os chamados fundamentos. Trabalhar um pouco de tudo ajuda a dar a confiança que o goleiro precisa para jogar bem.

Na definição dos goleiros da seleção brasileira, eu fui consultado pelo Dunga. Mas a convocação é com ele. De minha parte, vou estar sempre atento para ajudá-lo a fazer sempre a melhor escolha. Eu e o Dunga temos uma longa relação de amizade, confiança e, o mais importante, vontade de fazer o melhor sempre.

'Vou ser bastante crítico', diz Mauro Silva

Assistente técnico pontual da seleção vai observar os primeiros amistosos nos Estados Unidos

Convidado por Dunga e Gilmar Rinaldi para ser assistente técnico pontual da seleção, Mauro Silva terá como tarefa ser um observador atento nos dias em que o grupo estará reunido para os amistosos contra Colômbia e Equador. E, para colaborar com os amigos de longa data, com os quais foi campeão mundial em 1994, o ex-volante vai se valer, principalmente, da experiência adquirida no futebol e da franqueza aprendida na vida.

“A minha ideia é dar um feedback para o Gilmar e para o Dunga sobre o trabalho. Como está sendo feito, desde o meu ponto de vista, os pontos fortes e o que tem a melhorar’’, disse Mauro ao Estado. “É uma análise crítica, foi o que eles me pediram. Às vezes, o que a gente não gosta de ouvir, o que não é agradável, é importante. O verdadeiro amigo é aquele que é sincero, honesto, transparente, que fala as coisas como realmente elas são.’’

Aos 46 anos, tem se dedicado há quase uma década aos negócios do ramo imobiliário. Mas não deixou de acompanhar o futebol. E tem a experiência de quem jogou durante 10 anos na seleção (60 partidas) e 13 no Deportivo La Coruña espanhol.

A partir de amanhã, ele estará presente em todas as atividades da seleção nos Estados Unidos. Não vai participar de trabalhos de campo, mas garante olhar atento a tudo o que ocorrer. “Se eu achar que tem alguma coisa que tem de ser dita no momento, com relação a alguma coisa que está acontecendo, vou passar para eles. Mas o meu trabalho é mais de observação, de crítica.’’ Ele pretende ficar no banco, junto com a comissão técnica, durante os amistosos. Depois, irá elaborar um relatório daquilo que viu e observou.

Mauro Silva considera as críticas à volta de Dunga à seleção como algo que faz parte do futebol. “Lógico que como sou membro da comissão, minha opinião está condicionada. Mas o que eu posso dizer é que o Dunga já demonstrou na seleção que pode fazer um grande trabalho. Tenho convicção disso.’’

Três perguntas para Gilmar Rinaldi, coordenador técnico da seleção

1. Quais as diretrizes para esse início de trabalho?

Não tem muito segredo. O que vai gente vai tentar é resgatar o espírito de coletividade do time, priorizar sempre a parte coletiva. Não tem muito o que falar agora. É trabalhar e explicar para eles (jogadores) que a única forma de sair dessa situação difícil é recomeçar, reconstruir.

2. Existe a necessidade de obter resultados positivos rapidamente...

Eu não vou nem pensar em resultados. Só dá para pensar em trabalhar e deixar que os resultados sejam a consequência. Não dá para trabalhar pensando: ‘Eu preciso ganhar, tenho de ganhar’.

3. Ou seja, tentar trabalhar sem pressão...

Nós decidimos que, independentemente do que vier a acontecer, vamos tentar fazer o melhor, se esforçar. Buscar o melhor em qualidade e em excelência no trabalho.