Talentosos aprendizes

Títulos estaduais enriquecem o currículo ainda modesto de jovens treinadores

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2017 | 03h00

Virou mantra afirmar, em cada início de temporada, que Estaduais morreram e não valem nada. Os centenários duelos paroquiais seriam apenas uma das tantas perdas de tempo do calendário nacional. No entanto, noves fora a festa legítima dos campeões pelo País, essas competições servem de laboratório para equipes se prepararem para os desafios maiores e de viveiro para técnicos principiantes – tanto para cima quanto para baixo.

O final da tarde de domingo enriqueceu o currículo ainda modesto de treinadores de três times de massa, de centros importantes. Fabio Carille ganhou o Paulistão com o Corinthians, Zé Ricardo levou o Fla à taça do Carioca e Roger comemorou com a rapaziada do Atlético-MG a reconquista da hegemonia mineira. Fora a proeza gigante de Beto Campos, com o primeiro título da história do Novo Hamburgo, na decisão gaúcha com o Inter.

Gente nova a comandar equipes, geração que chega para aprender com a experiência de Dorival Júnior, Abel Braga, Cuca, Mano Menezes e tantos outros que estão no mercado há muito tempo. E para contribuir, também, como não?! Pois se espera deles postura ousada, disposição para sair do marasmo, propostas que sacudam o ambiente. Enfim, que não tenham medo de deixar de lado fórmulas manjadas, que lhes confiram conforto e comodismo, e se ocupem em dar tratos à bola.

Ok, ganhar Estadual não equivale a Doutorado, para ficar em comparação acadêmica; está mais para conclusão de curso. Mas que seja bem aproveitado – para Libertadores, Sul-Americana, Brasileiro, Copa do Brasil... obstáculos de peso com os quais cada um se defrontará. Os três são bons, interessados, vão aperfeiçoar-se, embora nenhum se revele revolucionário. Ainda.

Carille estava na turma dos mais desacreditados. Passou um tempo à sombra do trabalho de Tite, teve breve aventura em 2016 e foi reconduzido ao cargo no começo do ano, por falta de alternativas e de dinheiro. O Corinthians largou como quarta força, sem nomes de peso em campo (fora o retorno de Jadson e Jô), e quase com carimbo de “interino” estampado no técnico.

Sem alarde, montou o time com o que tinha à disposição. Logo de cara ajustou a defesa, à maneira do que fizeram os antecessores Mano e Tite. Em seguida, tratou de equilibrar o meio-campo. Para, enfim, chegar ao ataque, setor árido, mas que contou com o ressurgimento de Jô, centroavante que perambulou aqui e ali até voltar para a origem. Com coleção de vitórias por 1 a 0, criou couraça para tocar o trabalho.

Teve sobressalto na eliminação na Copa do Brasil e recuperou terreno com boas apresentações nas etapas decisivas do Paulistão. O auge veio contra a Ponte. Na semana passada, passeio nos 3 a 0 em Campinas, quando praticamente fechou a conta. No jogo de ontem, não correu risco algum de surpresa, reação, reviravolta. O Corinthians foi sereno, com paciência para atrair a Ponte e abrir o placar. Só levou o empate porque, ora bolas!, àquela altura o título estava pra lá de confirmado.

Carille precisa soltar-se daqui em diante, para manter a ascensão na carreira. Entende-se a timidez dos primeiros meses, e não era para menos, para alguém que pisava em ovos e não sabia se chegaria sequer ao fim do Estadual (como aconteceu com o colega Eduardo Baptista, jovem que não suportou o tranco no Palmeiras.) Agora pode tentar saltos maiores, com o risco que campanha irregular no Brasileiro vai implicar.

O mesmo vale para Zé Ricardo e Roger, que têm vantagem em relação a Carille: contam com elencos melhores. Em contrapartida, expectativa e pressão são maiores, pois estão empenhados na Libertadores.

Bem-vinda a nova geração de técnicos – que esses moços não sejam meteoros e que logo virem “professores” no futebol. O Brasil precisa.

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