Gilberto Almeida/Estadão
Gilberto Almeida/Estadão

Teixeira copiou modelo da Argentina para negociar jogos da seleção

Investigações realizadas pelo FBI apontam que amistosos foram usados para lavar dinheiro

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2017 | 07h00

Investigações realizadas na Espanha com a ajuda do FBI,  como revelou o Estado, apontam que jogos amistosos da seleção brasileira foram usados para lavar dinheiro e desviar recursos, usando bases no Catar e contas secretas em Andorra. Essa transformação dos jogos da seleção em uma máquina de fazer dinheiro começou na Argentina, com o presidente da Associação de Futebol da Argentina, Julio Grondona, adotando o modelo. A CBF obteve uma cópia dos acordos que a seleção argentina fechou e tentou adotar o mesmo esquema para o Brasil. 

Ao lado de Rosell, ex-presidente do Barcelona, a CBF saiu em buscam de parceiros que pudessem fechar um acordo mais amplo para promover os jogos da seleção pelo mundo. Rosell e Teixeira mantiveram por anos uma amizade e mesmo entraram em acordos comerciais, principalmente quando o catalão era o representante da Nike no Brasil. 

Os direitos sobre os jogos da seleção acabariam sendo adquiridos por um grupo de investidores árabes da ISE, a empresa com base nas Ilhas Cayman, um paraíso fiscal. Logo depois, um acordo entre a ISE e Kentaro acabou permitindo que a empresa suíça realizasse a operação dos amistosos.

O presidente do Barça chegou a ser investigado no Brasil por conta de um amistoso entre Brasil x Portugal em Brasília. 

A reportagem do Estado também revelou com exclusividade o envolvimento de Rosell na tentativa de Teixeira em obter residência em Andorra, o que acabou ocorrendo em 2012. Entre os operadores que tramitaram o pedido de residência estava Joan Besoli, também preso nesta terça-feira. 

Investigações conjuntas entre a Suíça e Andorra também levaram à identificação de 4,9 milhões de euros em uma conta no principado e usando a Banca Privada d’Andorra. A instituição era presidida por Ramón Cierco Noguer, outro diretor do Barça. 

QUEM É O LARANJA

Um dos homens presos foi ainda Shahe Ohannessian. Oficialmente, ele é o dono da empresa que foi fundada por Rosell, a Bonus Sports Marketing SL. Mas investigadores descobriram que ele seria apenas um laranja do próprio ex-cartola.

Em 2014, o Estado revelou como a renda de dois amistosos da seleção brasileira foi usada para comprar essa empresa de Sandro Rosell em 2011. Documentos e fontes ligadas às operações dos jogos do Brasil revelaram com exclusividade ao Estado que a renda de jogos como Brasil x Gabão e Brasil x Egito foi transferida diretamente para o dirigente. 

Em 2011, 3 milhões de euros foram gerados em dois jogos da seleção. No dia 11 de novembro de 2011, o técnico Mano Menezes levou para Libreville um time com jogadores que seriam testados, entre eles Jonas, Bruno Cesar e Elias. No dia 14 de novembro, o Brasil seguiria para jogar contra o Egito. O local da partida seria o Catar, justamente o país que mantêm acordos milionários com Rosell. 

Documentos apontam que esses recursos foram instruídos a ser depositado não na conta da CBF, mas no pagamento da Bonus Sport Marketing, empresa que na época era de Rosell. A companhia tinha como meta enviar olheiros para a África e América Latina para buscar jovens craques que, por sua vez, seriam oferecidos para a academia Aspire, no Catar. Um dos patrocinadores do projeto da Bonus era a Nike, empresa que teve Rosell como seu representante no Brasil. 

Para se desfazer da empresa e poder assumir o Barcelona, a forma encontrada por Rosell foi a de vender justamente para a Dahall Al Baraka Group, a empresa que mantinha por meio de sua subsidiária ISE os direitos da seleção. Fontes envolvidas no processo confirmaram ao Estado que foram surpreendidas ao receberem a orientação de que o dinheiro deveria ir para a Espanha, sem qualquer intermediário.

Oficialmente, Rosell anunciou que havia feito a venda no dia 23 de julho de 2010. Mas, naquele momento, o único que havia era um contrato de compromisso de compra. A transferência da empresa ocorreria apenas em 2011 e o pagamento seria recebido no final do ano, graças aos jogos da seleção.

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