Marcelo Tasso/Estadão
Marcelo Tasso/Estadão

Teixeira é suspeito de ter enviado dinheiro de propina do Catar a outros cartolas

Site francês revela que FBI e Brasil estariam investigando papel de conta em Mônaco num esquema de corrupção na Copa do Mundo de 2022 e o envolvimento de Teixeira

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2017 | 17h51

O ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, é suspeito de ter sido o intermediário no pagamento e distribuição de dinheiro do Catar para outros dirigentes da Fifa que também votaram, em 2010, por levar a Copa do Mundo ao país do golfo.

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Isso é o que revela o site francês Mediapart, a partir de documentos de ex-funcionários de um banco de Mônaco e depoimentos. Segundo a publicação, o FBI emitiu um mandado de prisão internacional contra Teixeira e a Justiça brasileira estaria investigando o caso e o papel do brasileiro na transferência de recursos a partir de Monaco. 

Os ex-executivos que entregaram a documentação acabaram sendo demitidos em 2013 e denunciaram a situação do Banque Pasche às autoridades. 

Segundo esses ex-funcionários e documentos, Teixeira teria ordenado que três depósitos fossem realizados em 2013 a pessoas físicas. Um deles era destinado a “Leoz”. O segundo seria “Warner Brothers” e o terceiro “Mohamed”. A suspeita é de que “Leoz” seja Nicolas Leoz, ex-presidente da Conmebol e que foi indiciado nos EUA por corrupção. “Warner Brothers” seria uma referência a Jack Warner, ex-vice-presidente da Fifa e também indiciado nos EUA por corrupção. Ambos teriam votado em 2010 pelo Catar. 

Já o terceiro pagamento, intitulado “Mohamed” poderia se referir a Mohamed Bin Hammam, homem forte do Catar na Fifa e que também foi expulso da entidade por corrupção ao tentar comprar votos para a eleição presidencial de 2011. 

Em outubro de 2017, o Estado revelou com exclusividade que a Justiça francesa havia identificado uma conta em nome do brasileiro no valor de US$ 22 milhões no mesmo banco em Mônaco. A suspeita é de que o dinheiro que fora depositado nela vinha de sua relação com um fundo do Catar, o mesmo que pagou por um amistoso da seleção brasileira e que também é responsável por erguer obras para a Copa de 2022 no país do golfo.

O dinheiro entrou na conta em janeiro de 2011, vindo do grupo do Catar Ghanim bin Saad Al Saad & Sons Group (CSSG). No dia 17 de novembro de 2010, esse mesmo grupo promoveria o amistoso entre Brasil x Argentina. Em dezembro, o Catar ganhou a eleição na Fifa. 

Agora, a suspeita é de que os 22 milhões teriam sido usados não apenas para comprar o voto de Teixeira. Mas dos demais cartolas. No início de 2013, diversas transferências seriam realizadas a partir da conta. Várias delas, por exemplo, ocorreram no mesmo dia para as pessoas físicas apenas denominadas como  « Warner Bros », « Mohammed » e « Leoz ».

Teixeira não se pronunciou quando a reportagem o procurou em outubro. Na sexta-feira, seus advogados indicaram que a conta no Pasche foi declarada às autoridades fiscais. O banco não respondeu a emails e telefonemas da reportagem solicitando um comentário sobre o caso.

Ao site francês, o Crédit mutuel-CIC, que controla o banco Pasche, afirmou que não tinha conhecimento de uma conta aberta por Teixeira. 

Havelange - Os ex-funcionários ainda contam que Teixeira com frequência fazia as visitas acompanhado por um outro brasileiro: João Havelange, ex-presidente da Fifa e que chegou a ser seu sogro. 

“Teixeira chegava regularmente com João Havelange a Monaco, ao palácio Le Metropole”, conta Celine Martinelli, ex-administradora da conta do brasileiro. “Os dois vinham ao banco acompanhados por um funcionário da sucursal de São Paulo”, disse. As viagens eram bancadas pela instituição financeira. Em Mônaco, o banco é suspeito de lavagem de dinheiro. 

Numa reunião gravada por ex-funcionários do próprio banco, Teixeira é ainda citado como um exemplo de um cliente que “nenhum outro banco em Mônaco” o aceitaria. No áudio, é possível ouvir o diretor do Pasche indicar que sabia que ele havia recebido dinheiro “em troca de favores”. Mas Schmid insistia que, no Brasil, a entidade que Teixeira comandara era “privada”. 

As investigações na França tem uma relação direta com a compra de 5% do capital do grupo Veolia, em 2010, pelo fundo Qatari Diar. A operação, porém, foi utilizada para mascarar o pagamento de 182 milhões de euros em comissões ocultas no Chipre, Malásia e Cingapura. 

O fundo, porém, era de propriedade do mesmo Ghanim bin Saad al-Saad e a Justiça francesa avalia que o pagamento de 22 milhões para Teixeira ocorreu no quadro do acordo entre o Catar e a Veolia. 

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