Daniel Rodrigues/The New York Times
Daniel Rodrigues/The New York Times

Temido pelos adversários, time português coleciona vitórias por W.O.

Canelas 2010 assusta equipes pela violência e pela presença de torcedores organizados do Porto no elenco

Rory Smith, The New York Times

20 Maio 2017 | 07h00

Dez partidas de invencibilidade, todas com vitórias por 3 a 0. Qualquer time com esse retrospecto colocaria muito "medo" nos adversários e é exatamente o que ocorre com os rivais do Canelas 2010, time amador da região da cidade do Porto. O problema é que o "medo" é real – comandado por integrantes da torcida organizada Super Dragões, do Porto, jogadores da equipe passaram a ameaçar os oponentes, que decidiram não entrar mais em campo para enfrentá-los. 

Depois de um jogo sem gols contra a Padroense, em 23 de outubro, a equipe não voltou a atuar em 2016. Seus jogadores foram considerados violentos demais em campo e intimidadores demais para os juízes. Eles se tornaram um time sem adversários, com quem a divisão inteira ficou com medo de jogar.

"É injusto. Não somos violentos. Jogamos no mesmo nível que todo mundo; não queremos perder, então corremos, brigamos pela bola e damos tudo de nós dentro de campo", reclama o capitão do Canelas, Fernando Madureira.

Mas não é assim que os outros times veem a coisa. Em outubro, os presidentes das outras equipes da divisão fizeram várias reuniões escondidas e resolveram, praticamente por unanimidade, se recusar a enfrentar o Canelas novamente. A federação alertou as agremiações das consequências: multa de 750 euros (R$ 2.733) por cada jogo e vitória por W.O. do Canelas, mas elas se mantiveram firmes na decisão.

Vídeos das agressões foram postados no YouTube e antigos adversários disseram que os integrantes do Canelas tinham o hábito de avisar os rivais e juízes de que "sabiam onde as famílias deles moravam". Em circunstâncias normais, ameaças assim poderiam ser consideradas bombásticas, mas vazias – só que não com o Canelas.

Isso porque Fernando Madureira não é só o capitão de um clube menor de uma divisão amadora local. Conhecido pelo apelido de Macaco, ele também é o líder da Super Dragões, a maior e mais temida torcida organizada do Futebol Clube do Porto. A maioria de seus colegas, aliás, também ocupa posições de destaque na entidade. Suas palavras e, principalmente, suas ameaças têm um peso nefasto na região.

Madureira conta que começou a se envolver com o Canelas, time de um subúrbio do sul do Porto, segunda maior cidade portuguesa, quando ainda era adolescente. Jogou ali como aspirante antes de desistir da carreira incipiente, há 25 anos, para se dedicar integralmente à Super Dragões. Ele diz que "trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana" para o grupo, organizando transporte para as partidas, distribuindo ingressos entre os cinco mil membros da organizada, encomendando faixas gigantescas para serem desenroladas e exibidas durante as partidas, puxando o coro logo depois do apito inicial. 

Sua renda vem de um restaurante, um hotel e o aluguel de alguns apartamentos que possui, mas seu trabalho mesmo é com a organizada.

"Na Super Dragões tem gente ruim, claro. Tem traficante, assassino... mas tem gente boa também. Tem todo tipo de gente na sociedade, por que seria diferente na torcida?", indaga Madureira. Para ele, o boicote tem outra motivação: dinheiro. "Tem muito dinheiro envolvido nisso tudo. O Canelas não tem dinheiro por trás, aí decidiram dar um basta no nosso time quando assumimos a liderança da competição", afirma. 

Na fase final, até agora, o Canelas só teve um jogador expulso – Marco Gonçalves não gostou do cartão vermelho que recebeu aos dois minutos do primeiro tempo do jogo contra o Rio Tinto, em abril, e deu uma joelhada no árbitro. Ele foi proibido até de assistir aos jogos da equipe e ainda poderá ser preso por agressão.

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