Tempo bom...

Santos e Palmeiras se topam hoje na Vila e remetem a atos e fatos de outra era do futebol

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 Março 2017 | 06h00

Santos e Palmeiras têm atributos de sobra pra disputarem jogo animado, na noite de hoje, na Vila Belmiro. Encontros recentes, em decisões de Paulistão e Copa do Brasil, estiveram à altura da história que construíram em 100 anos. 

A rivalidade foi reacesa, e para os mais velhos remete à era de Pelé e Ademir da Guia, em que se exibiam uma Máquina de jogar bola de um lado e uma Academia do outro. Para não baixar o tom, Dorival Júnior e Eduardo Baptista prometem força máxima. E isso é ótimo. Em primeiro lugar, porque se premia o público. Além disso, técnicos afinam estratégias e entrosamento para sequência dos desafios das duas equipes na Libertadores. Uma e outra têm empate e vitória em duas rodadas do torneio.

No Estadual, a situação do Palmeiras é mais confortável. A rapaziada de Eduardo lidera com folga o Grupo C (18 pontos), ostenta um dos melhores ataques (17 gols marcados) e a defesa menos vazada (4 gols sofridos). A turma de Dorival está em terceiro no Grupo D, com leve risco de eliminação. Diversão garantida na Baixada.

A propósito de “tempo”, que aparece também no título da crônica, veio em mente o refrão que o humorista Lilico cantava, ao surgir em cena, durante décadas de carreira, interrompida pela morte, em 1998. “Tempo bom, não volta mais... Saudades de outros tempos iguais.” E emendava: “É bonito isso?! Acabar com esse negócio!”

Por que a associação com coisas do arco da velha? Porque no meio da semana, quando o Santos pisou no gramado da Vila, para topar com The Strongest, da Bolívia, houve um foguetório dos diabos. A torcida praiana gastou estoque de rojões para incentivar os moços. Baixou fumaceira no estádio, com forte odor de pólvora. Jogadores, árbitro, até jornalistas!, estranharam a neblina, e houve atraso no pontapé inicial.

Pois a barulheira e o cheiro de “bombinha” foram direto para o cérebro de quem curtiu infância nos anos 50, 60, 70, por aí, e despertou recordações maravilhosas. Houve época, veja só o amigo leitor, em que se levavam rojões – simples ou com “tiro de canhão” – para as arquibancadas para saudar a entrada dos times. Isso acabou, porque podem ferir, sempre há riscos de serem usados como armas por bandos rivais, etc. e tal. Nada de bombas, exceto as de gás pimenta ou lacrimogêneo lançadas pela polícia para evitar tumultos...

Havia bandeiras, de todos os tamanhos e formatos, que se espalhavam pelas tribunas. O sujeito levava aquela que melhor lhe aprouvesse, e a desfraldava, quando bem entendesse. Agora estão vetadas as bandeiras, porque os mastros são um risco e elas atrapalham a visão da distinta plateia. Público, por sinal, que se misturava no cimento e nas cadeiras. Depois, vieram a separação e jogos com torcida única.

As equipes subiam dos vestiários uma de cada vez, para serem aplaudidas e vaiadas, a gosto do freguês. O trio de arbitragem entrava bem antes, para ser espinafrado por todo mundo. E um enxame de repórteres de campo entrevistava os artistas. Nos dias que correm, os times entram juntos, comportados, ao lado do quinteto ou sexteto de juízes, para que palmas ou apupos se misturem. Ouve-se o Hino Nacional, inteiro!, e a imprensa fica do lado de fora.

Os times tinham uniforme principal e reserva, que todos conheciam de cor, e numeração de 1 a 11. Agora, para cada jogo é um fardamento e os números são estapafúrdios. Jogador comemorava gol com a torcida, dava cambalhota, tirava sarro dos outros e despia-se da camisa, se a euforia fosse desmedida; hoje, toma amarelo se o fizer. E assim por diante.

A digressão vai longe – e fica a promessa (ou ameaça?) de voltar ao tema mais adiante. Por ora, fica a musiquinha de Lilico na cabeça e a torcida para que Santos x Palmeiras relembre por 90 minutos “tempo bom”.

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