Teoria e prática

'Resultadismo' embaça a visão; hoje começam a enxergar o que não viam, como míope na ótica

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 04h00

“Técnicos só devem aceitar trabalhos no início da temporada.”

“Não é possível avaliar o trabalho de um treinador em poucos jogos.”

“O calendário inviabiliza a tentativa de se montar uma boa equipe de futebol.”

“A implementação de uma ideia de jogo requer tempo.”

Certamente você já ouviu/leu todas as frases acima inúmeras vezes. São mantras repetidos incansavelmente, como se o futebol fosse matéria meramente acadêmica e tivesse receitas precisas, a exemplo das de bolo, como se bastasse seguir o passo a passo para o sucesso.

E fica pior quando nos deparamos com situações práticas que derrubam todas essas teorias. Em alguns casos é a precipitação a abortar trabalhos momentaneamente instáveis, mas promissores, com futuro. Em outras, interrupções causadas pela falta de perspectivas. E aí entram os técnicos, trabalhos fracos e a omissão de parte da mídia, ‘resultadista’, que procura virtudes quando um time mal treinado vence outro(s) pior(es). Sim, há situações nas quais as equipes que deixam o gramado com três pontos não merecem elogios, elas foram apenas menos ruins do que seus adversários.

O Palmeiras campeão brasileiro de 2016 foi assim em muitos jogos. Quando ganhava, raros se atreviam a colocar o dedo na ferida. Mas em 2017 estava vencida a receita que dera certo em meio a rivais fracos, a trancos e barrancos, com laterais na área e brigas pela segunda bola, pela sobra após duelos aéreos. Algo paupérrimo, que deu para o gasto e encheu os olhos de quem apenas vê o placar. Hoje muitos começam a enxergar o que não viam, como um míope saindo da ótica.

Os mantras acima não podem servir de escudo para os treinadores. Se Rogério Micale fez o Atlético de Roger Machado piorar, ele tem, sim, responsabilidade. Quando Marcelo Oliveira leva o Coritiba herdado de Pachequinho a mergulhar na zona de rebaixamento, obviamente a ameaça de queda tem suas digitais. Se Reinaldo Rueda passa quase duas semanas treinando e o Flamengo só faz cruzar, como nos tempos de Zé Ricardo, ele tem sua parcela nisso. Se o rico Palmeiras de Cuca jogava pouco e não ganhou título algum, seu novo adeus é pertinente.

As acadêmicas receitas de sucesso até podem levar a ele, mas não ajudam quando utilizadas na forma de muletas que protegem técnicos expostos a críticas por causa de suas deficiências. O mundo ideal não existe em nosso futebol, quem aceita trabalhar à frente de um time de Série A (e com salários de três dígitos) precisa estar apto a fazer equipes apresentarem algo minimamente aceitável. Ainda mais quando Datas Fifa e outras loucuras do calendário lhes acenam com dez, 12 dias só treinando. Se esse tempo livre não adianta, é hora de questionar os “professores ”. E quem os contrata.

NOVA VIRADA TRICOLOR

Pela terceira vez em 28 jogos o São Paulo virou para beliscar três preciosos pontos. Os 2 a 1 da noite de sábado sobre o Atlético Paranaense se juntaram às viradas em cima de Cruzeiro, no Morumbi, e Botafogo, no Rio de Janeiro. Um terço de suas nove vitórias foi assim, com reações após desvantagem no placar.

PALMEIRAS DIFERENTE

Foi o terceiro jogo com mais passes certos do Palmeiras no campeonato: 551. Também o com maior número de finalizações no alvo: dez. Em 20 dos outros 27 cotejos pela Série A, o time cruzou mais do que nos 3 a 1 sobre o Atlético-GO. Mais passes, menos bolas aéreas, mais finalizações e gols.

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