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Time do Haiti precisa de R$ 500 mil para jogar a 3ª divisão do Rio

Pérolas Negras mostraram carisma na Copa São Paulo de Juniores

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Gonçalo Junior,
O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2016 | 07h05

Os jogadores da Academia Pérolas Negras, equipe haitiana que esbanjou carisma na Copa São Paulo de Juniores, mas caiu na primeira fase, treinam no Rio de Janeiro para a disputa da terceira divisão do futebol carioca. Existe, no entanto, uma barreira para o sonho. A taxa de inscrição é de R$ 500 mil. A ONG Viva Rio, entidade que mantém a equipe com a participação da iniciativa privada, negocia o parcelamento desse valor, mas está difícil. A tendência é que os haitianos desfilem pelos gramados do Rio só no ano que vem.

Eles não ficariam parados até lá. O plano B é a disputa da Taça BH, que começa no meio do ano. Além disso, eles podem jogar o Campeonato Carioca sub-20. Por fim, esperariam a próxima edição da Copa São Paulo, em janeiro de 2017. “Vamos aproveitar esse ano para amadurecimento técnico e tático. Assim, poderemos entrar para disputar uma vaga de igual para igual em 2017”, conforma-se Rafael Novaes, coordenador técnico do time.

Outra saída do Pérolas Negras é encontrar uma equipe carioca que já tenha feito sua inscrição e aceite formar um time misto, metade brasileira, metade haitiana. Isso também atenderia a exigência da legislação brasileira que proíbe a formação de times profissionais só com atletas estrangeiros.

Dirigentes da Federação Carioca reconhecem que o valor para a inscrição é alto, mas explicam que a intenção é garantir que apenas clubes estruturados, com capital para disputar o torneio até o fim, entrem no torneio. Em temporadas anteriores, alguns deles erraram nas contas e abandonaram a competição no meio.

“Esse custo engloba apenas a federação do clube. Teríamos custos também para inscrever os jogadores. É um investimento muito alto”, conta Rubem Fernandes, diretor executivo do Viva Rio. “Mas regra é regra. Temos de acatá-la. Estamos tentando parcelar esse valor para poder jogar”, completa.

Enquanto aguardam um torneio, os haitianos treinam em um CT localizado em Paty Alferes, distante 40 minutos de Petrópolis na região serrana do Rio. A infraestrutura dos gramados está evoluindo tanto quanto o nível técnico dos jogadores. Ainda não existe um campo com medidas oficiais, apenas um reduzido para sete jogadores de cada lado. Os treinos coletivos e jogos são feitos em Miguel Pereira, cidade vizinha. Moradia, hospedagem e alimentação estão em ordem, tudo por conta da ONG Viva Rio.

O relativo sucesso que tiveram na Copinha – perderam os três jogos, mas mostraram potencial e bom nível técnico – e o bom desempenho nos amistosos (ontem fizeram 4 a 0 no Real Maré, confirmado na Terceirona) despertou o interesse de clubes do Rio e de São Paulo. Quatro jogadores já foram sondados e negociam um período de experiência.

Fora de campo, eles também estão integrados. Tião Santos, membro da comissão técnica que acompanha os 23 haitianos em todas as atividades, conta que alguns deles já arrumaram até namorada. Aprenderam a comer frango assado, mas não dispensam um caldo, como carne ensopada. “Desde o primeiro dia, eles se tornaram atração na cidade”.

Em um português meio manquitola, o volante Anel Jean Louis mostra que está satisfeito. Conta que o grupo terá de voltar para o Haiti para providenciar o passaporte de formação – hoje, eles têm o visto de turista –, mas seus planos estão aqui. Só precisa calibrar os ídolos. “Quero ser um jogador profissional e atuar como Luiz Gustavo e Ramires”.

Só tem um problema: a expectativa de jogar. “O próximo torneio que vamos disputar é o Campeonato Carioca”, conta, ainda alheio aos problemas extracampo do futebol brasileiro.

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