Torcedores se unem e ajudam a pagar dívidas dos clubes de futebol

Iniciativa dos vascaínos já foi copiada pelos rivais Flamengo e Botafogo; dinheiro das contribuições vai direto para a Receita

Almir Leite, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2014 | 17h00

O caos financeiro da maioria dos clubes brasileiros está levando torcedores de vários deles a fazer o que os dirigentes não fazem: pagar dívidas. Vasco, Botafogo e Flamengo, entre outros, estão tendo parte de seus débitos com a Fazenda Nacional quitados com dinheiro arrecadado em campanhas criadas por grupos de simpatizantes. Para garantir que não ocorram "desvios de rota", a doação não passa nem perto do caixa dos clubes. O valor doado vai direto para os cofres da Receita Federal.

Basicamente, o socorro funciona da seguinte maneira: de posse do CNPJ do clube, código da Receita e número de referência da dívida, o torcedor preenche o Darf (Documento de Arrecadação de Receitas Federais) no valor da contribuição que decidiu fazer e faz o pagamento em banco. O valor pago, então, é abatido do total da dívida – é possível pagar uma dívida com a Receita parcialmente.

Os torcedores vascaínos foram os precursores no futebol carioca da adoção do modelo, em maio do ano passado. Foi criado o programa Vasco Dívida Zero, com o objetivo de "quitar todos os débitos do Vasco junto à Fazenda Nacional inscritos em dívida ativa da União". Na época, o clube devia R$ 52 milhões, de 17 débitos.

Desde então, segundo o site que presta contas do programa (www.vascodividazero.com.br), hospedado no site oficial do clube) e tem 15.611 cadastrados, já foram pagos R$ 953.980,00 pelos torcedores. Dez delas já foram totalmente quitadas, mas com os juros das não pagos e outras que entraram na dívida ativa o “rombo’’ com esse tipo de passivo na sexta-feira era de quase R$ 95 milhões.

Apesar da disposição dos torcedores em colaborar, eles esperam que os cartolas tomem jeito e administrem o clube com responsabilidade. O recado foi dado por Giordano Mochel, um dos idealizadores da campanha, no próprio site do Vasco. "Pagamos independentemente de diretoria, mas a ideia é de em algum momento dar responsabilidade aos dirigentes, essa dívida não pode acontecer. Cobramos essa responsabilização. Queremos ajudar o clube, mas não precisa acontecer de novo", alertou.

O enrolado Botafogo também tem gente disposta a ajudá-lo. O site independente daquele oficial do clube (botafogosemdividas.com.br)informava na sexta-feira que 4.018 abnegados já haviam desembolsado R$ 102.250,00 em pagamento de dívida ativa – que no caso do clube já atinge R$ 129.523.938,89.

Ao contrário do programa do Vasco, que não estabelece valor mínimo de contribuição, os botafoguenses têm de desembolsar pelo menos R$ 20,00. E, para dar transparência total ao projeto, os nomes dos colaboradores, e as quantias doadas, são citados no site. Assim, é possível saber que o maior doador contribuiu com R$ 2.520,00.

A torcida do Flamengo aderiu ao programa recentemente, no mês de julho – o que valeu gozações dos vascaínos, por imitá-los. E tem até o ídolo Zico apoiando a iniciativa. Em vídeo, o Galinho conclama os torcedores a ajudarem o clube. E ressalta que o dinheiro doado passará bem longe da Gávea. No programa do Rubro-negro (flaemdia.com.br) o desembolso mínimo é de R$ 10,00 e quem doar a partir de R$ 2 mil, ainda que em várias vezes, ganha uma camisa do Fla autografada pelos jogadores.

Apesar de ainda engatinhar, o programa do Flamengo já tem 14.192 torcedores cadastrados e até sexta tinha arrecadado R$ 320.500,00. Um pingo no oceano, pois a dívida ativa do clube, de acordo com o site, é de R$ 371.917.204,00.

Em outros Estados também começam a pipocar iniciativas semelhantes às dos cariocas. Em Pernambuco, o Santa Cruz Sem Dívidas tenta conseguir dinheiro para amenizar um passivo que o "Dividômetro" do clube estima em R$ 19.001.843,82. Em Alagoas, o CSA Dívida Zero anda emperrado. Ainda assim é aposta de dias melhores.

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