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Antero Greco

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Estão na boca do povo dois episódios ocorridos em estádios no fim de semana – nestas bandas e do lado de lá do Atlântico. Por aqui, torcida organizada do Corinthians estendeu faixas de protesto contra quase tudo. Na Espanha, o Barcelona surrou o Celta por 6 a 1, e um dos gols veio em cobrança de pênalti no mínimo rara: Messi, em vez de encher o pé e chutar a bola, como manda o figurino, tocou-a para Luis Suárez. Num caso e noutro se discute se os autores podiam ter tomado tais atitudes.

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Antero Greco

17 Fevereiro 2016 | 03h00

A Gaviões da Fiel fez barulho pela segunda vez em poucos dias, sempre do espaço que ocupa no Itaquerão. No meio da semana passada havia levado cartazes nos quais reclamava de CBF, FPF, Globo, além de cobrar transparência nas contas da arena alvinegra e de pedir a prisão para “o ladrão da merenda”, sem citar nomes... Repetiu a dose na tarde de domingo.

Em ambas as ocasiões houve repressão. Na primeira, ostensiva, a PM na marra exigiu a retirada das faixas. Em seguida, a corporação admitiu excesso de zelo. No domingo, foi o árbitro do jogo com o São Paulo quem recomendou ao capitão corintiano Felipe que intercedesse junto à massa para que recolhesse o material. Sem sucesso.

A alegação é de que a postura do público contraria o Estatuto do Torcedor, que proíbe ofensas racistas e xenofóbicas ou incentivo à violência. As reclamações da Gaviões não feriam nenhum dos itens, e a Constituição Federal garante o direito de livre expressão para qualquer cidadão. Ao que consta, a nossa Carta Magna está em vigor.

Há a contrapartida. Se alguém, ou alguma empresa ou instituição, se sentiu ofendido, atingido na honra e na forma de agir, deve recorrer à Justiça e acionar os eventuais detratores. Assim funciona em países democráticos e com ordenação jurídica normal.

A tomada de consciência da Gaviões não é inédita; já houve outros episódios. Porém, esporádicos. Torcidas uniformizadas não são contumazes porta-bandeiras de reivindicações sociais. Uma pena, pois se trata de força popular expressiva. Por isso, os protestos recentes estimulam dúvidas e indagações, sem lhes tirar o mérito. Por exemplo: por que a bronca com a Globo agora, se há tanto tempo ela dita as normas, ao menos no que se refere a horários dos jogos? Por que a cobrança das contas do estádio neste momento, construção terminada, entregue e em uso? Por que não na época da construção, com os gastos a subirem a todo instante? Por que a reprimenda repentina em CBF e FPF, entidades de longa data com a imagem escangalhada?

As organizadas poderiam aproveitar o embalo e seguir na trilha do civismo, da tribuna livre, com cruzada em favor da paz entre si. Que tal estender faixas em que preguem o fim de mortes, emboscadas, brigas em estações, estradas e avenidas? E incentivar a tolerância e a divergência? Certamente seriam aplaudidas e teriam respaldo nacional. Mas, se ressalte: têm direito de protestar de forma pacífica, como o fizeram, sem serem caladas na borrachada.

A discussão daqui é rica, assim como aquela suscitada pela cobrança de pênalti de Messi. Nos treinos, o astro argentino havia ensaiado o gesto com os companheiros Suárez e Neymar, e surpreendeu a todos que estavam no Camp Nou. Foi diferente, divertido, fora do rotineiro, porém dentro do previsto nas regras do futebol. Celebração da vida sem amarras. A interpretação de desrespeito com o adversário cabe só para aqueles que se levam a sério demais. Feio e desleal é dar botinadas.

Libertadores. A aventura brasileira em busca da América começou ontem, com o Palmeiras, e prossegue hoje com a estreia de São Paulo, Corinthians, Atlético-MG e Grêmio. Na teoria, a missão tricolor é a menos complicada, por receber o The Strongest. Em circunstâncias normais, a turma de Bauza vence. O problema é o ponto de interrogação em que se transformou o time. Já os outros três se aventuram fora de casa e podem satisfazer-se com empates.

Protesto de torcida corintiana e o pênalti inusitado do Barça celebram a vida sem amarras

ANTERO GRECO

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