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Esportes

Antero Greco

Um clássico

A Semana Santa, em outras eras, servia como reflexão a respeito da morte e da vida. Além do bacalhau, do jejum, da cerimônia do lava pés, da procissão da Sexta-feira da Paixão e da alegria no domingo da Ressurreição, os cristãos faziam faxina espiritual e renovavam a esperança numa existência digna. A tristeza pelo sacrifício do corpo de Cristo levava à esperança de novo tempo para os que nele acreditavam.

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Antero Greco

25 Março 2016 | 03h00

Por mais uma das tantas peças que a natureza prega, neste período especial o futebol – ou, antes, a arte de jogar bola – perde um gênio. Morreu Johann Cruyff, que se divertiu a fugir das botinadas de adversários e a entortá-los com jogadas de mestre; só não soube driblar o cigarro e o câncer. Esse é jogo complicado de vencer, e incontável o número de derrotados.

Pouco importa a maneira como Cruyff viveu; para os que o admiram interessa que viveu intensamente. Conta a obra que construiu num esporte fascinante, encantador, aquele que produz o maior número de astros. E o holandês foi estrela de primeira grandeza, de enorme brilho, comparável a uns poucos iluminados, do peso de Pelé, Di Stefano, Garrincha, Beckenbauer, Maradona e um punhado mais.

Cruyff foi centro de fenômeno que surge em determinada época e local, para tornar-se símbolo e referência. No caso da Holanda, foi a turma dos anos 70, a da Laranja Mecânica ou do Carrossel ou do Futebol Total. A geração que simboliza é a melhor da história lá pelas bandas dos Países Baixos.

Não foi campeã do mundo, não conquistou uma Eurocopa (proeza que coube a Rijkaard, Gullit e Van Basten), porém se mantém como marco. Quando alguém se refere a uma forma intensa de jogar, de rodar a bola, de estontear rivais, antes da estocada final, inevitável lembrar da seleção vice-campeã em 1974 e 1978. Na primeira, Cruyff era o regente; na segunda, só não foi porque ele se recusou a ir para uma Argentina manchada pelo sangue que generais ditadores derramavam.

A inteligência, o estilo e a liderança de Cruyff ditaram o ritmo do Carrossel na primeira Copa da Alemanha. Claro que não jogou sozinho; a seu lado estavam Krol, Neeskeens, Rensenbrink, Han, Rep e grande elenco. Mas o camisa 14 era a alma, a essência da trupe. A sensação era de caos total, sem ninguém a guardar posição e todos a ocuparem os espaços integralmente.

“A gente não via a cor da bola”, contou-me Pedro Rocha, em certa ocasião. “Eles se multiplicavam em campo e não adiantava nem descer o sarrafo.” Intimidação inútil, pois os holandeses sabiam bater – e bem –, além de serem objetivos. As duas equipes encontraram-se na abertura do Grupo 3 e a Holanda ganhou por 2 a 0. (O Brasil tricampeã também perderia por 2 a 0, dias mais tarde.) Hannover, 15 de junho de 1974. Nessa data o mundo começava a espantar-se com o futebol diferente da rapaziada comandada por Rinus Michels, técnico alucinado, arrojado, dos que aparecem a cada século.

Cruyff teve sucesso depois que pendurou as chuteiras. Foi técnico, dirigente, cronista e polemista. Mas entra na eternidade como grande jogador, e eis aí a essência da passagem dele pela terra. Cruyff é um clássico, um Bach, um Picasso, um Da Vinci da bola, cuja obra não sai de moda e serve de inspiração e modelo para quem admira a Arte. O corpo dele morreu, e isso é lei da natureza. O que ergueu é obra de arte perene.

No começo da crônica escrevi que a morte de Cruyff nestes dias de Semana Santa foi uma “peça pregada pelo destino”. Na verdade, foi dádiva. Sim. Como a fase é de recolhimento, está aí boa oportunidade para reverenciar o futebol bonito e acreditar na ressurreição de um modo de jogar que se dá como morto.

A grande homenagem que brasileiros e uruguaios podem prestar a Cruyff na noite de hoje, no Recife, é um oferecem ao público um clássico que honre a tradição do futebol. Do futebol pentacampeão mundial, do futebol bicampeão mundial e olímpico e que um dia se dobraram à magia do Carrossel de Cryuff.

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