Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Rivellino e Ademir da Guia: encontro de amigos celebra os 100 anos do Dérbi

Rivellino e Ademir da Guia foram rivais por Corinthians e Palmeiras e conhecem como poucos o valor desse clássico

Ciro Campos e Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2017 | 07h00

Ademir da Guia escolheu com cuidado a jaqueta que levaria para uma entrevista especial ao ‘Estado’ no Pacaembu. Caso esfriasse, o ídolo palmeirense estava munido com o casaco azul escuro, antigo, e tirado do armário só porque ia rever com o amigo corintiano Rivellino. A causa do encontro era nobre, pois os dois relembraram a rivalidade centenária que, ironicamente, os leva a ter mais de 40 anos de amizade.

Neste sábado, 6 de maio, o Corinthians, de Rivellino, e o Palmeiras, de Ademir da Guia, completam cem anos do primeiro jogo. A história começou com um 3 a 0 do Alviverde, no antigo Palestra Itália, e, permeada pelo clima do disputa, não apresenta consenso nem no retrospecto. Para os alvinegros, foram disputados 352 clássicos. Já nas contas dos palmeirenses, aconteceram dez partidas a mais.

Para marcar a data histórica, o Estado reuniu a dupla no Pacaembu, estádio onde mais vezes foi disputado o clássico, com 151 jogos. Ademir da Guia, quem mais entrou em campo no dérbi, 57 vezes, se apressou a contar para Rivellino, a origem da jaqueta que trazia.

A peça foi um presente da patrocinadora do palmeirense para a disputa da Copa de 1974, quando os dois foram colegas de seleção brasileira. Rivellino se espantou com a informação e brincou que, se tivesse guardado alguma roupa daquela época, não mais lhe serviria. 

Os dois foram os capitães das equipes na histórica final do Paulista de 1974. O Morumbi recebeu o maior público do clássico, 120 mil pessoas, e viu o Palmeiras ser campeão. Rivellino e Ademir repetiram o gesto daquela tarde com o cumprimento e a troca de camisas.

A dupla fez da entrevista um bate-papo para relembrar histórias curiosas e lamentar que talvez hoje em dia não se tenha o mesmo ambiente descontraído quando Corinthians e Palmeiras jogam. O clássico, aliás, já teve 11 mortes de torcedores por conflitos e para a tristeza dos dois ídolos não é mais disputado com a presença das duas torcidas.

Rivellino e Ademir concordaram ao dizer que Corinthians e Palmeiras só se tornaram potências porque um sempre quis superar o outro. “Era emocionante jogar o clássico. Quando era semana de jogo, tudo era um pouco a mais. Se você tinha o prêmio de um valor...”, contava Ademir da Guia, quando foi interrompido por Rivellino: “O bicho era sempre dobrado se ganhasse”, completou.

O começo da história centenária mais une do que separa os rivais. Os dois eram os únicos clubes paulistanos de origem popular na década de 1910, quando o futebol era da elite. As provocações entre as torcidas nos primórdios parecem tolas hoje em dia. Os palmeirenses já chegaram a atirar osso e a levar um galo ao estádio para debochar dos adversários.

Rivellino, por sua vez, comentou que, quando jogava, as brincadeiras já tinham um pouco mais de maldade. “Uma vez o Luis Pereira tirou uma bola de cabeça, mas ele tinha dentadura e ela caiu. Eu fui dar um bico na dentadura, mas ele foi antes e botou na boca, mesmo cheio de grama”, relembrou.

Apesar disso, o corintiano relembrou do respeito pelo Palmeiras ao citar parentes que torcem pelo Alviverde e rir quando o amigo Ademir lhe contou durante a entrevista sobre a relação familiar com o Alvinegro.

“Meu pai (Domingos da Guia) sempre falava para mim: ‘Ademir, joguei quatro anos no Corinthians e não fui campeão’. E eu falava: ‘Pai, calma que eu vou ser campeão no Palmeiras", brincou o ídolo palmeirense.

O ano comemorativo da rivalidade tem feito as diretorias dos clubes organizarem ações de marketing pela data. O Corinthians, por exemplo, realiza evento hoje com ex-jogadores no Parque São Jorge. Pela manhã, no Museu do Futebol, os jornalistas Celso Unzelte e

Paulo Vinícius Coelho vão lançar o livro Derby Corinthians x Palmeiras: 10o anos de rivalidade com histórias e curiosidades dos encontros.

Neste ano, os rivais vão se encontrar mais duas vezes, em clássicos nas novas arenas. Ademir e Rivellino vão acompanhar as partidas com saudosismo e a lamentação porque agora, aposentados, não podem trocar as camisas entre si, mas apenas manter guardados os artigos do tempo em que desfrutaram dos aspectos sadios dessa rivalidade centenária.

 

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