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Uma esperança

Não deveria ter saído do Brasil. Pelo menos não na época em que saiu. Sei que é fácil dizer isso depois, quando nada deu certo, quando sua vida quase se arruinou. Mas a proposta, como de hábito, era "irrecusável", embora qualquer proposta de estrangeiros se transforme aqui imediatamente em irrecusável.

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Ugo Giorgetti

31 Janeiro 2016 | 03h00

Somos pobres, como ele era pobre quando começou a jogar. Foi parar na Alemanha, não exatamente um aprazível país aos olhos de um garoto de 18 anos, moreno e brasileiro. Não devia saber uma única palavra em alemão, deve ter encarado um frio do diabo, e técnicos enigmáticos , distantes e práticos. Não teve sucesso. Foi emprestado dentro da Alemanha para adquirir experiência com o futebol alemão. Não funcionou e, cada vez pior, acabou por se envolver num traumático episódio em que teve a casa incendiada.

Na Alemanha não se brinca. Depressão, efeitos de álcool, problemas familiares, nada disso serve de atenuante para crimes. Nem muito menos ser jogador de futebol famoso, mais ainda quando não se trata exatamente de um ariano puro. Breno mais parecia um desses imigrantes turcos, árabes ou de qualquer outra região distante, barrados nas alfândegas. A grande promessa brasileira tinha desaparecido diante da Justiça de Munique. Culpado do incêndio da casa pegou quase quatro anos de cadeia entre regime fechado e aberto. Quatro anos na vida de um jogador de futebol é uma eternidade. Mas foi o que aconteceu.

Dos noticiários brasileiros, ele sumiu rapidamente. Passou a ser mais uma daquelas aventuras brasileiras no exterior que acabam mal. Ninguém mais falava dele, como se não existisse. O Bayern deu-lhe uma mão no meio do cumprimento da pena semiaberta, e voltou num limbo que compreendia auxiliar técnico das equipes de base com treinamentos nas mesmas categorias. Do Brasil, nada.

A CBF, como de hábito ocupada com seus negócios, jamais lhe prestou assistência ou se preocupou com ele. É incrível que apresentando ao mundo sucessivamente zagueiros medíocres, ruins, fraquíssimos em todos os sentidos, ninguém da CBF tenha se lembrado de que tínhamos um grande zagueiro que precisava ser recuperado para o futebol brasileiro. Mas o São Paulo acabou se movimentando. Talvez numa crise de má consciência, porque tinha ganho muito dinheiro na sua transação, o tricolor se aproximou dele e o resgatou. Depois de muitas peripécias, ei-lo de volta ao ninho antigo onde tudo começou. É bonito, mas não sei se é fácil. Reintegrar um jogador, fazê-lo voltar no tempo, é tarefa complicada.

Sempre que se fala nele vem à mente seu fracasso na Europa, com os episódios que todos sabemos. Ao voltar deu de cara com um treinador, daqueles que o velho e sábio Mário Moraes chamava de “químico”, treinadores que se dedicavam a experiências e experimentos estranhos. Esse treinador o colocou como volante, não como zagueiro, e ainda assim não foi inteiramente mal. Agora o novo treinador, parece que está lhe dando a confiança de que precisa.

Não sei por que vejo nisso o dedo de Milton Cruz, que o conhece desde garoto. Espero que, com isso tudo, volte a ser o que era. Aos 18 anos foi campeão brasileiro em 2007. Ganhou, no mesmo ano, o prêmio de revelação do Campeonato Brasileiro e foi considerado o melhor zagueiro do torneio. Repito, aos 18 anos. Eu o vi jogar e senti que tínhamos finalmente descoberto um grande zagueiro, o melhor desde os tempos de Aldair. Tudo isso parecia acabado pela sua fatídica estada na Alemanha. Mas ninguém desaprende a jogar bola. Sei que o problema de Breno é maior por causa das suas circunstâncias. Mas torço por ele. Depois de tudo o que passou, esse retorno é uma oportunidade única.

Algo me diz que o São Paulo fez, entre todos os clubes grandes, a melhor de todas as contratações. Contratou na verdade o que já era seu, e que nunca deveria ter perdido.

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