Uma quarta diferente

Salvo a exceção da Diretas Já, nunca tinha visto neste País qualquer intersecção entre futebol e vida política

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

21 Maio 2017 | 03h00

Cheguei tarde em casa na quarta-feira. Muito ocupado, só consegui ouvir rumores de que estava acontecendo algo sério no País. Como algo sério acontece todos os dias, não me preocupei demasiadamente. Para relaxar, comecei a ver Palmeiras x Internacional, na transmissão da TV Globo. Não lembro em que momento da partida Cléber Machado, o excelente narrador, fez um convite aos telespectadores que antes eu nunca tinha ouvido durante qualquer partida de futebol. Convidava todos a acompanhar notícias gravíssimas, que colocavam em outro patamar a já tristíssima situação do Brasil, no jornal de notícias que se seguiria ao jogo.

Por um momento o futebol deixou de ser a categoria à parte que sempre foi na vida brasileira para se colocar no centro dela. Aquele aviso do Cléber conectou o futebol com o País de uma forma estranhamente incomum nos últimos tempos. Lembrei que na cabine de transmissão da Globo estava Casagrande, sobrevivente de um momento muito mais inspirador do País no qual o futebol, e ele pessoalmente, tinha tomado parte ativa. O que estaria pensando Casagrande no momento em que Cléber Machado sugeria que todos assistissem ao jornal?

A partida parecia a mesma, os jogadores jogavam, os 30 mil habituais das dependências do Allianz Parque reagiam como sempre. Mas, para mim, o evento esportivo tinha sido ultrapassado pela política. Finalmente, por apenas um singelo aviso, uma frase quase sem importância, o mundo do futebol, representado pelos que viam de algum modo a partida, foi avisado de que fazia parte de um País que se dilacerava.

Nunca tinha visto neste País, salvo a exceção da Diretas Já, da qual eu falava que participou Casagrande, qualquer intersecção entre futebol e vida política, como se um mundo não tivesse nada que ver com o outro. Aliás, não é só o futebol que se presta para esse isolamento mental dos brasileiros. 

De fato, interrompi um pouco o jogo e procurei imediatamente outros canais da TV aberta, a que realmente se comunica com a massa, na esperança de ver o que se passava de tão grave. Nada. Nenhuma palavra.

A vida seguia com a imbecil programação normal, no mais calmo dos mundos. Decidi voltar ao jogo até porque um outro pensamento me ocorreu. Tentei lembrar de outras vezes em que o futebol serviu como elo entre o esporte e a política. Não encontrei muita coisa. Principalmente dentro de mim mesmo. Onde estava o futebol para mim nos momentos mais dramáticos desta nação? Não lembro.

Não lembro mais muito bem sequer de momentos cruciais. O que estava eu fazendo no dia 31 de março de 1964? Não lembro com certeza. E em dezembro de 1968? Também são vagas memórias. Lembro tudo o que aconteceu politicamente, mas não de mim, do meu cotidiano nesses momentos.

Não sabemos o que fica na memória. Não selecionamos à nossa vontade o que deve ficar. Frequentemente lembramos de fatos absolutamente desprovidos de qualquer importância aparente, mas que ainda assim nos acompanham a vida inteira. Ficaria o apelo de Cléber Machado muito tempo na minha memória?

Angustiado pelo que poderia estar acontecendo, assim mesmo me dediquei a ver o jogo. Não recorri a computador ou celular, vi tudo até o fim. Perguntei-me o que essa noite memorável que desabou sobre Brasília podia significar para cada uma daquelas pessoas que ocupavam o Allianz Parque. Se realmente o dia 17 de maio ficar marcado a ferro na história brasileira, é bem capaz de daqui há muitos anos, quando alguém for indagado sobre o que lembra dessa noite, talvez só reste um jogo de futebol entre Palmeiras e Internacional, que terminou 1 a 0, gol contra do zagueiro Léo Ortiz.

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