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Esportes » UMA SELEÇÃO BRASILEIRA EM BUSCA DE IDENTIDADE

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Luiz Antônio Prósperi

14 Julho 2014 | 05h00

A seleção brasileira caiu nas semifinais depois de sobreviver, com muito sacrifício, nas oitavas e nas quartas de final.Em nenhum jogo, dos sete que disputou, se impôs como protagonista. Antes da queda anunciada, ficou claro que o time tinha sérios problemas emocionais. O discurso ufanista da comissão técnica também contribuiu para o fracasso – os jogadores sentiram a pressão da responsabilidade de assumir o favoritismo. A má vontade da Fifa com o Brasil, na análise do comando da seleção, teria contribuído para o fiasco, desestabilizando o comissariado e também os jogadores. Eles não tiveram apoio forte da CBF, que não se manifestou, de forma oficial, contra a arbitragem. E o fator Neymar também pesou. Quando o craque saiu de cena, o pouco que restava de equilíbrio no grupo se perdeu. A chama apagou.

Na anatomia da derrota conta também o pouco tempo de preparação que a seleção teve até a estreia na Copa. Mesmo assim, os dias na Granja Comary foram mais de recuperação física a treinamentos táticos e técnicos. Felipão, a cada entrevista, tinha de se explicar a respeito da falta de treinos. O técnico argumentava que seguia as orientações dos médicos e preparadores físicos. Era impossível, segundo Felipão, forçar os atletas a um ritmo mais intenso de treinamentos.

Na avaliação da comissão técnica, não foi a carga de trabalhos na Granja o principal problema da seleção brasileira. Pesou, e muito, a falta de controle emocional dos jogadores. Nem a intervenção da psicóloga Regina Brandão, conselheira de Felipão de longa data, conseguiu colocar os nervos dos jogadores no lugar.

Outro problema grave, esse fica na conta de Felipão e Parreira, foi apostar no modelo vitorioso da Copa das Confederações de 2013. O treinador e o coordenador imaginaram que o time poderia dar a mesma resposta na Copa do Mundo. Não levaram em conta o nível técnico dos adversários, comparando uma competição a outra. Subestimaram a queda de rendimento inevitável que os jogadores teriam um ano depois.

No plano tático, também imaginaram que os rivais do Brasil não iriam estudar um jeito de neutralizar aquela avalanche brasileira. Pagaram caro por isso. Os adversários, em nenhum dos seis jogos, se deixaram levar pela pressão dos comandados de Felipão. Marcaram forte e inibiram o movimento do time. 

Quando a seleção brasileira sobreviveu, com muita dificuldade, às oitavas, diante do Chile, e às quartas, contra a Colômbia, se pensou, dentro da comissão técnica, que o pior havia passado. Foi outro engano. O Brasil perdeu Neymar, vítima de jogada violenta do colombiano Zúñiga. E fechou a conta com uma enorme dívida, ao ser atropelado pela Alemanha. A desculpa, agora, pode ser essa: a seleção brasileira caiu diante da nova campeã do mundo.

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14 Julho 2014 | 05h00

Manhã de 29 de novembro de 2012. Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira, trajando ternos pretos e gravatas listradas de azul, estão em um hotel na Barra da Tijuca, no Rio. Por volta das 10h, os dois vão ser empossados no comando da seleção brasileira por José Maria Marin, presidente da CBF. Parreira puxa Felipão pelo braço e faz um apelo: “Temos de reafirmar que o Brasil é o favorito para ganhar a Copa. Não temos saída”, advertiu.

Felipão e Parreira entram no auditório do hotel e, poucos minutos depois, são empossados por Marin no comando da seleção. Felipão, treinador, e Parreira, coordenador técnico. “Lamento profundamente que os brasileiros às vezes não reconhecem o trabalho e idealismo de brasileiros; precisamos dar valor às nossas coisas, a nós mesmos. Os dois (Felipão e Parreira) são respeitados no mundo inteiro e têm um passado”, discursa Marin.

Felipão assume a palavra. “Nós temos a obrigação, sim, de ganhar o título. Não somos favoritos agora, mas pretendemos nos tornar favoritos. Se estamos organizando uma Copa do Mundo e somos um país que tem cinco títulos mundiais, não podemos entrar em nossa Copa pensando em vice-campeonato, em terceiro ou quarto lugar”, afirma o treinador. “O objetivo é um só: fazer com que o Brasil seja campeão do mundo. Não passa na cabeça de ninguém que, em casa, não sejamos campeões do mundo”, emenda Parreira. 

Os dois seriam empossados no comando da seleção apenas em janeiro de 2013. Mas, como o sorteio dos jogos da Copa seria em 6 de dezembro, com a presença de todos os treinadores das seleções classificadas, a cadeira do Brasil não poderia ficar vaga. Daí a pressa de Marin em nomear logo a dupla.

Felipão e Parreira assumiram a seleção na última semana de novembro de 2012 e nunca mais mudaram o discurso sobre o favoritismo do Brasil. Bateram nessa tecla mais forte quando o Brasil conquistou a Copa das Confederações, em junho de 2013. 

Uma semana após o drama das oitavas de final, com a classificação pela vitória nos pênaltis contra o Chile, dia 30 de junho, na Granja, o mesmo Parreira voltou a defender a tese do favoritismo do Brasil. “Na minha concepção, acho absurdo termos passado dois anos (agosto de 2010 a novembro de 2012) sem falar que o Brasil era o favorito a ganhar a Copa. Deixamos a seleção morta dois anos (gestão de Mano Menezes).”

Pressão nos jogadores. O discurso ufanista ficou impregnado nos jogadores. Da apresentação na Granja Comary, dia 26 de maio, até a véspera do jogo contra a Colômbia, nas quartas, a comissão técnica e o presidente da CBF sustentaram essa tese. Não levaram em conta que essa “obrigação de ser campeão” só fez aumentar a pressão em cima dos jogadores.

A cada vitória ou resultado suado, a discussão do favoritismo do Brasil voltava com mais força, mesmo com a seleção não jogando bem. Havia outro componente importante: enquanto a maioria das seleções candidatas mostrava equilíbrio emocional, a brasileira vivia em pânico. Os jogadores desabaram no momento mais importante da Copa.

“É claro que todo mundo sentiu. Perder na fase mata-mata, você volta para casa e acaba o sonho de toda uma vida ”, disse Thiago Silva, capitão da seleção e um dos que mais sentiram a pressão na partida contra o Chile, nas oitavas.

Os jogadores, na sua maioria, evitaram falar do favoritismo do Brasil pregado por Felipão e Parreira. Toda vez que foram questionados nas entrevistas coletivas, evitaram o assunto para não aumentar o peso nas suas costas.

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14 Julho 2014 | 05h00

A seleção brasileira começou a desabar quando os jogadores perderam o controle emocional e a comissão técnica ficou sem saber o que fazer. Felipão e seus assessores apelaram à psicóloga Regina Brandão na tentativa de mudar o quadro, mas não conseguiram reverter a situação.

Após a angústia da vitória contra o Chile na decisão por pênaltis, o treinador quis dar um basta ao choro dos jogadores. 

“É hora ser menos coração e mais razão”, anunciou o técnico. Não deu certo. E, para aumentar o drama, Neymar saiu da Copa, ao fraturar a terceira vértebra lombar no jogo contra a Colômbia nas quartas de final. Se com Neymar estava difícil manter o controle emocional, sem ele era quase impossível.

Além do choro, os jogadores entraram em campo com as mãos nos ombros uns dos outros, formando uma corrente, e mostravam empolgação ao cantar o hino. Felipão dizia que tais atitudes não partiram da comissão técnica. Os atletas tomaram a iniciativa de adotar os gestos. Era um resgate da união do grupo demonstrada na Copa das Confederações.

Na estreia contra a Croácia, a comissão técnica tolerou o mar de lágrimas dos jogadores. Era o primeiro jogo e conter a emoção antes de entrar em campo e no momento de cantar o hino seria impossível.

Veio o segundo jogo, dessa vez em Brasília, e as cenas se repetiram. Sinal de alerta na comissão. Quando o Brasil enfrentou Camarões, com a vaga nas mãos, não havia necessidade para tanto sentimento. 

Era preciso tomar uma providência. Sempre aflitos e ansiosos, com nervos à flor da pele, os atletas estavam descompensados e os efeitos desse descontrole foram negativos dentro de campo. Felipão, que pedia monitoramento diário da psicóloga, convocou uma reunião.

A crise apertou no jogo com o Chile. Felipão sentiu medo de cair nas oitavas de final por pura falta de confiança no equilíbrio emocional dos jogadores. Ele mesmo ficou abatido e temeroso. O medo de sair da Copa tão cedo assombrou a seleção.

A mudança de comportamento era urgente. Mas ninguém mais se controlou. Até o capitão Thiago Silva desabou. E quando Neymar saiu da Copa com a vértebra quebrada, o Brasil perdeu o resto da identidade que tinha.

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14 Julho 2014 | 05h00

Quando o Brasil massacrou a Espanha por 3 a 0 na decisão da Copa das Confederações, em junho de 2013, Felipão e Parreira concluíram que o time e o grupo estavam prontos para jogar e ganhar a Copa do Mundo no ano seguinte. Bastava convocar a maioria dos atletas, enxertar na lista dos 23 um ou outro jogador com mais versatilidade e sustentar o modelo de jogo e o espírito de luta. Àquela altura, na visão do treinador e do coordenador, a seleção era imbatível. 

Após a conquista das Confederações, Felipão e Parreira, até então taxados de ultrapassados, viraram salvadores da pátria. A eles se atribuiu o resgate do orgulho de acreditar de novo na seleção. Os dois anos de incerteza da era Mano Menezes haviam ficado para trás. Os comandantes começaram a acreditar no discurso que eles mesmo criaram do enorme favoritismo do Brasil na Copa.

Outro fator, esse determinante para o excesso de confiança dos chefes da seleção, era a fórmula encontrada para o Brasil atropelar os adversários: marcação com pressão na saída de bola do inimigo e uma avalanche nos primeiros 15 minutos em busca do primeiro gol. Esse estilo de jogo e mais o embalo da torcida no apoio ao time não dariam a menor chance aos adversários. 

Um ano depois, e com raros amistosos para aprimorar essa tática do abafa, Felipão e Parreira não perceberam que algo de diferente deveria ter sido feito. Os adversários do Brasil estudaram o jeito de a seleção jogar e como evitar o massacre dos 15 minutos iniciais. Criaram antídotos e conseguiram neutralizar essa arma.

Após o drama da classificação nos pênaltis contra o Chile, Parreira admitiu que apostar no modelo da Copa das Confederações não foi uma boa estratégia da seleção para a Copa. Em conversa com o Estado, ele recorreu a 2005. “Se a Copa do Mundo fosse três meses depois da Copa das Confederações de 2005 teríamos sido campeões na Alemanha”, disse. “Um ano depois, tudo mudou. A concentração dos jogadores e as exigências do Mundial mudaram e paramos nas quartas”, lembra o coordenador, na época técnico da seleção.

A história se repetiu agora. O modelo vitorioso de 2013, ressaltou o coordenador, não se encaixou com a seleção agora na Copa. Apesar de o grupo ser o mesmo do ano passado, o nível de concentração, a pressão em cima dos jogadores e a atmosfera de uma Copa não têm nada do que o time viveu no ano passado. Daí a dificuldade que o Brasil enfrentou na Copa.

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14 Julho 2014 | 05h00

Logo no jogo de estreia do Brasil na Copa se criou um clima de que Brasil e Fifa não se bicariam. A vitória por 3 a 1 diante da Croácia foi vista com desconfiança pelos adversários da seleção. Questionaram o pênalti que Fred havia sofrido quando o jogo se apresentava difícil para a seleção. E as críticas de que o Brasil seria favorecido pela Fifa por ser o dono da casa se intensificaram. Louis van Gaal, técnico da Holanda, jogadores e dirigentes do Chile foram enfáticos ao afirmar que os árbitros vestiam o verde e amarelo.

Irritado, Felipão rebateu os adversários e passou a temer que os árbitros, diante da pressão das outras seleções, pudessem deixar de apitar lances capitais a favor do Brasil. A cada entrevista coletiva, com observadores da Fifa, ao seu lado, Felipão cobrava imparcialidade.

A crise se agravou no jogo contra o Chile quando o árbitro inglês Howard Webb não marcou um pênalti em Hulk e anulou um gol do mesmo jogador. No intervalo da partida ainda houve o desentendimento entre integrantes da comissão técnica do Brasil e do Chile. Sobrou para o assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, que acabou suspenso pela Fifa. Felipão ganhava um álibi ao acusar a Fifa de má vontade com o Brasil. Na opinião do treinador, todo mundo estava contra a seleção. Os pentacampeões não poderiam ser hexa.

Como suas críticas à Fifa não tinham ressonância na imprensa brasileira e internacional, Felipão apelou para seis jornalistas, entre eles o repórter do Estado, em quem ele diz que confiava e tinham credibilidade para atender ao seu apelo. Ele, Parreira e Murtosa se reuniram com os jornalistas e, sem querer, abriram uma crise com parte da imprensa brasileira. "Vocês precisam dizer que a Fifa está com má vontade com o Brasil. Não interessa a ela, nem para o negócio futebol, o Brasil levar sua sexta Copa do Mundo", apelou Felipão. "As outras seleções aprontam, insinuam e nada acontece. O Robben disse que simulou pênalti contra o México e a Fifa fez vistas grossas. É só com a gente." Parreira também bateu pesado. Disse que havia um complô da Fifa contra o Brasil. Soou como uma desculpa antecipada para a queda na semifinal.

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