Vida ideal x vida real

Rodrigo Caio e Maicon, colegas e amigos, sem querer viraram símbolos de dilema nacional

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2017 | 03h00

O São Paulo pode sofrer hoje, em Belo Horizonte, o primeiro baque sob o comando do técnico Rogério Ceni. A perspectiva de eliminação na Copa do Brasil é enorme, após a derrota por 2 a 0 para o Cruzeiro, em casa, uma semana atrás. A turma mineira tem vantagem e futebol melhor. Mais do que o clássico, e acima das discussões em torno das eleições presidenciais no Morumbi, o ambiente tricolor anda agitado por causa da postura de dois zagueiros que têm dado o que falar.

Rodrigo Caio e Maicon são companheiros de clube, colegas de profissão e amigos. Mas, por essas pegadinhas da vida, viraram símbolos de discussão nacional. O primeiro ganhou aplausos por ter evitado cartão amarelo injusto para Jô, no clássico perdido para o Corinthians, pelas semifinais do Paulista, ao falar para o árbitro que o atacante não fizera falta no goleiro Renan Ribeiro. O capitão da equipe assumiu involuntariamente papel de vilão ao afirmar que, se for para alguma mãe chorar, “que seja a do adversário”. Ou seja, de maneira pouco sutil sugeriu que deixaria o alvinegro ser advertido, mesmo que não tivesse culpa.

A sinceridade de ambos extrapolou o clima caloroso das mesas-redondas ou das rodas de bar e virou tema para reflexões a respeito de ética, moral, fair play no cotidiano e no esporte. Em circunstâncias normais, um gesto de honestidade não chamaria a atenção, por tratar-se de algo natural e óbvio. Porém, num momento em que tanto se discutem corrupção e transparência, no Brasil, se entende a amplitude que tomou o episódio do domingo.

Muita gente boa e esclarecida elogiou Rodrigo Caio e afagou Maicon, e não os tomou como ícones do dilema entre vida ideal x vida real ou do embate eterno entre o idealista x o prático. A alegação para restringir o fato às quatro linhas é a de que o futebol não agrava nem resolve dramas da humanidade; é só brinquedo, manifestação lúdica e inócua. O que se passa no gramado cresce, desenvolve-se e morre ali.

Quem dera... 

O futebol é divertimento para o torcedor, paixão que antropólogos, sociólogos, psicanalistas, historiadores tentam explicar. Há muitos estudos, e não são minhas elucubrações que vão mudar algo. Mas é meio de sustento para todos os envolvidos numa partida.

Atletas são profissionais, e muitos pagos bem demais para exercerem o ofício de chutar bola. O que se espera de alguém no respectivo métier? Que seja eficiente, preparado, articulado, pronto para superar desafios e atingir objetivos. Que tenha consciência e criatividade. Também, salvo engano, honradez. Mau profissional, em geral, costuma perder o emprego, sobretudo se passar por cima de normas de conduta. 

Por que o jogador é profissional ao qual se permite o ilícito? Ou além: recebe incentivo, aplausos, encorajamento, se for esperto, ardiloso, “malandro”? (Evidentemente, não estou a discutir aqui o drible, o passe, o gol.) “Ah, porque é tudo um faz de conta dentro de campo, são artistas que vivem 90 minutos de batalha e, depois, saem abraçados e sem mágoa.”

Não é assim. Num teatro, a cena se limita ao palco, e o texto, se for bom, permite reflexões. Lá é ficção. No futebol, a competição é real, há metas a atingir, o ganhador obtém benefícios, o perdedor arca com prejuízos. Já se foi o tempo em que era praticado por diletantes habilidosos. Craques viraram marcas que movimentam muito dinheiro e interesses. 

O que você, seja qual for o ramo, acha de concorrência desleal? Em sua firma, estimula engodo, suborno, caixa 2? O vale-tudo prevalece? A galhardia de Rodrigo Caio nem deveria entrar em discussão; tanto faz se do outro lado haveria ou não contrapartida. Pequenos gestos de retidão, no futebol, no hospital, no comércio, na escola, nos libertarão da miséria moral à qual a desonra nos aprisiona. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.