Vida real

As brigas entre torcedores que resultam em mortes refletem a rotina de violência no País

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

15 Fevereiro 2017 | 03h00

A notícia soa velha e repetitiva, nem por isso menos chocante e triste: um jovem botafoguense morreu, no domingo, em decorrência de briga com flamenguistas, antes do clássico disputado no Engenhão. Outros ficaram feridos, alguns foram detidos e liberados, depois dos procedimentos de praxe. 

O episódio mereceu espaço na imprensa, rendeu comentários habituais a respeito da violência entre torcidas, sobretudo as organizadas. Novamente, vieram à tona sugestões e pedidos para controlar a ação dos vândalos, etc, etc e tal. 

Verdade. Os confrontos de exércitos radicais com as cores dos clubes que, na teoria, amam viraram rotina há décadas. Mas vão além disso. Os choques, os duelos, as emboscadas, as agressões, os assassinatos aparentemente por causa do futebol refletem a violência que nos atordoa no dia a dia. 

O Brasil é um país violento, somos uma sociedade agressiva e não conseguimos nos livrar de séculos de cultura em que diferenças, pequenas ou grandes, se resolvem na faca, na bala, na paulada, no soco. Mata-se, nesta terra abençoada, por razões banais – de olhar a namorada de alguém a fechada no trânsito ou a leve raspada no carro. Tira-se a vida por causa de trocados, por um som alto na casa do vizinho, pela diferença na camisa do futebol. Espanca-se alguém por sua opção sexual, se trucida quem se interponha contra a brutalidade, como o caso dos primos que mataram ambulante no metrô de São Paulo no Natal.

Dados de órgãos de segurança mostram que, em 2015, houve 58.383 mortes violentas de brasileiros. No período entre 2011 e 2015, o número ficou em 278.839! Superior, por exemplo, ao genocídio que acontece na Síria, uma nação em guerra. Só em janeiro e na primeira semana de fevereiro, por aqui tivemos 2.029 mortes registradas. A maioria por motivos fúteis. Por nada.

As armadilhas, as vinganças de torcedores, os homicídios enquadram-se nesse panorama tétrico. Sem nos darmos conta, vivemos ocorrências de crueldade a todo momento, na falta de educação, nas falhas de sistema de transporte, segurança, saúde; no desemprego, no desrespeito aos mais velhos, pobres e doentes. Na falta de estrutura das cidades, na precariedade das moradias. Dificuldades atávicas, que embrutecem as pessoas. Daí considerar normal resolver na marra.

Torcidas não diferem do resto da sociedade. Inútil imaginarmos que legislação específica para elas acabe com atrocidades, enquanto a vida não for vista como a maior riqueza no Brasil. 

San-São. O Paulista mal começou e prevê para hoje um duelo interessante, entre Santos e São Paulo. As duas equipes mostraram, na largada da competição, vocação para o gol – santistas fizeram 9 em duas rodadas, tricolores marcaram 7. Em contrapartida, a rapaziada de Dorival Júnior levou 4 e a de Rogério Ceni amargou 6. Para os amantes do equilíbrio, falta ajustar os sistemas defensivos. Pois prefiro sintonia final e supremacia dos ataques. Torço para que os treinadores – um, experiente, o outro, novato – não abdiquem desse olhar do futebol como tendo o gol como essência e não como detalhe, como diria o filósofo.

Palmeiras quente. Ambiente no Palestra agitado, dentro e fora de campo. No gramado, bastou derrota para o Ituano para se colocar em dúvida o futuro de Eduardo Baptista no comando. O time foi mal em Itu, mas é cedo demais para detectar, naquela apresentação, sinal de catástrofes. O grande teste dele e dos atletas será na Libertadores. 

Na política, há a polêmica da eleição do casal de patrocinadores do clube para o Conselho. Se for constatado que não preenchiam requisitos para ocupar as cadeiras, a solução é simples: anula-se a escolha e se candidatem quando estiverem aptos para tal. 

Mais conteúdo sobre:
Futebol

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.