Vocês da imprensa

No Fla x Flu em que vivemos 24 horas por dia está muito difícil opinar

Marília Ruiz, O Estado de S. Paulo

25 Maio 2017 | 03h00

A morte de Antonio Candido de Mello e Souza há duas semanas nos deixou órfãos de uma das mentes brasileiras mais brilhantes. Intelectuais, escritores, sociólogos, professores e até políticos do Oiapoque ao Chuí lamentaram a perda do maior crítico literário brasileiro e de um pensador social impecável da nossa realidade.

O professor, sociólogo e crítico literário Antonio Candido revolucionou a maneira de ver a cultura nacional ao fazer paralelos entre as publicações e o nosso cotidiano.

Seu golaço foi conseguir estabelecer diálogos entre a literatura brasileira e a universal, entre as obras e a realidade de um País marcado pela desigualdade abissal (onde ele sempre deixou clara e evidente a sua militância explícita). A sua crítica não se limitava à análise crua e fria dos livros, do português bem ou mal escrito ou da métrica dos versos. A equação do que era “bom” para Candido não era exata.

Para um livro ser bom, era preciso que ele contaminasse, incomodasse, sacudisse o leitor. Recomendo fortemente a leitura do seu Formação da Literatura Brasileira, sua obra icônica, e as muitas coisas que já foram escritas por esse brasileiro incrível, um crítico que deixou, entre tantos outros, um legado muito importante para nós, jornalistas, e para todos que se arriscam a fazer resenhas e comentários: a crítica não é algo praticado por sujeitos amargos; a crítica não é um prêmio de consolação para quem nunca chutou uma bola – para falar do nosso objeto de interesse maior nessa editoria.

No Fla x Flu em que vivemos 24 horas por dia, sete dias por semana, não importa qual seja o assunto, está muito difícil opinar. Muito difícil sair da zona de conforto da neutralidade falsa e inviável. O futebol tornou-se uma zona de alta tensão. Altíssima, aliás.

As redes sociais reverberam o ódio da turba que acha feio o que não é espelho. Muitas das nossas opiniões passaram a ser precedidas de “com todo respeito” (como se fosse desrespeito discordar, apenas opinar, única e exclusivamente trabalhar) e de orações no condicional: seriam, teriam...

Recuso-me, com muitos arranhões, claro, a cair nessa teia perigosa que sufoca as discussões, limita as ideias e empobrece o diálogo, seja no futebol, na religião ou na política.

Nós, da imprensa, não somos um bando de saqueadores para abalar a paz. Tampouco somos um batalhão de bombeiros para acabar com o fogo das discordâncias.

A plateia gosta de embates como o recente Rogério Ceni x Imprensa (como também Eduardo Baptista x Imprensa), mas, apesar do prazer de entretê-los, nós da imprensa não ganhamos cachê artístico. Nunca chutei uma bola ou fui goleira, tento ser a melhor pessoa que posso, mas, como já disse antes com palavras acertadas Millôr Fernandes, imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.

NÚMEROS

Estatísticas devem nortear treino

Para se defender dos maus resultados no São Paulo, Rogério Ceni sempre se armou com números. Foi muito criticado por isso – inclusive por seus empregadores do Morumbi. Agora diz que vai guardá-los no CT da Barra Funda: golaço! Só treinamento melhora o aproveitamento de cruzamentos, lançamentos e finalizações. 

ESCUDO

Preparação física em xeque no Morumbi

Mesmo com as críticas da imprensa e das arquibancadas (essas surgem ainda timidamente e de forma velada ao seu trabalho), Rogério Ceni usa seu escudo de super-herói do mito que foi (como goleiro tricolor) para defender jogadores e preparadores físicos do clube. Louvável.

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