Monica Zarattini|Estadão
Monica Zarattini|Estadão

Zagueiro Joel Camargo abriu as portas para os brasileiros no PSG

Nos anos 1970, defensor foi o primeiro do País a se transferir para a equipe de Neymar

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 07h00

A fonoaudióloga Simone Werneck Camargo acompanhou as notícias da chegada de Neymar ao PSG de uma perspectiva diferente. Enquanto todos veem o negócio como um recomeço para o craque, Simone vê apenas a continuidade de uma história desbravada por seu pai, Joel Camargo. Ele foi o primeiro jogador do País a atuar no clube francês. “A chegada do Neymar ao PSG trouxe uma luz nova para a história do meu pai. Isso foi um motivo de orgulho para mim”, conta.

O ano era 1971. Simone chegou a Paris com 40 dias de vida. Aí, sua história se mistura à trajetória do pai famoso. Joel foi um zagueiro que jogou no Santos de Pelé de 1963 a 1970. Marcou cinco gols em 303 jogos, mas as estatísticas não eram seu forte. Sua mística estava no jeito largo de correr – quase planar – e que valeu um apelido à altura de sua distinção: Senador.

No começo da carreira, era o “Açucareiro” por causa dos braços abertos e da “doçura” nos passes (certeiros). “Era um jogador diferente e técnico. Era clássico”, atesta Mengálvio, ex-companheiro de Joel na Vila.

Joel viu o Brasil ser campeão do mundo no México, em 1970, do banco de reservas. Ficou frustrado, sentiu-se humilhado (era titular com João Saldanha, mas perdeu o lugar com Zagallo) e gastou a premiação pelo tri na compra de um Opala.

Cinco meses depois da Copa, Joel destruiu o carro em acidente no qual duas mulheres morreram. Joel, que estava ao volante, foi condenado por homicídio culposo. Cumpriu a pena de um ano e oito meses em liberdade, mas rescindiu com o Santos.

Foi aí que surgiu a chance de ir para a França. A negociação não envolveu a montanha de euros de Neymar. Nem o euro existia na época. O time era pobre e ruim. Joel chegou com a fama de craque, mas cometeu o erro de reclamar dos colegas. A passagem pela França durou apenas um ano e poucos jogos.

Na volta ao Brasil, continuou com a fama de rebelde e problemático, mas por outro motivo. Foi um dos primeiros atletas negros a abordar publicamente a questão do racismo. Afirmou que foi crucificado na época do acidente por ser “preto”.

Simone confirma que o pai vendeu os troféus e medalhas da época de glórias do Santos e da seleção. Parou de jogar aos 29 anos e foi trabalhar como estivador no porto de Santos. Aposentou-se aos 55 anos. Foi a filha única quem cuidou dele até a morte precoce, em 2014, ano da Copa, de insuficiência renal.

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