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''A briga desumaniza. A luta, não''

O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2010 | 00h 00

CRISTIANO BARREIRA, Faixa preta de caratê e prof. de psicologia da USP

A única diferença entre briga e luta é a existência de regras, juízes e medalhas?

A briga desumaniza o outro e pode até matá-lo. Já na luta, as intenções do outro são consideradas - sua proposta combativa e suas habilidades, enfim, sua meta de vencer. Na luta, o desenvolvimento passa pelo contato com a raiva, a frustração, o orgulho, a determinação e a fraqueza. Daí também a luta não ser apenas com o outro, mas consigo mesmo, num combate contra as próprias limitações, sobretudo, contra o próprio orgulho.

Como os orientais conseguem ver tanta afinidade entre luta e espiritualidade?

A matriz judaico-cristã, que fala do paraíso como um local e um estado sem males, demonizou certas condutas. Numa revolução moral sem antecedentes o cristianismo chega a preconizar a oferta da outra face a uma agressão. Assim, há uma moral que força os saberes combativos a um nicho psíquico rejeitado. O mesmo não aconteceu no Extremo Oriente, onde as matrizes culturais integram a ambiguidade e abordam de outra maneira aquilo que o Ocidente recalcou. Pode-se dizer que as artes marciais são uma expressão disso.

As artes marciais ressaltam a importância da energia invisível (ki) e da força do pensamento, mais do que da força física. Isso é ciência ou pura superstição?

Há ciência nisso, mas não uma ciência reduzida a conhecimentos matematizáveis. Sentimos, vivemos essa energia. Há técnicas que nos colocam em sintonia com o ki. Essa sensibilização à energia antecipa as intenções de si e do outro que, antes de serem visíveis, começam a ganhar intensidade no corpo. É claro que o cinema exagerou e transformou isso num espetáculo inserido num contexto narrativo diferente.

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