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Alerta tricolor

Antero Greco

O São Paulo está na garantia de início de temporada, assim como qualquer outro clube. Não completou três semanas de bola a rolar, embora nesse período já tenha passado por uma decisão (na fase preliminar da Libertadores) e alguns perrengues. Merece o benefício da tolerância. Cabe-lhe crédito de confiança, como descabida seria condenação definitiva e precoce.

A boa vontade não impede que se fique com um pé atrás. O tira-gosto apresentado até agora pelo time de Edgardo Bauza não apetece. Nos três jogos pelo Paulistão e nos três da competição continental não empolgou nem os fanáticos. Antes, foram mais as dúvidas e os sobressaltos que espalhou do que os aplausos, as certezas e os bons fluidos que semeou.

O São Paulo preocupa – e, em diversas ocasiões, irrita. Como na partida com o The Strongest, no início da noite de quarta-feira. O Pacaembu lotado viu atuação frouxa diante de rival insosso, um coadjuvante histórico no torneio. E que, ainda assim, foi protagonista da primeira zebra na edição de 2016 e voltou para casa com três pontos.

Espera aí: será que se pode classificar como surpresa o 1 a 0 dos bolivianos sem carregar na presunção? Em circunstâncias normais, seria placar de derrubar apostadores na Loteca. No caso, há anormalidade – e esta não vem do The Strongest, mas do próprio São Paulo. Não é de agora que um dos mais medalhados times do mundo derrapou do pedestal para tornar-se trivial.

Desde 2008, o último ano de brilho (aquele do tri nacional), se assiste ao declínio tricolor, fora e dentro dos gramados. A inversão de ordem aqui é proposital. A decadência começou nos bastidores, no empobrecimento da política interna, nas reeleições do falecido Juvenal Juvêncio, e atingiu o episódio de maior constrangimento com a renúncia de Carlos Miguel Aidar.

Os reflexos daninhos do descompasso da cartolagem se estenderam para o futebol. O São Paulo não conseguiu mais formar uma equipe confiável, deu muitos furos n’água com investimentos errados em atletas, perdeu-se na ciranda da troca de treinadores, revelou pouco e mal. Resultado? Escassez de títulos, a maior desde o fim dos anos 1960. No período recente, engordou a sala de troféus com a Sul-Americana de 2012, cuja final teve apenas um tempo, pois o adversário, timeco de quinta categoria e inexpressivo, fugiu de campo.

Tente lembrar quais os craques do São Paulo de lá para cá. Difícil? Claro. Ocorre o nome de Lucas, e olhe lá. Ele bateu asas para o Paris Saint-Germain, e a grana da negociação não desembocou no surgimento de esquadrão. Houve algo marcante no Brasileiro, no Paulista, na Copa do Brasil, na Libertadores? Nada. O clube acompanhou passivamente o estrondo no crescimento de Corinthians, Palmeiras e Santos, para restringir a comparação às diferenças locais. Viu sem se dar conta de que os outros aceleravam, enquanto marcava passo. A empáfia brecou a autocrítica.

Ressalve-se, pela enésima vez, que tem muito caminho pela frente, e fica a esperança de crescimento. Se as vitórias se acumularem, receberá aplausos e elogios aqui. Porém, o que há para o momento? Um punhado de rapazes que não formam um time e aos quais falta a centelha vencedora. Não sejam tomados como bodes expiatórios, mas seriam Mena, Kieza, e Kelvin os candidatos a ídolos que a torcida esperava?

Lugano é o semideus que colocará ordem na zaga? Ganso e Michel Bastos são os regentes à altura das tradições tricolores? Algum dia Centurión explodirá? (Não custa lembrar que, antes do Morumbi, teve passagem breve pelo Genoa, uma espécie de Bragantino da Itália.) Kardec e Wesley ainda provarão que valeu o esforço para tirá-los do Palmeiras?

O são-paulino não é mais ou menos exigente do que outros torcedores; cobra e incentiva da mesma maneira. Com a diferença de que anda ressabiado com a maré baixa, pressente o risco de viver outro ano em branco. Por isso, vaia e aperta desde já. A missão de Bauza, jogadores, dirigentes é a de se sacudirem. Logo.

Com as vaias, a torcida do São Paulo mostrou preocupação e mandou o recado: acordar, já!

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