Arquivo/AE
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Argentina 6 x 0 Peru ainda não acabou

Ex-senador peruano diz que placar foi manipulado para atender acordo político entre ditaduras; Brasil ficou fora da final

JAMIL CHADE / GENEBRA , CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2012 | 03h07

GENEBRA - A goleada da Argentina contra o Peru na Copa do Mundo de 1978 que deixou o Brasil fora da final foi sempre rodeada por rumores e acusações. Agora, denúncias feitas a um juiz sustentam a tese de que, na realidade, o resultado daquela partida foi um pacto entre os dois regimes militares de Peru e Argentina. A declaração e a notícia acabaram causando mal-estar entre os cartolas da Fifa, que sempre alegaram que as acusações de suborno faziam parte dos defensores da tese da conspiração.

Para disputar a final, os argentinos precisavam vencer o Peru por 4 x 0. Qualquer resultado inferior daria a vaga ao Brasil para enfrentar a Holanda na decisão do Mundial. Apesar da boa equipe peruana, o jogo terminou em 6 x 0 para os argentinos, o que alimentou por décadas a especulação de um acerto financeiro entre os dois times.

Mas, segundo a mais recente versão, o acordo teria sido politico. Um juiz argentino, Norberto Oyarbide, abriu no ano passado investigações sobre o ex-ditador peruano Francisco Moralez Bermudez e, na semana passada, pediu sua prisão por crimes como sequestros e assassinatos.

Segundo publicou o jornal argentino El Tiempo, uma das principais testemunhas do caso, o ex-senador peruano Genaro Ledesma, revelou ao juiz que a vitória de 6 x 0 da Argentina contra o Peru na Copa de 1978 - e que deixou o Brasil de fora da final - havia sido pactuada entre os ditadores dos dois países e fazia parte de um acordo maior de cooperação entre os dois governos

Pela versão, o ditador argentino Jorge Videla aceitou no âmbito do Plano Condor receber 13 prisioneiros peruanos que, em Lima, lideravam greves para derrubar o regime de Morales Bermudez. Em troca, porém, o argentino solicitava que os peruanos deixassem a Argentina vencer a partida no Mundial.

Detalhes da história. O ex-senador Ledesma insiste que sabe dos detalhes da história porque ele mesmo foi um dos prisioneiros alvo da troca em 1978. Naquele ano, Ledesma foi sequestrado pelo regime peruano.

Os detentos foram enviados para o norte da Argentina em um avião militar no dia 25 de maio de 1978. De lá, foram transladados para a Buenos Aires e, depois de algumas semanas, foram autorizados a viajar como exiliados para Paris. A partida entre os dois times ocorreria no dia 21 de junho daquele ano.

Com essa saída para a França, os prisioneiros evitaram serem atirados ao mar, uma prática do governo argentino.

"Videla nos aceitou como prisioneiros de guerra na condição de que o Peru permitisse o triunfo da Argentina na Copa do Mundo", disse o ex-senador ao jornal argentino. "Isso tinha importância para Videla. Ele precisava do triunfo para limpar a má imagem da Argentina no mundo", afirmou Ledesma.

O acordo não terminaria aí. No mesmo ano, Videla fez empréstimos ao governo de Morales Bermudez e enviou um carregamento de 14 mil toneladas de trigo ao Peru.

Fifa em alerta. Não é novidade que a partida foi alvo de desconfianças por anos. Mas a Fifa sempre rejeitou falar no assunto, alegando que não existiam provas. Dentro da entidade, porém, fontes admitiram ao Estado que essa é a primeira vez que uma vítima dos regimes sul-americanos denuncia o esquema do jogo a um juiz, oficialmente, o que pode não ser nada positivo para a imagem já problemática da Fifa.

Esse caso abre as portas para novas investigações sobre a polêmica partida da Copa do Mundo de 1978 e também de outros jogos, de competições internacionais importantes, que poderiam ter sido arrumados por interferência política.

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