Basquete e futebol

Recebi faz tempo um alerta feito por Zizinho, o grande craque brasileiro

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2018 | 04h00

Nestes últimos dias de folga, quando se pode dormir um pouco mais tarde, não perca as transmissões dos jogos da NBA, o campeonato de basquete americano. Principalmente se você gosta de futebol, não deixe de ver essas partidas. Recebi faz tempo um alerta parecido feito por Zizinho, o grande craque brasileiro, o mitológico mestre Ziza que, numa entrevista muito depois de ter encerrado a carreira, foi inquirido sobre o que estava vendo na televisão. Zizinho foi taxativo: estava vendo basquete. Para surpresa do repórter acrescentou que o basquete lhe dava maneiras de entender melhor o futebol, através de um compreendia melhor o outro.

O repórter infelizmente não se alongou na questão que começava a me interessar profundamente e o pensamento de Zizinho terminou por aí. Um esclarecimento se faz necessário: Zizinho não via NBA, porque naquele momento não havia transmissões. Via mesmo o basquete aqui do Brasil. Não era mais o grande basquete campeão do mundo de Wlamir e Amaury, mas ainda era respeitado e respeitável, a ponto de chamar a atenção de um craque observador como Zizinho. Outro ponto a ser ressaltado é que naquele momento Zizinho tentava impulsionar sua carreira de treinador e evidentemente, me pareceu que tinha intenção de aproveitar certas características do basquete nos times que treinaria.

A frase do grande craque me impressionou tanto que comecei a ver basquete e futebol tentando fazê-los coincidir de alguma maneira. Parecia uma tarefa impossível dadas suas gritantes diferenças. Hoje tenho a impressão de que Ziznho teria muito mais campo para estudar, fruto das modificações, principalmente do futebol, que fazem com que os dois esportes possam se relacionar imediatamente. No basquete, desde seu início, os cinco que atacavam eram os mesmos cinco que defendiam. Um jogador tinha que se esmerar tanto no ataque quanto na defesa, portanto era em principio, como até hoje, um jogo de contra-ataque. Toma-se a bola do adversário e parte-se para o ataque em ‘transição rápida’ como se diz hoje. A bola tem que ser, ou ‘roubada’ do adversário ou garantida sua posse através de um rebote. O rebote, nesse sentido, sempre foi algo fundamental no basquete. ‘Rebote’ não soa também familiar no futebol, para quem está ali protegendo a área? Tomar a bola e contra-atacar sempre foram armas comuns a todos os grande times.

Quem for assistir a essas partidas da NBA deve prestar atenção nas passagens incríveis da defesa para o ataque. A questão é como não perder a bola nem dar rebote. A resposta para isso no basquete americano atual é impossibilitar o rebote não errando arremessos. O índice de aproveitamento de chutes de fora – ia quase dizendo ‘de fora da área’ – é muito grande, Por que? Para evitar, repito, que o adversário possa iniciar o mortal contra-ataque.

Não preciso nem mencionar como estão jogando hoje os times de futebol. Quem não joga unicamente pelo contra-ataque? Quem não recua para trás da linha de meio de campo todo o time, fechando qualquer espaço, visando sempre retomar a bola para desencadear um contra ataque? Quem não usa um centroavante ou outro jogador, não importa, que faça a função de pivô, designação durante longo tempo propriedade do basquete. O pivô nunca foi apenas o grandalhão que lutava pelos rebotes, foi sempre muito mais. É só nos lembrarmos de Hakeem Olajuwon, Patrick Ewing ou do grande russo Sabonis, que ainda teve tempo, aos 36 anos, de jogar na NBA e dar espetáculos inesquecíveis.

Basquete e futebol são finalmente esportes em que se luta contra o rival e contra o tempo, por isso os finais de jogo, em geral, são empolgantes. Faça como Zizinho. Se você gosta de futebol, assista basquete.

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