ESTADAO CONTEUDO
ESTADAO CONTEUDO

Rafael Pezzo, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 07h00

Com espinhas no rosto e alguns poucos fios no bigode, característicos da adolescência, Eric Pardinho chega um pouco envergonhado. Liberado do treino por um resfriado, o garoto de 16 anos estava descansando quando a equipe do Estado chegou ao CT Yakult, em Ibiúna, no interior de São Paulo, para falar com a principal promessa do beisebol brasileiro.

O garoto acanhado ganhou fama internacional no último mês de setembro, durante sua primeira convocação à seleção brasileira principal. Na etapa classificatória para o Clássico Mundial de Beisebol, a Copa do Mundo do esporte, em Nova York, Pardinho lançou a bolinha perto das 95 mph (152 km/h), velocidade alcançada por boa parte dos jogadores da Major League Baseball (MLB), mais importante liga da modalidade no mundo.

“Consigo lançar a mais de 90 mph (144 km/h) desde o ano retrasado”, conta o garoto de forma humilde, mas que se mantém ambicioso. “Acho que posso melhorar. Minha meta mesmo é chegar nas 97 mph, 98 mph (156 km/h, 157 km/h).”

O feito do adolescente, então com 15 anos, foi assunto nos principais veículos de imprensa esportiva dos Estados Unidos. “Foi algo impensável, um menino de 15 anos chegando na seleção principal”, conta Pardinho, que ri ao ser perguntado se imaginava que seria famoso tão jovem: “Do nada o negócio estourou.”

Não apenas os jornalistas estrangeiros se abismaram com o potencial do menino. Cerca de cinco clubes da MLB já demonstraram interesse em contratá-lo a partir do dia 2 de julho, data da abertura da janela de contratações internacionais da liga. “Eles não falam diretamente comigo. Chegam aos meus pais e avisam que estão de olho em mim. Não chegam a falar de propostas financeiras.”

O garoto ainda não se preocupa com isso: “Não tenho preferência por nenhum clube ou cidade. O que eu quero é jogar.”

Pardinho foi apresentado ao beisebol pelo tio, durante um passeio na praia, aos seis anos. “Estava brincando e ele disse que eu levava jeito para o esporte. Não deu uma semana, meu pai me levou para fazer um teste e fiquei por lá.”

Aos oito, ele finalmente foi colocado como arremessador, e aos dez, foi convocado pela primeira vez à seleção de base, para o Campeonato Pan-Americano, na Nicarágua, em 2011. Dois anos e duas convocações depois, onde foi o principal do jogador da equipe, Eric foi convidado para treinar em Ibiúna, melhor centro de treinamento da modalidade no País. “Depois que entrei no CT, decidi levar o beisebol para a minha vida.”

Pardinho divide o alojamento do centro de treinamento com outros 31 jovens, que possuem rotina de atividades diárias. “Vou à escola de manhã e treino à tarde de segunda à quinta. De sábado e domingo, treino e jogo no meu time, em Arujá.”

“Antes, eu não treinava assim, então grande parte do meu tempo era de sossego. Minha cidade (Bastos) é pequena, não fazia quase nada. E aqui, como é correr e treinar todos os dias, às vezes dá uma canseira”, explica o menino, entre mais risadas.

Esse jeito tranquilo e relaxado foram colocados à prova em setembro, quando desembarcou em Nova York para o maior desafio da sua vida. O técnico da seleção, Barry Larkin, ex-jogador da MLB e membro do Hall da Fama, e o treinador de arremessadores LaTroy Hawkings, outro ex-MLB, quiseram ter certeza que o garoto ficaria bem sob pressão.

“Sempre me davam muita atenção. Como eu era muito novo, eles se esforçavam para que eu não ficasse nervoso, me diziam para fazer o que eu sabia.”

Seu talento e a fama que ganhou nos Estados Unidos após sua apresentação em setembro deixam o garoto muito confiante que será contratado em julho. Tanto é, que não hesitou em saber dos colegas de seleção que jogam por lá como funcionam as coisas. “Já fiz várias perguntas. Quis saber como funcionavam os programas, como é a vida por lá. Isso varia muito de acordo com o time que você vai.”

Dependo da franquia, ele pode tanto mudar de país logo depois do acerto, como apenas no início do próximo ano, para realizar a pré-temporada com o novo time.

Se em menos de dez anos ele passou de uma criança que brincava na praia a um fenômeno do esporte, não será uma mudança de país que tirará o sossego do garoto. “Já pensei sobre isso. Para mim, será uma coisa nova. Como quando eu vim pra cá (Ibiúna). Era novo, saí da minha casa e cheguei aqui. Então, vai ser algo novo, de novo. Um passo já foi, agora será outro.”

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MLB aproveita melhor centro de treinamento da América do Sul para revelar brasileiros

Inaugurada neste ano, Academia MLB Brasil já começou a render frutos para o País e para a liga

Rafael Pezzo, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 07h00

O centro de treinamento em Ibiúna foi construído pela Yakult em 1999 e cedido à Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol (CBBS) logo em seguida, se tornando sede de todas as categorias da seleção nacional. Além disso, desde 2000, a entidade comanda no local a Academia CBBS, onde recebe os principais atletas do País para treinos durante o ano inteiro. 

O primeiro contato da confederação com a Major League Baseball (MLB) aconteceu em 2005, após a saída do beisebol do cronograma olímpico e, consequentemente, a suspensão da verba pela Lei Angelo-Piva. "Falamos com o pessoal da MLB e oferecemos nosso espaço. Eles ficaram encantados com a estrutura e começaram a investir", conta Jorge Otsuka, presidente da CBBS.  

A partir de 2011, a Major League passou a realizar anualmente no CT os Elite Camps, acampamentos de duas semanas de duração para meninos de 13 a 17 anos com treinos comandados por ex-jogadores e técnicos da própria liga norte-americana. 

"Em 2016, fizemos o sexto e último camp e estudamos uma maneira de evoluir, deixar o projeto ainda mais sério. Então, surgiu a ideia de entrar nas operações do dia a dia dos atletas", explica Caleb Santos-Silva, coordenador de desenvolvimento internacional de beisebol da MLB. 

No início deste ano, as duas entidades realizaram peneiras em Ibiúna, Marília e Londrina e selecionaram 32 garotos, sendo que 11 deles são financiados integralmente pela MLB. Já os outros 21, aprovados pela CBBS, arcam com os próprios custos, de cerca de R$ 1,600 por mês. "As bolsas cobrem escola particular, treinamento, equipamentos, estadia, alimentação e fisioterapia", detalha Otsuka. 

ESTRUTURA

Instalado em uma área de 220 mil m², o CT de Ibiúna conta com três campos oficiais, alojamento para 40 atletas, cozinha para 150 pessoas e áreas destinadas para treinos específicos de arremessos e rebatidas.

Segundo Caleb, a MLB precisou realizar somente pequenas melhorias no local, como replantio de grama e trocas de aparelhos de musculação. Algumas outras pequenas reformas, como dos bancos de reservas e em outro campos, foram possíveis após uma doação feita por Luiz Gohara, jogador brasileiro que atua nas categorias de base do Atlanta Braves. "O espaço em Ibiúna é único na América do Sul e tem potencial para ser ainda mais adequado para treinamentos de alto rendimento."

Além da Academia, a MLB também comanda outras atividades no CT, como cursos de capacitação de técnicos, realizado em abril, e de árbitros, planejado para o segundo semestre. "Estas ações deverão melhorar ainda mais o nível do beisebol brasileiro", diz Caleb. 

RETORNO 

No último dia 9, Christian Rummel Pedrol, de 16 anos, assinou contrato de sete anos com o Seattle Mariners. Ele foi o primeiro a sair direto da Academia para a MLB. Seattle, por sinal, é a franquia que mais tem acreditado no potencial brasileiro, e Pedrol é o oitavo jogador nativo a se transferir para o clube. Atualmente, Thyago Vieira é o único representante do País nos times afiliados aos Mariners na Minor League Baseball, as categorias de base da MLB, também conhecidas como Ligas Menores.

Além de Pedrol e Pardinho, outros jogadores devem deixar o País a partir de 2 de julho, quando é aberta a janela de contratações de jovens estrangeiros. Entre os destaques estão Heitor Tokar, Victor Coutinho e Victor Watanabe.

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