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Campanha da família por Laís Souza arrecada apenas R$ 3 mil

Amanda Romanelli - O Estado de S. Paulo

22 Março 2014 | 05h 00

Pai da atleta, acidentada na neve nos Estados Unidos, ressalta carisma da filha

SÃO PAULO - O montante de doações não tem sido proporcional à repercussão da página criada no Facebook pela família de Lais Souza, há quase uma semana, para arrecadar fundos para a ex-ginasta. A avaliação é do pai da atleta, Antônio. Segundo ele, foram transferidos para a conta-corrente de Lais cerca de R$ 3 mil. O valor é de quarta-feira, última vez em que o saldo havia sido checado.

Mas Antônio, que ressalta a importância de construir um "pé de meia" para a filha enquanto o tratamento nos EUA está em curso, é grato a qualquer contribuição feita a Lais, não necessariamente financeira. "Orações, o carinho recebido... Não imaginávamos que ela tivesse um carisma tão grande. Estamos todos muito emocionados." E ressalta. "A campanha é da Lais, não do Comitê Olímpico Brasileiro."

Na página, um texto diz que a campanha já tinha recebido R$ 75 mil em um dia. O valor, na verdade, refere-se à quantia necessária para a aquisição de uma cadeira de rodas elétrica e de um tablet para comunicação, sensível ao movimento dos olhos. Um doador, que pediu sigilo sobre sua identidade, garantiu a compra dos equipamentos.

Nascida em Ribeirão Preto, interior paulista, onde vivem seus pais e irmãos, Lais vem de uma típica família da classe trabalhadora. Antônio faz projetos de mecânica, com formação técnica do Ensino Médio. "Tenho meu emprego durante o dia e também faço serviços extras, para garantir o filé mignon." A mãe, Odete, trabalha em uma loja de sapatos. Ao viajar para os EUA, ela recebeu do chefe a garantia de que teria o emprego assim que retornasse ao Brasil. A ex-ginasta tem dois irmãos, que são formados. "Somos uma família humilde, em que não tem sobras. O que a Lais ganhou com a ginástica foi suficiente para a sobrevivência."

Em um cenário econômico que não permite extravagâncias, os familiares de Lais contam com o apoio – das doações, do COB, ou de quem se dispuser – para viajar aos EUA. "Foi um pedido dela, que disse: quero ver meu pai", conta Antônio. Por ora, a família está organizando a parte burocrática, providenciando passaportes e vistos. A ex-ginasta, que se preparava para a Olimpíada de Inverno de Sochi, sofreu o acidente na estação de Park City no dia 27 de janeiro, mas já estava nos EUA antes disso, para treinos.

À distância, pai e filha têm mantido contato. O aplicativo WhatsApp é o principal meio de comunicação. Lais já mandou mensagens de voz a Antônio, e eles mantêm escassas conversas telefônicas. "Ela diz frases curtas, porque fica muito cansada com o tratamento. São três, quatro sessões de fisioterapia por dia." No domingo, durante o programa Fantástico, da TV Globo, Lais dará sua primeira entrevista desde o acidente.

CRÍTICAS

Na página do Facebook em que a campanha se desenvolve, transbordam declarações de apoio e solidariedade a Lais, mas não faltam críticas ao COB. Para muitos, a responsabilidade de garantir as necessidades futuras da ex-ginasta é da entidade. Antônio defende o COB, assim como a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN). "Tudo tem sido favorável à Lais. O único vilão da história é o acidente."

O COB afirmou que todas as despesas médicas estão sendo pagas com duas apólices de Lais – um plano de saúde (do COB) e um seguro de vida internacional (da CBDN). Em comunicado à imprensa, divulgado na segunda-feira, ainda diz que apenas atletas em delegações nacionais (em Jogos Olímpicos ou Pan-Americanos, por exemplo) recebem um seguro que prevê indenização em caso de invalidez. Já uma aposentadoria depende de contribuição ao INSS e avaliação por perícia médica da Previdência Social.

As necessidades de Lais para o futuro ainda não são muito claras. Tudo depende da evolução do tratamento a que a ex-ginasta é submetida no Jackson Memorial Hospital, que fica na Universidade de Miami. Até o tempo de permanência da ex-ginasta nos EUA é uma incógnita. Seu pai diz que pode se estender a até oito meses.

Por isso, atendendo a orientações da equipe médica americana, Antônio já começou a visitar centros de reabilitação em Ribeirão Preto, para ter mais informações e contato com a rotina de uma pessoa com a deficiência. "Claro que vamos ter de fazer adaptações em casa, no carro. Pode demorar um, dois, cinco anos, mas tenho certeza de que será temporário. Acredito que Deus vai falar mais alto e ela teria essas condições especiais apenas por um tempo."

RUÍDO

Stefano Arnhold, presidente da CBDN, diz que pode ter havido ruído de comunicação, mas garante que as entidades nunca se eximiram da responsabilidade futura com Lais. "A questão é que nem tudo é coberto por seguros. E ainda não sabemos exatamente o que Lais necessitará." Para ele, as críticas ao pedido de doações refletem uma falta de costume do brasileiro a iniciativa. "Isso é muito comum no exterior. Em Sochi (ele foi chefe da delegação brasileira), atletas de outros países entraram em contato comigo porque queriam contribuir com a Lais. Eles sabem o valor dessa ajuda, porque é comum que os atletas não tenham apoio de governos, por exemplo, para competir."

O COB diz que Lais terá aulas de inglês durante esse período nos EUA e que pretende auxiliá-la a conseguir uma bolsa de estudos para cursar uma faculdade. Não que a ginasta não tenha tentado concluir o ensino superior. Ela começou o curso de Educação Física e também tentou estudar Moda, mas os compromissos com o esporte não permitiram a continuidade dos estudos. Antes de fazer os testes para virar atleta do esqui aéreo, em maio passado, Lais tinha anunciado seu afastamento da ginástica – seu contrato com o Pinheiros, último clube que defendeu, foi oficialmente finalizado em 12 de junho de 2013.