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Como ajudar a seleção

Luis Fernando Verissimo

Você não pode entrar em campo, hoje, mas pode ajudar a seleção a derrotar a Croácia de várias maneiras. Para começar, espero que você tenha saído da cama com o pé direito. Se não saiu, volte para a cama e saia com o pé certo. Se sua escova de dentes não estava alinhada com o Marco Zero de Brasília e/ou o Cruzeiro do Sul, volte lá, corrija sua posição e escove os dentes de novo. Você deveria ter prestado atenção no sabonete que usou no banho, ele poderia ter uma carga negativa que influenciaria todos os acontecimentos do dia, culminando com um gol contra do David Luiz. Se não fez isso, e não passou a manteiga no pão da esquerda para a direita cantando o Hino Nacional, anule as más vibrações e redima-se dando três voltas na mesa do café gritando "Mizifum, mizifum, mizifum!" Eu não sou supersticioso - inclusive porque li que superstição dá azar, mas vou usar a mesma cueca que usei em todos os jogos da Copa das Federações no ano passado e me recusei a lavar, apesar dos protestos da vizinhança. Em cueca que está ganhando não se mexe.

Outra maneira de ajudar a seleção é contatar, telepaticamente, o Felipão antes do jogo e instruí-lo a ignorar toda essa discussão sobre quatro-três-três, três-cinco-dois, quatro-quatro-dois e entrar com quatro-quatro-quatro. Isso dá doze, eu sei, mas até o juiz se dar conta de que tem jogador demais em campo nós já teríamos marcado três.

Reze. Deus é neutro, certo, ou no mínimo desinteressado, mas tente convencê-lo da importância de uma vitória do Brasil neste momento tão difícil da nacionalidade, cite as estatísticas sobre a religiosidade do nosso povo e a Sua popularidade entre nós (e alguns números da nossa economia para comovê-Lo) e apele para o fair play divino, lembrando-O que uma vitória da Croácia significaria pouco para o seu povo, alguns vivas na rua, alguns brindes a mais com cerveja e só, enquanto que, para nós, a derrota significaria o abismo. E se nada mais der certo, ofereça algum por fora.

Acima de tudo, mantenha a calma. Se tiver de roer as unhas, roa as suas e não avance nas do vizinho. Lembre-se de que, no curso natural das coisas, uma vitória do Brasil é inevitável. E não retruque, perguntando quando é que as coisas têm seguido seu curso natural, ultimamente.

VERISSIMO