Felipe Rau|Estadão
Felipe Rau|Estadão

Corrida de rua cresce cada vez mais no País e atrai legião de fãs

Mercado das provas movimenta cada vez mais participantes nos finais de semana em diversas cidades do Brasil

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 17h01

Todo fim de semana milhares de corredores tomas as ruas das cidades brasileiras para treinar, competir e ajudar a movimentar um mercado milionário. Praticantes de uma modalidade que cresce a cada ano, a corrida de rua, eles conseguem conciliar uma rotina pesada de trabalho com a atividades físicas. Só no ano passado foram realizadas 469 eventos dessa natureza com cerca de 820 mil inscritos, de acordo com levantamento feito pela Federação Paulista de Atletismo.

Se multiplicar esse número pelo Brasil, é fácil chegar as cifras relevantes e um negócio que só faz crescer no País. “Não temos um número que expresse o volume financeiro desse mercado, mas posso afirmar que cresce a cada ano. Mesmo com as dificuldades do Brasil, as provas têm sempre número expressivos de participantes”, diz Thadeus Kassabian, diretor-geral da Yescom, que organiza algumas das principais provas de rua do País, como a Meia Maratona de São Paulo e do Rio, Maratona de São Paulo, Dez Milhas Garoto (ES), Volta da Pampulha (MG) e São Silvestre.

Como norma, a empresa não divulga seus números. Mas Kassabian dá um exemplo dos custos de uma corrida. “Geralmente, um terço dos corredores é oriundo de patrocínio. Outro um terço diz respeito a atletas com apoio e permutas e a terceira parte é formada por inscrições comuns. O lucro é variável. Mas existem eventos que não cobrem as despesas e quando há lucro, ele gira entre 7% e 15%”, garante.

O São Paulo está organizando junto com a Under Armour a Tricolor Run. A prova será realizada em 16 de julho nos arredores do estádio do Morumbi. São 3 mil inscritos, que pagam taxa de R$ 120, totalizando R$ 360 mil. A fabricante esportiva entra com as camisas da prova. “O desafio é mostrar que corridas podem ser um produto de ganho financeiro, não só de imagem, dependendo de como a prova é organizado”, explica Erich Beting, organizador oficial da Timão Run e Tricolor Run.

A ideia do clube do Morumbi foi criar um evento que dura meio ano. Existe o lançamento da corrida, treino aberto, desconto para quem compra tênis na Under Armour, cinco dias para a retirada do kit, ou seja, não é apenas uma corrida de rua com data marcada. “Geralmente participa um público que consome e isso gera receita para a empresa.”

O mercado de corridas no Brasil não demonstra que chegou ao seu limite. Pelo contrário. Está aquecido. Vários estados contam com eventos todos os meses e, por causa disso, existe um forte processo de profissionalização. Também ocorrem competições temáticas ou que conseguem aliar turismo, de belos locais e paisagens, com percursos.

“São vários fatores que atraem o atleta para determinada prova. Tem a camisa, o kit, essas coisas todas. E quando o corredor começa a ficar mais profissional, passa a olhar para o tipo de percurso, a qualidade de hidratação e ele procura superar seus recordes pessoais naquele evento ou distância”, diz Beting.

Além do negócio em si, a corrida de rua faz bem para a saúde das pessoas e para a sociabilidade delas. Segundo Aline Borro, Coach do Esporte na Wellness Running Assessoria Esportiva, são diversos os benefícios. “Além da saúde, a corrida melhora a concentração, o foco e o raciocínio, sendo altamente benéfica no campo profissional. É uma forma saudável de promover integração social. Dizem até que o melhor da corrida são os amigos que fazemos ao longo dos caminhos”, conta.

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Odete dos Santos concilia a dura vida de diarista com as corridas de rua

Rotina é tomada pelo trabalho em tempo integral, treinos e reforço muscular na academia. Descanso, só uma vez por semana

Anita Efraim, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 17h01

Todo dia às 6h ela está de pé. Corre, trabalha das 9h às 19h e, três vezes por semana, vai à academia. Descanso? Uma vez por semana. Aos 55 anos, Odete Conceição dos Santos concilia seis treinos de corrida por semana, três dias de musculação e o serviço de diarista.

Sua história, e envolvimento, com as corridas de rua começou em 1993, quando ouviu falar da São Silvestre e decidiu que, no ano seguinte, participaria da prova. Decidiu treinar. “Eu dava duas voltinhas na Praça Buenos Aires e achava que ia ganhar a São Silvestre, era engraçado”, relembra, entre boas risadas. Em sua primeira tentativa, não decepcionou e conseguiu completar os 15 km da prova mais conhecida de São Paulo.

Mal imaginava, aos 32 anos, que ainda faria dezenas de maratonas e conquistaria muitos pódios em sua ‘carreira’ como corredora amadora. Em 2016, ela foi a vencedora da Timão Run, corrida do Corinthians, ao completar os 10 km em 44min11s. Na opinião dela, um tempo altíssimo. Na semana seguinte, pegou 5o lugar em outra corrida com a mesma distância, em 42 minutos.

Para conseguir chegar no nível que está, Odete teve ajuda. Em 1998, ela conheceu Mário Sérgio Andrade Silva, dono da assessoria esportiva Run&Fun. O treinador a chamou para correr na equipe sem nenhum custo. “Eu sempre gostei de ajudar quando eu via que a pessoa era séria, e eu vi isso na Odete”, explica o treinador.

Mário Sérgio acertou em apostar no potencial de Odete. A marca sonhada por tantos corredores, de completar uma maratona em menos de três horas, foi alcançada por ela duas vezes, em Blumenau e Porto Alegre. “O Mário pega no meu pé, mas antes eu corria quatro maratonas por ano”, lembra.

No entanto, ela deixou de correr os 42 km. “Não corro mais, ficou muito difícil. Eles pararam de dar premiação, acho que não vale o desgaste, aí eu estou fazendo só de 21 km para baixo”, explica. O próximo desafio é no dia 4 de junho e a ideia de Odete é completar em 1h30.

Se dependesse da diarista, ela faria prova todas as semanas, mas seus treinadores não permitem por causa do desgaste. Já foram centenas de corridas ao longo do tempo e, para ela, essa é a parte mais legal. Por muitos anos, Odete pagava suas próprias competições, mas hoje, a situação é mais complicada. Ela explica que algumas das corridas das quais participa são bancadas pela Run&Fun, outras, pelos companheiros de treino. Provas fora do Brasil, hobbie de tantos corredores, ela nunca teve oportunidade de fazer, mas não esconde: gostaria, se tivesse a oportunidade.

Por muito anos, a diarista treinou no Parque do Ibirapuera, mas teve de mudar. “A passagem de ônibus foi aumentando, foi ficando mais difícil e eu perguntei se eles me aceitavam no Parque Água Branca. Eles me aceitaram de braços abertos”, garante.

O que faz Odete mais feliz em praticar o esporte é conhecer “pessoas maravilhosas”. “Às vezes, como a gente é mais humilde, tem diferença das pessoas. No esporte não, todo mundo é igual. Isso que eu acho super maravilhoso”, opina. “A gente chega suado, fedendo e coisa e tal e abraça, beija e não é no mundo lá fora, é totalmente diferente. Tem gente que se pudesse nem encostava na gente, e no esporte não tem isso.”

Mário Sérgio vê na corrida o mesmo caráter que Odete: “A corrida é um esporte muito democrático. A pessoa de grana admira aquela outra pessoa que não tem essa posse e corre melhor que ela”.

Ao falar sobre igualdade na corrida, a diarista cita sua grande amiga e companheira, Daniela Frizzo. É ela quem mais ajuda Odete com os recursos necessários. Tênis, relógios, provas de corrida, tudo que ela precisa a amiga está disposta a pagar. “É uma pessoa maravilhosa, que eu gosto muito, que tem me ajudado bastante”, fala sobre Daniela.

Daniela se emociona ao falar de Odete: “Ela cuida de mim como filha e do meu filho como neto. Não existe pessoa como esta moça, ela quer o bem de todo mundo só pensa nos outros”. Às vezes, ao terminar uma prova, se a diarista vê um corredor sem medalha, não se importa em dar a sua.

Questionada sobre como a corrida mudou sua vida, a corredora amadora diz que sua cabeça é outra, “no dia que eu não treino, fico doente”. Por outro lado, Odete acredita que falta incentivo e democratização do esporte. “As pessoas que lutam mesmo, é difícil, muito difícil mesmo. A gente não tem ajuda”, desabafa.

Apesar das dificuldades, a alegria e o sorriso no rosto da corredora são marca registrada. “Esse riso no rosto e a dedicação sempre foram a marca dela”, descreve Mário Sérgio.

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