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Cruzeiro salva a rodada

Paulo Calçade

O Cruzeiro tem sido a salvação para quem ainda prefere assistir futebol a comentar arbitragem. Cada vez mais sólido, o time mineiro experimenta a liderança contínua do campeonato, resultado de um jogo dinâmico e corajoso. E também chama a atenção pelo comportamento dentro de campo, joga muito e fala pouco.

Dirigida por Marcelo Oliveira, a equipe encerrou na liderança 40 das 56 rodadas disputadas desde o início do Campeonato Brasileiro do ano passado. A uma partida do final do turno, a vantagem dos mineiros sobre o Internacional, o segundo colocado, é de oito pontos. Sobre o Corinthians, o campeão das reclamações, chega a 10.

O que difere o atual campeão brasileiro dos demais? É o jogo coletivo de verdade, com desempenho tático, físico e técnico bem acima da concorrência. Além de uma providencial e surpreendente dose de coragem para atuar ofensivamente e assumir riscos.

A exemplo da concorrência, o Cruzeiro não está livre dos percalços financeiros, mas tem conseguido algo inimaginável, manter-se forte de uma temporada para outra, com poucas mudanças e ainda mais consistência. O resultado pode ser visto na tabela de classificação.

O desenvolvimento coletivo conduz ao crescimento individual. O que torna perfeitamente aceitável a convocação de Everton Ribeiro e Ricardo Goulart pela seleção brasileira. O bom ambiente faz toda diferença.

E tem mais: com o grupo organizado, ajudado e atrapalhado pela arbitragem como qualquer clube, o comandante não estressa os jogadores. Marcelo Oliveira transmite serenidade, não se movimenta na beirada do gramado como se estivesse no palco do Cirque du Soleil.

Se vencer o Fluminense na próxima rodada, no Maracanã, o time alcançará 45 pontos e se tornará o melhor de um primeiro turno dos pontos corridos com 20 equipes. Superará os 43 do Atlético Mineiro de 2012, que terminou a competição sem o título. Hoje o Cruzeiro é um modelo para o campeonato de reclamações que se transformou o Brasileirão. Tomara que continue assim.

Infelizmente não é o caso do Corinthians, beneficiado e prejudicado na partida contra o Fluminense. A horrorosa arbitragem não deveria ser o único foco do debate. É obrigatório discutir o nível do futebol corintiano. Ou a falta de alternativa no elenco para Paolo Guerrero. O torcedor consciente não pode acreditar que a distância do líder Cruzeiro se deve apenas ao péssimo trabalho dos árbitros.

É o futebol brasileiro que está doente. Depois dos 7 a 1, a vida não tem sido moleza por aqui. Vemos conflitos entre gangues de torcedores, jogos de baixo nível técnico, clubes falidos e agora um deplorável caso de racismo na Copa do Brasil, no jogo entre Grêmio e Santos.

O cenário é típico de um organismo enfermo, capaz de fazer muita gente acreditar que os acontecimentos registrados no gramado devam começar e terminam por lá. Essa crença de que no futebol tudo é permitido, tudo deve ser aceito como fruto da temperatura da competição, revela a essência da ideologia cafajeste ainda predominante no meio esportivo.

Não é preciso ser muito esperto para perceber que o futebol espelha a sociedade. Seja durante a Revolução Industrial, na Inglaterra, quando foi preciso padronizar regras, ou na Era do Conhecimento. Muda o ambiente, mudam demandas e expectativas. No palco do STJD, os acontecimentos de Porto Alegre vão transformar o julgamento do Grêmio num espetáculo. É correto que a Justiça Desportiva se manifeste e puna o clube gaúcho, mas não neste formato, como se fizesse parte de um show.

Em nenhum outro lugar do mundo existe tanto espaço para crescimento do futebol como no Brasil. Mesmo com tantos problemas, não é difícil identificar as oportunidades. Bastaria uma razoável dose de boa vontade, mas muito pouco mudará na atual geração de cartolas. Então, é melhor reclamar da arbitragem.