Adriana Carranca/AE
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Descontração e simpatia toma conta do Parque Olímpico em Londres

Estrutura organizada e voluntários levam muita gente a passar o dia nas dependências dos Jogos

ADRIANA CARRANCA - ENVIADA ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2012 | 03h07

LONDRES - A viagem começa na lendária estação de King's Cross e em exatos sete minutos de trem chega-se aos portões do Parque Olímpico, por onde já passaram 5,6 milhões de pessoas desde o início dos Jogos. Passageiros são guiados por voluntários sorridentes, vestindo coletes cor-de-rosa, e há uma equipe especial de "gerenciamento de multidões", de braços abertos, cercando os passos dos visitantes mais perdidos. "A senhora quer ajuda com a mala?", pergunta um deles.

Quem já passou por Londres sabe que o ritmo frenético da metrópole raramente permite, em dias comuns, tal gentileza. Mas estes são tempos de Olimpíada. E os britânicos querem mostrar ao mundo que são um povo generoso, receptivo e multicultural (apesar do endurecimento das leis de imigração pelo partido conservador no poder), além daquilo que já sabíamos sobre eles, que são organizados e pontuais.

Na linha Javelin, colocada em operação apenas para a Olimpíada, as catracas foram liberadas para facilitar os deslocamentos e a viagem é gratuita. Na saída da estação de Stratford International, um voluntário indiano repete, sempre sorrindo, aos que param no caminho para fotografar a vista da Vila Olímpica: "Keep moving. Essa não é a melhor coisa que você verá hoje. Será um dia incrível! Não perca tempo! Keep moving". Uma transeunte espirra e ele não demora a dizer, "saúde!". No megafone.

Na entrada do Parque Olímpico, outra voluntária, uma jovem paquistanesa sob o hijab (véu islâmico), dá boas-vindas: "Hello! Estamos aqui para fazer deste o melhor dia da sua vida!". Há muitos deles espalhados pela cidade, em diferentes funções, 70 mil animados voluntários no total. Mais adiante, uma outra pede um sorriso aos que passam. "Vocês estão felizes?", ela grita. O público reage. "Yeees!" E assim se distrai a fila que anda a passos lentos.

O acesso é dificultado pelo forte esquema de segurança. O portão para carros credenciados não difere da entrada de uma base militar. Na entrada para visitantes, todos passam pelas máquinas de raio X, como nos aeroportos, aqui coordenadas pelo Exército. Há mais forças britânicas em Londres para a Olimpíada do que em combate.

Uma jovem soldado conta ter chegado há três meses de Helmand, no perigoso sul do Afeganistão. Além de condecorações, ela tem no uniforme uma coleção de pins dos Jogos; uma febre. Dentro do complexo, há um estande para colecionadores trocarem pins. Faz fila e há quem leve o negócio a sério, trazendo raridades, como um pin dos Jogos Olímpicos de 1896.

Dia no parque. Uma multidão circula todos os dias pelos diferentes prédios do Parque Olímpico, um complexo de 2,5 km² - algo como 400 campos de futebol. Da entrada até o norte do parque, o ônibus que circula por fora leva 12 minutos.

Lá dentro, os visitantes encaram a pé o percurso entre o Estádio Olímpico, o Centro Aquático, a pista de ciclismo, a arena de basquete, o velódromo, o estádio de hóquei sobre grama, a arena de polo aquático, a quadra de handebol e o espaço do pentatlo moderno.

Cada ingresso dá acesso a uma arena. Mas os visitantes aproveitam para passar o dia no local. Fotografam as instalações, visitam a Órbita, escultura de 115 metros de altura de onde se vê todo o parque, ou descansam nos gramados à beira do rio.

Nos dias de sol, o gramado tem ares de praia. Lanchonetes vendem fish & chips, o tradicional prato britânico, além de comida da Índia, Tailândia, Singapura; e lá está o maior McDonald's do mundo.

Músicos distraem os visitantes pelo caminho. Muitos trazem a bandeira de seu país no tecido das roupas, no chapéu, ou pintada no rosto. "Eu nunca me interessei por esporte, mas aqui a gente sente a vibração de uma Olimpíada", diz a enfermeira Lisa Wrage, de Essex, vestida nas cores da Grã-Bretanha.

Policiais à cavalo controlam a saída, liberada de acordo com a capacidade do metrô. Pode levar tempo, mas evita tumulto na plataforma. Do lado de fora, policiais circulam tranquilos, conversam com o público, deixam que brinquem com seus cães farejadores, enquanto voluntários continuam guiando a multidão nos megafones, ainda no espírito olímpico, incansáveis.

Área de imprensa. Algumas áreas do Parque Olímpico são inacessíveis para o público. Entre elas, a Vila Olímpica, onde ficam hospedados os 14.690 atletas e suas equipes; e os Centros de Imprensa e de Broadcasting, onde 20 mil jornalistas transmitem notícias dos Jogos para todo o mundo via rádio, tevê, papel e internet.

Só a NBC, que ocupa dois andares do International Broadcast Center, no mesmo prédio dos estúdios da BBC, tem 2,7 mil pessoas trabalhando na cobertura dos Jogos, de repórteres a técnicos de som. O canal americano tem seu próprio restaurante e um Starbucks particular.

O complexo funciona 24 horas e tem uma academia, salão de beleza e de massagem, banco, correios, lavanderia, banca de jornais, posto médico, dois palcos onde bandas tocam ao vivo no fim da tarde, um pub, cafés e restaurantes só para as equipes de mídia. No buffet são servidas 50 mil refeições por dia.

Ônibus. O Parque Olímpico atrai ainda todo tipo de curiosos, entre eles um grupo de fanáticos por ônibus. Eles colecionam fotografias dos veículos e passam horas nos arredores do complexo para registrar a passagem dos ônibus que transportam os atletas e equipes. Imagens como essas das Olimpíadas de 1908 e 1948 são consideradas raridades e vendidas em leilões.

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