Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Desempenho do Brasil em Londres deflagra racha entre o Governo e COB

País recebeu R$ 100 milhões a mais em comparação a 2008 para preparar os atletas

Adriana Carranca e Jamil Chade - O Estado de S.Paulo,

13 Agosto 2012 | 09h10

LONDRES - O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) recebeu R$ 100 milhões a mais para preparar os atletas olímpicos para os Jogos de Londres, em comparação a Pequim/2008. O aumento dos recursos repassados ao comitê para investimento nos atletas de alto rendimento entre as duas olimpíadas foi de 43,9%. O resultado em medalhas, porém, não teve o mesmo avanço. Em 2012, o Brasil conquistou apenas duas medalhas a mais do que nos Jogos anteriores. O resultado pífio deflagrou uma crise entre o COB e o governo federal.

Além de o número de medalhas em Londres ter aumentado pouco em relação a Pequim, o Brasil chegou a menos finais olímpicas em Londres. Foram 35 este ano contra 41 na China.

O dinheiro para o COB é repassado pelas loterias federais (2% da arrecadação) por meio da lei Agnelo Piva. Foram R$ 331 milhões entre 2009 e 2012, contra R$ 230 milhões entre 2005 e 2008. Estão excluídos desse valor os impostos descontados e o que o COB deve destinar do montante às olimpíadas escolares e universitárias. Também não estão computados aqui os investimentos diretos do governo federal, que argumenta que a metade das medalhas conquistadas nos Jogos de Londres é de atletas exclusivamente apoiados pelo Bolsa Atleta.

Apesar do aumento dos recursos não ter resultado em performance, o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, disse ontem estar satisfeito com a atuação do Brasil. "Dinheiro não compra medalhas", reagiu. O cartola comparou o resultado na Olimpíada com o mercado financeiro. "Se todo mundo que aumentasse os investimentos subisse no quadro de medalhas, não sobrava para ninguém. É como na Bolsa de Valores, se todo mundo ganhar, de onde vai vir o dinheiro? Alguém tem de perder", ironizou Nuzman, que deixou a coletiva antes de ser aberta para perguntas dos jornalistas e só voltou no final do evento.

O Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, rebateu. "É lógico que existe uma relação entre investimento e medalhas. E o governo federal está investindo nisso", disse ao Estado, pouco antes de seguir para a cerimônia de encerramento dos Jogos.

Divergência. Ao apresentar os números de investimentos do COB, a cúpula do comitê fez questão de ressaltar que não havia repasse federal. "Não tivemos nenhum convênio com o Ministério dos Esportes. Zero nos últimos quatro anos. Não pegamos nenhum centavo de incentivo ao esporte. Tivemos R$ 10 milhões do prefeito Eduardo Paes (do Rio)", disse o superintendente de Esportes do COB, Marcus Vinícius Freire. De seu lado, o governo argumenta que os investimentos diretos aos atletas olímpicos tiveram ainda maior efeito do que os investimentos do comitê.

Segundo o Ministério do Esporte, pelo menos dez das 17 medalhas que o País ganhou nos Jogos são de atletas apoiados exclusivamente pelo Bolsa Atleta, o que coloca a estratégia de Nuzman em xeque. O presidente do comitê mencionou, ontem, as vitórias no judô e boxe, além do vôlei feminino e masculino, como resultado positivo dos investimentos do COB. Mas o ministério garante que os quatro medalhistas do judô, os três pódios do boxe, além do bronze de Yane Marques, no pentatlo moderno, e do ouro de Arthur Zanetti na ginástica são de atletas que não recebem apoio do COB. Já o vôlei feminino, ouro, e o vôlei de praia também contam com o apoio do governo federal, com R$ 14 milhões.

A relação entre o COB e o governo está em seu pior momento e o Planalto não esconde que seu objetivo é tirar da entidade o monopólio pela organização do esporte no País. Esvaziar Nuzman e o COB, portanto, é uma das metas de médio prazo do governo. Isso permitiria que se escolha setores para investir a partir de uma política de estado, e não de interesses de federações que votam pelo presidente do COB, na maioria das vezes em troca de benefícios para suas modalidades.

Nuzman aproveitou o balanço do COB ontem para alfinetar o governo. "Descobrir talento, ter talento não adianta, se eles não tiverem onde treinar", disse, lembrando que o Brasil não tem um centro olímpico.

As declarações de Nuzman foram recebidas de forma muito negativa pelo governo, já irritado com seu comportamento nos últimos meses. O Palácio do Planalto já deixou claro que não tem problema em aumentar as verbas para o esporte. Mas exigirá, a partir de agora, resultados, transparência em como são investidas e que os futuros campeões não sejam predeterminados. "Não haverá cheques em branco", disse uma fonte em Brasília.

O governo tem se irritado com o fato de que Nuzman teria escolhido os atletas ou modalidade que receberiam recursos, apostando que esses seriam os que teriam mais chances de medalhas. Modalidades como pentatlo moderno chegaram a ser alvo de polêmica entre o governo e o COB, com a entidade esportiva alegando que investir no esporte seria desperdiçar recursos. Ontem, ganhou o bronze.

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