Fecham-se as cortinas

O Pacaembu será deformado, descaracterizado, na parte arquitetônica e na finalidade

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2017 | 03h00

No dia 30 de agosto, o projeto de privatização do Pacaembu foi aprovado pela segunda vez pela Câmara Municipal de São Paulo. Tinha sido informado, e certamente entendi mal, que o estádio e seu conjunto esportivo tinham sido tombados, não podendo ser outra coisa senão continuar destinados à prática de esportes. Entendi mal porque o projeto aprovado contempla a possibilidade de receitas provenientes de “eventos culturais ou de entretenimento”.

Poucas palavras são tão vagas como “cultura”, expressão que, a rigor, designa simplesmente todas as realizações humanas. Por sua vez, qualquer dicionário de língua portuguesa, até mesmo o Google, enfileira pelo menos trinta significados para “entretenimento’’. Com toda a certeza “esporte”, que era a finalidade essencial do complexo do Pacaembu, pode se equilibrar, oscilante e hesitante, entre “cultura” e “entretenimento”. 

Bem escondido é claro, completamente fora de foco, pois qual empresa pensaria em obter lucro na gestão do que, no limite, seria um clube esportivo? Está aí a Portuguesa com amplo terreno, belo estádio, ginásio de esportes, piscinas, e ninguém parece muito interessado. Para não falar do Clube de Regatas Tietê, que, ao falir, caiu em abandono completo.

O que difere o Pacaembu para os possíveis interessados é sua marca. Diria quase sua mística, sua lenda. Não por outra razão o projeto aprovado pela Câmara permite explorar o direito de nome (“naming rights ”) no estádio, desde que “em acréscimo ao nome original”. Seria então algo como: “Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho – Bahamas Trust Fund and Fun”.

Já escrevi nesta coluna o que penso do Pacaembu, como propriedade simbólica da cidade, mais monumento do que estádio, motivo de autoestima e orgulho de todos que gostam de futebol, e não vou me repetir. Quero dizer apenas que, com todas as salvaguardas, todas as restrições, toda a demonstração de cuidado e seriedade aparentes, o Pacaembu será, pelo menos essa é minha impressão, completamente descaracterizado, deformado, destruído, seja na parte arquitetônica, seja na sua finalidade.

Será tudo feito como de hábito. Não de uma vez, mas pouco a pouco, sem que ninguém se dê conta. Uma coisa proibida agora, outra daqui a algum tempo, depois outra e outra, e finalmente nada mais restará do Pacaembu a não ser um monstrengo destinado a fazer dinheiro para os concessionários.

Queria aproveitar para acrescentar que os responsáveis pelo que vai acontecer no ex “próprio da municipalidade”, como diziam os antigos locutores, além da Câmara Municipal de São Paulo, são o Sport Club Corinthians Paulista e os políticos que se aproveitaram do clube para uma manobra de política rasteira, ao construir um estádio sem nenhuma necessidade, a não ser eleitoral. 

Toda a cidade, todos os torcedores de todos os clubes sabiam que Pacaembu era sinônimo de Corinthians. Foi lá que o clube ganhou TODOS os grandes títulos que possui. Lá sua torcida se sentia plenamente em casa. A mudança não foi boa para a clube nem para os torcedores. O Corinthians ganhou uma dívida que não tinha e perdeu um estádio onde tinha construído sua glória. E também a Zona Leste não ganhou nada. Todos sabemos o que realmente faz uma região progredir.

Uma última informação de arrepiar os cabelos sobre o Pacaembu: já foram apresentados projetos para análise dos órgãos de proteção do patrimônio e o mais bem avaliado, segundo noticiado, teria sido o de dois escritórios já de inesquecíveis serviços prestados ao futebol brasileiro como a reforma do Maracanã ! Como dizia um locutor que amava o futebol: “No Pacaembu, fecham-se as cortinas e termina o espetáculo”. 

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