Firmeza de Firmino

A esta altura, amigo leitor, talvez você já não aguente mais ouvir algumas coisas a respeito da seleção. Exemplos? Claro, aí vão: que tem oito vitórias consecutivas, que o início da segunda aventura de Dunga como técnico nacional é a melhor desde João Saldanha ou do frei Sardinha, que está em curso o resgaste do orgulho pátrio, que desponta uma geração ganhadora. Enfim, a turma de sempre entrou em ação para inflar egos e números.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

30 Março 2015 | 02h02

Não vou, portanto, importuná-lo com estatísticas tampouco com ufanismo. Mas, se houve algo interessante no 1 a 0 sobre o Chile, no estádio do Arsenal, palco preferido da CBF para o Brasil, se concentrou em Roberto Firmino. A aposta de Dunga como novidade no ataque soube aproveitar oportunidades, agarrou-as com afinco e eficiência, deixou a marca com o bonito gol e cavou lugar no grupo que disputará a Copa América. Salvo recuo de última hora do treinador.

Firmino mostra desenvoltura de quem não se inibiu com o peso da amarelinha. Como só tem a ganhar com as chances, considera lucro tudo o que vier. Tal postura lhe fez bem, ao menos até agora. Não duvido nada que a exposição também funcione como alavanca para saltos maiores na carreira. Não surpreenderá se, no meio do ano, der adeus ao Hoffenheim, coadjuvante na Alemanha, para tentar a sorte em clubes de expressão. Seleção é uma bênção - e nem só para o próprio atleta.

Só não se deve cair no conto de alguns empolgados de carteirinha. A jogada do gol decisivo, a arrancada, o domínio de bola e o drible no goleiro Bravo foram impecáveis. Daí a dizer que lembrou Ronaldo ou Ronaldinho é forçar a barra na cara de pau. Calma, gente, essas comparações só complicam, ao criar expectativa superior ao que o cristão pode de fato apresentar. O Firmino esbanjou firmeza, mas tem caminho longo a percorrer se quiser inscrever-se na galeria dos astros patrícios.

A seleção atual, idem. A sequência de resultados positivos devolve a competitividade abalada com a reta final do Mundial de 2014. É fato, que servirá para reforçar a autoestima na Copa América. Não está em curso, todavia, uma revolução na maneira de jogar. Não é o estilo de Dunga, que se caracterizou pelo empenho, seriedade e previsibilidade. Sensato esperar equilíbrio entre os setores, força na marcação, rapidez em contragolpes; enfim, um conjunto certinho, capaz de ganhar um jogo por "uma bola", como ontem.

Não se imagine seleção de vanguarda, recheada de foras de série. Os reservas que entraram em campo só delinearam melhor a imagem de time comum. Não é o mesmo que medíocre e é o que temos no momento. Melhor não criar falsas ilusões; fará bem para todos.

Rotina modorrenta. São Paulo e Corinthians venceram, mas fizeram jogos de lascar, chatos pra mais de metro. Vá lá que tinham a desculpa de estarem de olho na Libertadores. Só não precisavam exagerar na rame-rame.

O Corinthians, principalmente. No meio da semana, participou de espetáculo divertido nos 5 a 3 sobre o Penapolense. Já na visita ao Bragantino, se contentou com um raquítico 1 a 0, arrastado e sem graça. Valeu por um aspecto: Vagner Love, sem trancinhas e com cabeça raspada, enfim desencantou e marcou.

O São Paulo recheado de reservas passou em branco o primeiro tempo do jogo com o Linense, no Morumbi, com protesto de parte da torcida. Saiu da mesmice na segunda parte, com os três gols. Realço o primeiro, de Rogério Ceni, em cobrança de falta, para tirar a zica do gol de placa que na quarta-feira levou do Palmeiras. O teste dos nervos virá na partida com o San Lorenzo.

Hora da saudade. Quem ama futebol, independentemente do time para o qual torce, se emocionou na noite de sábado. Na festa de despedida de Alex, no novo Palestra, em determinado momento estavam em campo, além do homenageado, Ademir da Guia, Evair, Edmundo, Djalminha. Precisa dizer algo mais?

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