Lucy Nicholson/Reuters
Lucy Nicholson/Reuters

Jessica Ennis: a nova musa britânica do atletismo

Descendente de jamaicanos, atleta é a face do multiculturalismo imaginado para os Jogos

Adriana Carranca, Enviada Especial / Londres, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2012 | 03h09

As mulheres roubaram a cena nessa Olimpíada. Pela primeira vez, estiveram em todos os esportes e representado os 205 países. Nunca as atletas britânicas foram tão bem-sucedidas nas competições como em casa. Mas entre elas um rosto se destaca em pôsteres gigantes espalhados pela cidade, dando as boas vindas aos visitantes no Aeroporto Internacional de Heathrow, de passagem nos ônibus, estampada na primeira página dos jornais e revistas. Medalha de ouro em uma modalidade não tão glamourosa, o heptatlo, a britânica Jessica Ennis se tornou musa nacional. Filha de um imigrante jamaicano, ela é a face do multiculturalismo que o comitê olímpico queria dar aos Jogos.

Sua vitória, ao lado de atletas como o corredor Mo Farah, que se refugiou dos conflitos na Somália aos 8 anos e é naturalizado britânico, reascendeu a discussão sobre o endurecimento das leis de imigração pelos conservadores no poder.

Em entrevista ao Estado, Jessica diz que ainda não se acostumou com os holofotes, mas sente orgulho de representar a diversidade do país onde nasceu. "Esse é o meu país, sou 100% britânica. Meu pai nasceu na Jamaica, veio para cá aos 13 anos e é tão britânico quanto eu, porque somos essa mistura de gente de todas as partes do mundo."

Nascida em Sheffield, uma cidade industrial no centro da Inglaterra, ela ingressou no esporte na escola pública. O pai trabalha como pintor e a mãe é servidora. Aos 26 anos, vice-campeã mundial, ela é estreante em olimpíadas - uma lesão a deixou fora de Pequim. Em Londres, levou o ouro e bateu o próprio recorde nos 100m com barreiras, a primeira das sete provas do atletismo que compõem o heptatlo. Os atletas que competem nessa modalidade são considerados os mais completos.

Na última prova, os 800 metros, Jessica ultrapassou duas concorrentes na reta final, diante da plateia de 80 mil pessoas, e ajudou a Grã-Bretanha a ter seu "super sábado", quando ganhou o maior número de medalhas da história em um só dia.

A garra para chegar em primeiro lugar, mesmo já tendo o ouro garantido pelo bom desempenho nas provas anteriores, foi destacada como um dos momentos mais inspiradores da Olimpíada de Londres. O Guardian a chamou de "heroína britânica"; no Independent ganhou o título de "rainha, não somente do heptatlo mas do esporte britânico".

Ainda tímida diante da exposição, a jovem não se deixa levar e continua focada no esporte. Mesmo com os 6,995 pontos que lhe deram o ouro, ela quer mais: atingir 7.000 pontos e igualar-se às melhores da história do heptatlo, Carolina Kluft e Jackie Joyner-Kersee. Talvez no Rio em 2016. "Ainda não fiz planos, mas treinei a vida inteira e é isso o que quero continuar fazendo, treinar e treinar. Chegar ao Rio será consequência", diz. "Tem sido incrível a atenção da mídia e do público. Muito mais gente sabe quem eu sou agora. Isso me deixa muito feliz, mas é também uma pressão grande."

Esperança no Campeonato Mundial em Daegu, na Coreia do Sul, ano passado, Jessica ficou com a prata. "É uma boa marca, mas quando há uma grande esperança em você, é também uma derrota. Eu sabia que em Londres não ficaria feliz com nada menos do que o ouro", admite. Jessica diz que a torcida britânica, que lotou o Estádio Olímpico, ajudou na conquista. "A gente sente a vibração da torcida e isso dá uma força muito grande na competição."

Sua trajetória como atleta serve de modelo para crianças menos privilegiadas. Jessica faz parte de uma geração beneficiada por investimentos no esporte de base com dinheiro arrecadado de loterias, política que transformou a Grã-Bretanha em potência olímpica. "Quando se é jovem, sem patrocínio, esse investimento é o que permite aos atletas manter foco em treinar e competir", acredita. Agora como musa, ela diz achar ainda "surreal" ver pôsteres seus espalhados por Londres. "Não me acostumo! Sou uma pessoa comum", revela, rodeada de fotógrafos em evento da patrocinadora Omega. "Como muffin sem me preocupar com a dieta."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.