Matt Rourke/AP
Matt Rourke/AP

Jogos Olímpicos esvaziam Londres, que recebeu só um terço dos turistas

Moradores locais, por sua vez, respeitaram o pedido da prefeitura de ficar longe do centro

Adriana Carranca, Enviada Especial / Londres, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2012 | 03h08

LONDRES - O garçom reclama das mesas sem clientes, o taxista diz que há dias não faz uma corrida até o aeroporto, o vendedor de ingressos para teatro está sentado e de braços cruzados; o dono da loja de souvenirs gira no dedo o chaveirinho do Big Ben, entediado; os ônibus de turismo trafegam vazios. O que era uma percepção de quem trabalha no centro de Londres confirmou-se em números, ontem. A cidade recebeu apenas um terço dos turistas esperados para essa época do ano.

Os Jogos Olímpicos atraíram cerca de 100 mil visitantes estrangeiros, número comemorado pela organização. A má noticia é que também espantaram outras tantas centenas de milhares. Tradicionalmente entre julho e agosto, meses das férias de verão na Europa, a cidade recebe 300 mil turistas de outros países, em média.

Vários fatores explicam a debandada, todos ironicamente relacionados à Olimpíada. A paranoia com a segurança nos dias dos Jogos, a esperada superlotação da cidade e o caos no transporte público - temores até agora não concretizados - lideram a lista de motivos que podem ter mantido o turista comum longe da capital inglesa.

Os preços altos são outra razão. Dois meses antes dos Jogos, os hotéis da cidade chegaram a ter diárias três vezes mais caras do que o valor normal para o período. Passados os primeiros dias do evento, sem a ocupação desejada, há ofertas de até metade do preço original nos hotéis do centro.

A Association of Leading Visitor Attractions, que reúne locais como a catedral, o zoológico e algumas das principais galerias de arte da cidade, divulgou queda de 35% no movimento em relação ao ano passado. O British Museum, o mais visitado de Londres, tem recebido entre 25% e 30% menos gente. Visitas à Torre de Londres, umas das principais atrações turísticas da cidade, caíram 56%; o público nos teatros, 30%. Ingressos para as peças mais procuradas eram oferecidos pela metade do preço ontem na Leicester Square.

Não chega a ser uma cidade fantasma, um exagero propagado por comerciantes locais. Mas o centro de Londres tem estado relativamente vazio, com turistas apenas de passagem para outras regiões da cidade onde ocorrem os Jogos, como o Parque Olímpico. "Estamos aqui de braços cruzados", disse ao Estado o comerciante David Tilyiod, que há 20 anos vende souvenirs em uma barraquinha na Leicester Square. Os números oficiais falam em 10% de queda no movimento das lojas, mas Tilyiod garante que suas vendas caíram pela metade. "Nunca vi uma crise assim. Olhe ao meu redor, está vazio! Você viu as filas para o teatro? Pois é, não há!"

Com pelo menos 1 milhão de turistas vindo passar o dia na cidade, durante os Jogos, nas estimativas da Prefeitura, além dos que estão hospedados em Londres, os comerciantes esperavam aumentar as vendas. "A previsão era vender 20% mais", afirma Phil Dowsing, gerente de marketing de dez lojas de roupas e acessórios na capital. Em vez disso, as vendas caíram 10%. Mas Dowsing não perde o otimismo: "Acho que os turistas ainda virão às compras antes de voltar para casa. Já recebi alguns atletas por aqui."

Tilyiod, no entanto, reclama das "informações contraditórias" dadas aos turistas. "Ao mesmo tempo em que diziam 'visite a cidade para os Jogos', alertavam para que evitassem o centro. Foi o que aconteceu", diz. "Os ingleses, que costumam vir à capital nessa época, fugiram para outros destinos, espantados pelas ameaças de caos."

O presidente da Embratur, Flávio Dino, disse ao Estado que ainda não existe uma estratégia montada para que o mesmo não se repita no Rio em 2016. "Mas, seguramente, pela característica dos brasileiros, o Rio terá envolvimento mais caloroso da sociedade local", aposta.

Os mais de 800 mil turistas britânicos que visitam a capital no verão todos os anos também evitaram Londres como destino - apenas 400 mil, metade deles, vieram para a Olimpíada. Os dados são da Associação de Operadores de Turismo da Europa. Outro setor importante, o turismo de negócios, teve praticamente todo o movimento cancelado, com viagens adiadas para depois dos Jogos.

"Há duas semanas não vou buscar alguém no aeroporto", diz o taxista John Robert. Embora seu ponto seja na estação de Stratford, junto ao Parque Olímpico, diz que tem trabalhado 4 horas a mais por dia para receber o que normalmente ganha, porque os taxistas do centro, sem clientes, invadiram a região.

"Os londrinos fugiram da cidade", diz Steve McNamara, secretário-geral da Associação de Motoristas de Táxis. Muitas empresas locais deram folga aos londrinos ou permitiram que trabalhassem de casa durante os horários de provas.

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