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Mudanças no clima afetam o esporte pelo mundo

Aumento global da temperatura prejudica tanto países frios quanto quentes

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Jamil Chade, enviado especial a Chamonix, França

03 Janeiro 2016 | 07h00

Diplomatas e negociadores mergulharam fundo em dezembro para fechar, em Paris, um acordo sobre como lidar com as mudanças climáticas. Mas o mundo dos esportes já vive a realidade de profundas transformações na natureza, e o impacto nos próximos anos será profundo mesmo que o aumento global da temperatura fique dentro do previsto pelo tratado.

Tanto as competições de inverno como as realizadas em alguns dos locais mais quentes do planeta estão sendo obrigadas a se adaptar aos novos tempos.

Nos Alpes, berço da Olimpíada de Inverno, o impacto é cada vez maior a cada inverno. Em 100 anos a região perdeu metade de sua cobertura de gelo e neve. Desde 1980, essa queda se acelerou, com um quinto da redução da neve. Já há 19 mil canhões para produzir neve, e ainda assim cresce o número de competições canceladas, modificadas ou adiadas por falta de condições ideais.

No total, 80 milhões de turistas desembarcam anualmente nos Alpes para a temporada de esqui. Na Áustria, 100 mil pessoas dependem dessa indústria para garantir suas rendas. A produção de neve artificial aumentou de 10% da área de esqui em 2000 para 36% m 2010. E estudos apontam que uma de cada cinco pistas de esqui desapareceriam do mapa se não fosse pelos canhões de neve.

"Estamos vendo o desaparecimento da neve e, em muitos locais, já não podemos praticar o esporte", declarou ao Estado o esquiador francês William Cochet.

Em Chamonix, sede dos primeiros Jogos Olímpicos de Inverno, em 1924, estudos revelam que o aquecimento é muito mais acelerado que no restante do mundo. Se o século XX viu uma elevação média de temperatura no planeta de 0,5°C, na antiga vila olímpica da França o índice foi três vezes maior.

O Estado visitou Chamonix no início de dezembro, e nos restaurantes a dificuldade era encontrar uma mesa. "Estão todos aqui, porque na montanha a neve que deveria estar presente ainda não é ideal", disse o gerente de um bar. Nos próximos 25 anos essa tendência deve ganhar força. Segundo um estudo feito pela Educ Alpes, a associação de instrutores de esqui, a temporada para praticar o esporte na França vai ser reduzida em um mês até 2040.

Na Suécia, a região de Dalarna viu o fechamento de sete de suas 30 estações de esqui desde 2008. Motivo: elas não tinham como pagar pelos canhões de neve. Na estação de esqui de Whistler, no oeste do Canadá, os gestores das pistas começaram a usar simuladores computadorizados de aquecimento global para definir onde colocariam os próximos teleféricos.

Mas apenas produzir neve não é a solução, muito menos quando se calcula o impacto ambiental. Por inverno, a produção de neve para as pistas austríacas consome água equivalente ao abastecimento anual da cidade de Viena, com 1,7 milhão de habitantes.

ALERTA

A crise não passa em branco para os atletas. Em 2014, em Sochi, 105 atletas emitiram uma declaração alertando para o risco que o esporte atravessa com as mudanças climáticas. "As condições de neve estão se tornando cada vez mais inconsistentes, e o que era apenas um debate é hoje uma realidade”, disse Andrew Newell, membro do time dos Estados Unidos de cross-country. “Nosso clima está mudando e estamos perdendo nosso inverno."

No Alasca, a tradicional corrida com trenós puxados por cachorros, a Iditarod, foi obrigada a começar mais de 300 quilômetros ao norte do ponto de partida habitual por causada falta de neve. Na cidade de Anchorage, capital do Alasca, o volume é hoje apenas um terço da média histórica.

No Canadá, a versão do futebol de rua brasileiro é o hóquei sobre gelo em lagos congelados pelo país. Mas praticar esse esporte é cada vez mais perigoso, diante de camadas cada vez mais finas de gelo nos lagos. Em muitas áreas do Canadá a temporada de hóquei ao ar livre foi reduzida em 20% nos últimos dez anos. E as previsões são ainda piores: até 2090, o gelo existente nos lagos permitirá que o esporte seja praticado em apenas 28 dias por ano. Hoje, são 58 dias.

O problema da diminuição da quantidade de neve vem de longe. Em 1964, soldados do Exército austríaco entraram para a história dos Jogos Olímpicos. Em pleno inverno alpino, eles foram convocados a levar em mochilas a neve para as pistas de esqui de Innsbruck. Oito anos depois, uma das pistas em Sapporo, Japão, teve de ser congelada de forma artificial para garantir as competições. Hoje, metade das provas de algumas modalidades é disputada em pistas com neve artificial.

CALOR

O impacto provocado pelo aquecimento global não se verifica apenas nos esportes que dependem de neve. Na Maratona de Los Angeles do ano passado, 30 corredores tiveram de ser hospitalizados por causa das elevadas temperaturas. Em 2012, a Maratona de Nova York foi adiada por conta da tempestade Sandy, um fenômeno gerado pelas mudanças climáticas.

Em sua edição de 2015, o Aberto da Austrália foi obrigado a mudar suas regras e estipular um limite de temperatura para os jogos de tênis. Em 2014 tenistas vomitaram e desmaiaram por jogarem sob calor de mais de 40 graus. E um deles, Frank Dancevic, teve alucinações e disse ter visto na quadra Snoopy, o cachorro dos desenhos animados. Durante o torneio, mais de mil torcedores foram atendidos pelo serviços médicos do local.

Em comparação ao público de 2013, o evento de 2014 teve uma queda de público de 7%. 

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