Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Num armazém de Genebra, Nuzman guarda o ouro brasileiro

Presidente do COB e Sergio Cabral têm barras com os mesmos prestadores de serviço. Suíça diz que vai cooperar para confiscar bens

Jamil Chade/Genebra, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 16h23

Num bairro afastado de Genebra, um armazém de proporções impressionantes guarda alguns dos maiores segredos da Europa: pinturas de alto valor, peças arqueológicas e joias. Mas também ouro brasileiro. Trata-se do Ports Francs de Geneve, uma espécie de entreposto comercial e cofre-forte num dos locais mais seguros do mundo.

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O Estado confirmou que Carlos Arthur Nuzman é, de fato, "cliente" do Ports Francs, especializado em guardar itens de alto valor. Ali, segundo a polícia, Nuzman guarda 16 barras de ouro. Investigadores suíços já deram um parecer favorável à cooperação com o Brasil e que o congelamento dos ativos, a transmissão dos dados ao País e eventual repatriação do ouro poderão ocorrer.

Mas antes que o Ministério Público da Suíça pudesse tomar uma iniciativa, funcionários de alto escalão do cofre-forte em Genebra confirmaram por telefone ao Estado que, de fato, Nuzman era seu cliente. O local não sabia da prisão do brasileiro e insistiu, num primeiro momento, que o tema fosse tratado na segunda-feira, quando a pessoa encarregada dos temas de Nuzman estaria no escritório. O aluguel do cofre, segundo a funcionária, foi alvo de um contato por parte de representantes de Nuzman "há poucos dias".

Foi apenas quando ela entendeu que Nuzman havia sido preso no Brasil que a pessoa que falava ao telefone passou a ligação para um dos diretores. Ele, por sua vez, indicou que não havia qualquer tipo de ação policial até aquele momento, cerca de 15h30 de quinta-feira e que, portanto, se alguém viesse com uma procuração de Nuzman, poderia levar o que estava dentro do cofre.

Mas admitiu que, se uma ordem policial chegasse, eles teriam de cumpri-la. "Por enquanto, não recebemos nada da polícia", confirmou. A reportagem então se dirigiu ao local, um prédio imponente nas proximidades do estádio de Genebra e da linha de trem. Conhecido por suas polêmicas ao longo dos anos por abrigar peças roubadas e até mesmo artigos arqueológicos de grande valor, o local não passou ao Estado quanto custaria para alugar um cofre. Mas deu o e-mail de uma pessoa para entrar em contato: o nome era o mesmo que aparece entre os cartões de visita descobertos na casa de Nuzman, no Rio de Janeiro.

Enquanto a reportagem do Estado consultava documentos que apresentavam o local, a chefia e funcionários do cofre-forte discutiam de forma nervosa como tinham recebido um telefonema de alguém buscando informações sobre Nuzman e como, sem saber que se tratava de um jornalista, passaram os dados. "Não fizemos o nosso trabalho", dizia, irritado, um dos responsáveis, sem saber que a discussão ocorria diante do mesmo repórter que havia feito a ligação.

Para se justificar, um dos funcionários indicou a outro durante a discussão interna que achava que a reportagem teria dito que era um advogado de Nuzman ao solicitar os dados. A reportagem jamais fez alusão a isso e deu seu nome real aos funcionários, indicando que queria falar sobre o caso do presidente do COB. Mas a ordem da chefia naquele momento era a de não passar qualquer informação a nenhum jornalista que entrasse em contato. O Estado entrou em contato com procuradores para relatar o ocorrido.

Tradicionalmente, guardar ouro ou diamantes em Genebra tem certas vantagens. Nos serviços de aluguel de cofre visitados, nenhum deles exige saber a procedência do ouro. Já nos bancos, qualquer movimentação por brasileiros tem sido suscetível de um exame por parte de gerentes, cada vez mais pressionados a saber a origem do dinheiro.

Nuzman, porém, não é o único ator dos Jogos Olímpicos do Rio com ouro em Genebra, cidade que fica 60 quilômetros da sede do COI e onde os brasileiros realizaram inúmeras visitas ao longo da preparação da cidade carioca. Há seis meses, o Estado revelou que o ex-governador Sergio Cabral mantém barras do metal e pedras preciosas em pelo menos dois locais da cidade suíça. No total, eles envolveriam US$ 3,5 milhões (R$ 10,8 milhões).  Mas um dos locais usados é da mesma rede de serviços que Nuzman utilizou. No caso do ex-governador, a opção foi por manter seus ativos em um entreposto nas proximidades do aeroporto.

COOPERAÇÃO

Segundo o Estado apurou, a Suíça vai cooperar com o Ministério Público para identificar, congelar e, eventualmente, devolver os recursos de Carlos Arthur Nuzman aos cofres dos bancos do País. O Departamento de Justiça e Polícia da Suíça recebeu um pedido de cooperação no dia 28 de setembro, referente aos ativos do dirigente brasileiro.

"Depois de um exame sumário, delegamos o pedido ao Escritório do Procurador Geral da Suíça para que seja executado", disse o Departamento de Justiça. Entre os pedidos do Brasil está o confisco de contas bancárias e de barras de ouro, em Genebra e Lausanne. Mas o que os procuradores brasileiros ainda pedem é que os investigadores suíços identifiquem todas as contas em nome de Nuzman, assim como aqueles em que ele poderia ser beneficiário.

Nesta quinta-feira, o Departamento de Justiça repassou o pedido de cooperação do Brasil ao Ministério Público Federal, em Berna, para que ele seja "executado".  A decisão foi tomada depois que uma análise preliminar determinou a existência de fato dos ativos e comprovou que as suspeitas estão baseadas em indícios concretos. / COLABOROU CONSTANÇA REZENDE

 

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