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O ônibus pode ter Brazil. Em campo, precisa ser Brasil

Antero Greco

A Fifa não tem grande popularidade por aqui. A antipatia deve-se, em boa parte, às exigências para a realização da Copa, aos parceiros locais que arrumou - não se associa a RT, Marin e seguidores sem pagar um preço - e também à cisma nossa. O brasileiro é festeiro e do contra ao mesmo tempo. Dependendo da direção para qual sopra o vento pode mostrar-se receptivo ou birrento. Agora, em 2014, prevalece a segunda alternativa.

Não morro de amores pelos donos da bola e depuro 90% do que dizem nos discursos oficiais. Sabe como é? Aquela coisa de todos contra o racismo, viva o fair-play, a transparência, as obras de incentivo do futebol pelo mundo, as ações sociais e outras iniciativas que são bonitas no papel.

Mas, em alguns momentos, há exageros. O mais recente se prende à inscrição no ônibus oficial que a delegação brasileira usará nas andanças pelo país. Como no veículo aparece "Brazil", com Z mesmo, foi um bafafá nas redes sociais. Não faltou gente indignada com a distorção na grafia da pátria amada. Uma blasfêmia, para alguns: um crime contra a honra e a língua nacionais, para muitos. Um acinte, nova demonstração de petulância de Joseph Blatter e assessores. Uma afronta contra um símbolo auriverde.

Vamos com calma, pessoal. Estou com vocês, ao ver gringo desembarcar posudo e cheio de dedos, por causa dos riscos de violência, assaltos, trânsito ruim, dengue, sarampo, caxumba, água no joelho, febre amarela, macaquinhos na janela do quarto, cobras e jacarés no meio da rua, índios querendo apito ou espelhinho, samba e uma boazuda pelada em cada esquina. Enfim, esses estereótipos bestas.

Não é o caso da inscrição no busão. O inglês é uma das línguas da Fifa - na verdade, a que prevalece na maioria das atividades dela. E o idioma de Shakespeare, Paul McCartney e Rooney virou ponto de união na comunicação universal. Assim como um dia, bem antigamente, foi o latim. Daí, a identificação dos concorrentes dessa maneira anglófila. Para você ter uma ideia, no ônibus da Alemanha, em 2006, na Copa na casa dela, não aparecia Deutschland, mas, sim, Germany. E olha que alemão é bravo com esse troço de nacionalismo. Já arrumaram encrenca brava no século 20. Vê se se importaram?

Então, deixemos pra lá essa bobeira. Que nos chamem de "Brazil", tanto faz. Interessa é que joguemos como "Brasil"; aí, sim, assustaremos os convidados que vêm chegando e já se encantam com a receptividade de nossos patrícios. Ginga, ousadia, atrevimento, dribles são ingredientes do DNA do futebol brasileiro e que valeram cinco títulos. Se prevalecerem de novo, grafem o nome oficial como lhes aprouver e a taça ficará por aqui.

Por falar em Fifa, chata a história do depósito de R$ 100 milhões do ex da CBF em conta secreta em Mônaco. De onde terá saído essa dinheirama? Ela teria relação com negócios a envolver Copa, seleção etc.? Isso é grave, seja em que idioma for.