Fábio Motta/AE
Fábio Motta/AE

'Qualidade de vida no Rio vai dar um salto', diz Eduardo Paes

Prefeito aposta nos investimentos até os Jogos Olímpicos de 2016 para cidade ser a melhor do Hemisfério Sul

Entrevista com

Alfredo Junqueira e Fernando Paulino Neto,

09 Outubro 2009 | 11h11

Para realizar seu sonho de ver o Rio como a cidade com melhor qualidade de vida do Hemisfério Sul em 2017, o prefeito Eduardo Paes conta com os investimentos para os Jogos Olímpicos de 2016. Como forma de viabilizar os recursos privados necessários para as obras, pretende flexibilizar a legislação urbana, permitindo construções acima do gabarito atual e em áreas protegidas pelo patrimônio histórico.

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Vai também dar benefícios fiscais aos hotéis que queiram empreender na cidade. Eleito prefeito com um terço das doações do setor da construção civil, refuta qualquer compromisso eleitoral nesta escolha: "Ninguém tem um ‘ai’ para falar de mim em 17 anos de vida pública", diz. Paes rasga elogios para seu ex-desafeto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e relativiza um possível estouro do orçamento dos Jogos Olímpicos. Diz que tem fará uma linha de BRT (corredor para ônibus articulado) que não está no projeto olímpico. "Vai custar R$ 400 milhões. Se quiser colocar, o orçamento agora é de R$ 30,4 bilhões".

 

Como o senhor imagina que vai ser o Rio de 2017?

A cidade com a melhor qualidade de vida do hemisfério sul. Acho que isso definiria bem como eu gostaria de ver o Rio em 2017. O grande desafio é como a gente potencializa essas condições que já foram colocadas para a cidade e faz com que, de fato, isso vire uma realidade. Se as coisas caminhassem bem para o Rio, seria um processo mais longo. Ao invés de 2017, teríamos que olhar para 2021 ou 2025. Com as diversas coisas que aconteceram, e a Olimpíada foi um pouco o ápice dessa história, eu acho que dá para reduzir esses prazos. Basta dar uma olhada no calendário do Rio. Em 2011, tem os jogos mundiais militares. Em 2013, a Copa das Confederações, na qual o Rio terá naturalmente um protagonismo. Em 2014, a Copa - mais um grande protagonismo para o Rio. E em 2016, finalmente, a Olimpíada. Usar bem essas oportunidades é o meu grande desafio. As pessoas ficam muito preocupadas com o evento. Eu acho que o momento mais crítico é esse agora. São os primeiros seis meses.

 

 AS FRASES
Eduardo Paes

Prefeito do Rio

"Até 2016, vamos dar isenção de IPTU e ISS para novos hotéis"

"Tenho um monte de defeitos, mas ninguém pode dizer um ai de mim"

Por quê?

Porque agora é que as decisões são tomadas. Se você seguir o caminho errado, dificilmente você volta atrás depois. É por isso que eu vou, já na próxima semana, visitar Londres, Atenas e Barcelona. Barcelona é o ápice do bem-sucedido, como turning point de uma cidade. Atenas é uma coisa que fez bem... cumpriu o dever de casa. Se a gente fizer direitinho, a gente termina como Atenas. Se a gente fizer muito bem, termina como Barcelona nessa história. E Londres é uma experiência que está rolando agora, que está acontecendo. Eles já passaram por dificuldades, ajustes, reorganizações. Coisas que acontecem sempre, não tenho dúvidas disso.

 

O metrô vai ser levado até a Barra?

Essa não é uma atribuição da prefeitura, mas eu acho que é muito bom que o metrô chegue até à Barra. O que a prefeitura podia fazer, eu já fiz logo no início do meu governo. Foi aprovar um projeto de lei dando capacidade construtiva a um sem fim de terrenos do metrô. Isso pode dar à cidade um fundo de R$ 1 bilhão, o que ajuda muito. O governador me garante que pode levar o metrô até à Barra. E é também uma decisão para ser tomada logo. Porque se não for o metrô, a gente vai precisar fazer o BRT, que é o compromisso olímpico. Isso exige decisões imediatas.

 

É o BRT ou o metrô?

A proposta olímpica é o BRT. Mas durante o bid olímpico surgiu a possibilidade de ter o metrô. A prioridade é o metrô. É um sistema muito mais sofisticado, mas muito mais caro também. Mas um exclui o outro. Acho que é uma desnecessidade fazer as duas. É jogar dinheiro fora. Seria bom ter os dois, mas um exclui o outro, nesse caso.

 

O senhor já falou que pretende universalizar o ensino de inglês nas escolas da cidade. Existe algum projeto para desenvolver a prática de esportes olímpicos na rede municipal?

Na segunda-feira, eu vou lançar um programa chamado 'Rio em Forma'. É um programa voltado para a molecada, sempre com a participação de professores de educação física. Mas, naturalmente, você tem uma demanda da molecada por futebol. A gente tem que criar nas vilas olímpicas da prefeitura ilhas de excelência para algumas dessas atividades olímpicas. Agora, a prefeitura não tem a pretensão de trabalhar o alto rendimento. Essa é uma tarefa do governo federal.

 

Já existe algum projeto concreto para resolver a questão de carência de hotéis na cidade?

A gente tem um pacote. A minha ideia é enviar nos próximos 30 dias um conjunto de projetos de lei para a Câmara dos Vereadores que nós vamos tratar desse e de outros temas. Através de operações urbanas, a gente pode financiar muitos desses investimentos. Vamos flexibilizar alguns aspectos da legislação hoteleira, sem correr o risco de se caminhar para o apart hotel, que é uma coisa que se tentou fazer aqui e que não foi bem - eu fui um dos que foram contra. Nós temos já um conjunto de projetos de lei no forno.

 

Que tipo de flexibilização? Desconto tributário, por exemplo?

Desconto tributário. Sim. Até 2016, a gente vai dar isenção de IPTU e ISS para hotéis que surjam na cidade do Rio. Essa é uma decisão que eu já tomei. Nós vamos permitir o que a gente chama de venda numerada das unidades dos hotéis. E há uma diferença entre isso e os apart hotéis. Não significa que a pessoa tem morar lá. O quarto vai continuar no pool para as Olimpíadas, mas vai poder funcionar como investimento. Vamos flexibilizar bastante e tirar os empecilhos que existem atualmente para construir hotéis.

 

O diretor-executivo de Olimpíadas do COI, Gilbet Felli, anunciou que pretende manter contato direto com o governo federal, para evitar atrasos nos cronogramas. Isso incomoda?

Não. Pelo contrário. Esse diálogo tem que ser permanente a partir de agora. Essa interação tem que ser constante e permanente. Vamos ter no COI um interlocutor privilegiado. Não tem como ser diferente. As decisões têm passar por eles.

 

Na sua avaliação, qual será o efeito da conquista do direito de fazer os Jogos Olímpicos de 2016 para as eleições do ano que vem no Rio?

Talvez a Olimpíada simbolize bem um estilo que marcou a administração do Cabral. Foi uma mudança de paradigma na atitude do governador do estado em relação às coisas do estado. O Sérgio construiu desde o início essa relação com o Lula, que acabou virando uma relação pessoal. Ele também fez esse diálogo para baixo, com o prefeitos. Inclusive, com o meu antecessor. Não tenho dúvida que a Olimpíada materializa uma percepção, um sentimento que as pessoas tinham (sobre o bom relacionamento entre os três níveis de poder). Acho que o Sérgio tem muito a ganhar com isso.

 

E no Brasil?

No caso da Dilma, foi uma demonstração clara de força do Lula e de uma estratégia geopolítica perfeitamente adequada que ele pautou ao longo dos anos. Está falando aqui um sujeito que quando era deputado de oposição achava uma besteira aquela história do Lula priorizar as relações (internacionais) Sul-Sul. Se já vinha mudando de opinião, depois dessa semana, eu vi como ele acertou. Também para o Lula e, portanto, para a candidata do Lula, foi uma vitória política pessoal dele no cenário internacional fantástica. Com o devido respeito, acho que o Brasil deve muito aos governos que mantiveram uma visão institucional das coisas, defendendo a democracia, a estabilidade econômica, acho que o Fernando Henrique tem um monte de mérito nisso, mas o fato é que o Lula conseguiu do jeito dele, sem falar uma palavra de espanhol, colocar o Brasil num patamar diferente.

 

O TCU concluiu que houve superfaturamento no Pan de 2007. O secretário-executivo Ricardo Leyser Gonçalves foi, inclusive, condenado pelo TCU a devolver aos cofres públicos R$ 18,4 milhões...

Eu não conheço os processos com detalhe. As informações superficiais que eu tenho é de que são decisões tomadas, mas ainda em grau recursal, com contraditório estabelecido, direito de defesa. Não tem nem que o cara foi condenado já e está indo para a Justiça. Enfim. Foi condenado, última instância, não tem recurso, ladrão, aí tudo bem. Eu tendo a concordar. Mas num processo em que o cara ainda está se defendendo, teve lá uma condenação, uma multa, mas tem direito a defesa, argumento, eu acho que o sujeito tem que ter o direito a tocar a sua vida.

 

A preocupação que se tem é se o orçamento de R$ 30 bilhões para a Olimpíada também vai disparar como houve com o Pan, que começou com cerca de R$ 400 milhões e parou entre R$ 3,3 bilhões e 5 R$ bilhões.

Repito aqui. Vou fazer a minha parte. A partir de amanhã, tudo que for relacionado às olimpíadas vai estar exposto para todo mundo ver no site da Transparência Olímpica. Quando a gente fala do orçamento, você tem que entender a proposta olímpica. Você tem o orçamento Cojo (Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos), que é o overlay, instalações provisórias, acomodações para atletas, ônibus, e você tem o chamado não-Cojo. Por exemplo, nesses R$ 30 bilhões estão incluídas as obras do porto, a construção do corredor T5, iniciativas que eu ia fazer mesmo sem Olimpíada. Tem coisas que estão acontecendo na cidade independente da Olimpíada e que estão no orçamento. Então, eu espero que não se aumente esse orçamento. Mas se tiver condição de melhorar, de fazer mais pela cidade, ótimo. Se, por exemplo, fizer outra linha de metrô e disser que isso foi gasto a mais para Olimpíada, vai sair mais caro, mas que bom que há outra linha de metrô. Eu já decidi também incluir a construção do BrT ligando a Zona Oeste à Barra. Isso não está na proposta original da Olimpíada e nem nesses R$ 30 bilhões. Vai custar R$ 400 milhões. Se quiser colocar, o orçamento agora é de R$ 30,4 bilhões. Acho que a gente precisa ter clareza. Por isso é que eu não tenho medo de colocar na Internet, ter transparência. Acho que o governante costuma ter medo disso. Eu acho que nos ajuda. Coloca na Internet que fica claro para todo mundo.

 

Mas qual vai ser o nível de transparência desse site? Vocês vão disponibilizar o nome das empresas prestadoras de serviço, seu CNPJ, etc. Qual o nível de detalhamento do site?

Isso. Vai ter tudo isso. São informações públicas. Isso está no Diário Oficial. A gente só vai colocar de forma mais palatável, mais acessível. Agora, não me peça para colocar nota fiscal do cimento que comprou para determinada obra. Isso não é assim. Às vezes, é por preço global. A empreiteira ganha dinheiro onde? Nisso. Você tem um preço mínimo e, quando a empresa é competente, ela consegue reduzir seu custo e fazer o serviço por um preço ainda menor.

 

Já houve críticas pelo fato da Prefeitura estar fazendo muitos investimentos no porto, mas a maior parte das competições e estruturas olímpicas estarem concentradas na Barra. Existe a possibilidade de negociação de eventualmente se trazer alguma competição para a região do porto?

Não existe ninguém mais apaixonado pelo projeto de revitalização do porto do que eu. Estou jogando minha vida nisso. É a minha menina dos olhos. Trabalho muito para que as coisas deem certo ali. Por mim, levava a Olimpíada inteira para o porto. Mas o fato é que a gente apresentou uma proposta que tinha que estar dentro da nossa realidade. O porto é uma região que sempre teve uma instabilidade jurídica muito grande. Seria um ponto de fragilização da nossa candidatura. Então, se fez uma coisa amarrada. Foi feita uma operação amarrada com um empreendedor privado, que se dispôs e assinou um documento com o COB se disponibilizando a fazer uma operação semelhante a que foi feita com o Pan. Isso deu segurança e tranquilidade.

 

Quem foi esse empreendedor privado?

O Carlos Carvalho, presidente da Carvalho Hosken. Onde era o Rock in Rio. Será um condomínio típico da Barra da Tijuca. Que é uma área com propriedade bem definida, parâmetros urbanos bem definidos, mercado garantido, você lança um condomínio lá e vende que nem água. Não dá agora para querer mudar tudo. Na margem, dá para se fazer. E ninguém vai fazer mais isso do que eu. Mas não vamos achar que vai mudar a vila olímpica da Barra para o porto.

 

Mas o que deve ser levado para o Porto?

O Nuzman já topou levar para o porto o comitê organizador e a própria sede do COB. Eu também quero construir ali um museu olímpico. Não vou conseguir levar um estádio para lá. Mas isso eu também nem quero. O charme da nossa proposta é o que eles chama de clean-to-clean. Por exemplo, os jornalistas têm horror de passar por 50 detectores de metal. Da maneira que a gente construiu o negócio, o cara sai da vila de mídia, vai para a vila olímpica, vai para o centro olímpico. E vai fazer isso sem ter que passar toda hora por detector de metal e nem ter que mostrar crachá o tempo todo.

 

Os principais projetos de revitalização de áreas da cidade já apresentados passam por alterações na legislação urbanística e liberação de gabaritos para a construção de prédios altos. Isso é realmente necessário?

Uma área da cidade que eu não admito mexer é a Zona Sul. Agora, aqui no Centro, pelo amor de Deus... Estou louco para que alguém queira vir construir o Empire State Building aqui. Seria um charme receber um prédio de 100 andares. Se tiver infraestrutura, vaga para carro e tal, não tenho problema nenhum com isso. Não estamos olhando primeiro para o que se arrecada. O Sambódromo, por exemplo, estou negociando com a Ambev há quatro meses (a mudança na legislação urbanística no local em troca de obras na Passarela do Samba). Independente da Olimpíada, o Sambódromo precisa de uma reforma, precisa melhorar, e está lá aquela porcaria daquela fábrica (da Brahma) atolada e abandonada lá. Com a legislação que tem hoje, o cara não tem interesse econômico em fazer. A cidade ficou muito congelada esse tempo todo.

 

O fato do senhor de recebido doações de R$ 3,85 milhões para sua campanha eleitoral de empreiteiras, construtoras, imobiliárias e empresas de engenharia - o que representou 33,73% do total de suas receitas - não pode denotar conflitos de interesse e até suspeitas de que os projetos da Prefeitura estejam sendo direcionados para beneficiar esse setor?

O sujeito que doa para campanha eleitoral, na legislação brasileira, não pode ser transformado em criminoso. Eu tenho um monte de defeito. O único que eu não tenho é esse. Não tem ninguém para dizer 'ai' de mim sobre absolutamente nada. Em 17 anos de vida pública, ocupando cargos de muita importância no Executivo e no Legislativo. Então, eu não temo isso. Enfim, é para o desenvolvimento da cidade. Quem quiser achar, que ache. Eu vou continuar dormindo com a cabeça tranquila no travesseiro. E até hoje não tiveram sequer a coragem de insinuar oficialmente. E nem terá. Se alguém insinuar... é aquilo, pau que bate em Chico, bate em Francisco. Então, já fui muito duro com algumas pessoas na minha vida pública. Se eu tivesse problemas, teria recebido de volta. Nunca recebi. Fui candidato a prefeito num segundo turno duríssimo com setores da mídia claramente favoráveis ao meu adversário e não encontraram um fio de cabelo para falar de mim no jornal. O máximo que falaram é que troquei muitas vezes de partido. Aí, não posso nem contestar.

 

Qual vai ser o grande legado social da Olimpíada?

O grande legado social é o de uma cidade que volta a crescer, volta a se desenvolver, que gera emprego, que tem uma rede de transporte melhor, que tem uma infraestrutura melhor. Esse é o grande legado social. O legado imperceptível, não palpável, mais abstrato. Uma cidade que tem mais turista, mais gente vindo, isso gera mais emprego. Eu sou até contra a esses projetos que inventam, do tipo 'Meninas das Comunidades Carentes como Legado da Olimpíada'. Aí acaba virando um monte de bolsa para deputado indicar cabo eleitoral. Acho que as meninas das comunidades carentes do Rio precisam de emprego, de uma cidade mais vibrante, de uma Prefeitura com mais dinheiro para colocar nos hospitais, nas creches para seus filhos e elas poderiam tocar a vida. Acho um perigo ficar inventando programinha para deixar como legado social. A cidade vai crescer, vai se desenvolver, vai ter mais infraestrutura, as coisas vão acontecer melhor, vai ter mais emprego e isso que é o grande legado social.

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