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Um bom exemplo

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REGINALDO LEME

De uma só tacada, a Mercedes confirma o espírito esportivo que alimenta a sua presença na Fórmula 1, dá uma lição de como trazer os fãs para perto da equipe dando a eles o direito de opinar sobre um assunto interno de tanta importância como a briga entre Rosberg e Hamilton, e ainda mostra como as mídias sociais podem ser usadas com inteligência a favor da marca ou da imagem da F-1.

Como a discussão em torno da batida entre eles no GP da Bélgica, quase uma semana depois, continuava dominando o noticiário, a Mercedes resolveu usar Twitter e Facebook para perguntar aos fãs de uma forma muito clara: "Você é a favor da ordem de equipe ou de uma disputa livre entre os dois pilotos ?"

Conhecendo a orientação seguida pelos dirigentes da marca alemã desde quando ela era apenas fornecedora de motores da McLaren, acho bem provável que a decisão já estava tomada antes de ouvir a opinião dos torcedores. Mas a atitude de fazer a enquete foi muito inteligente. A resposta já era esperada: 92 % dos torcedores a favor da livre disputa e apenas 8% apoiando as ordens de equipe. A Mercedes esperou 24 horas para os torcedores se manifestarem antes de emitir um comunicado oficial assinado pelo diretor geral Toto Wolff, o diretor-técnico Paddy Lowe e os pilotos Rosberg e Hamilton, afirmando que seriam tomadas medidas disciplinares contra o piloto alemão, que assumiu a culpa no acidente, mas que "a Mercedes-Benz continuaria empenhada em uma disputa dura e justa, porque este é o jeito certo de se ganhar campeonatos mundiais".

Não é necessário ser torcedor da Mercedes ou de qualquer um de seus pilotos para comemorar uma atitude como esta. Como seria melhor a F-1 se todas agissem da mesma forma! Justa e dura também foi a forma como a decisão foi comunicada aos pilotos. Não restou a eles outra alternativa que não fosse entender e aceitar a responsabilidade que têm perante a equipe de obedecer à única restrição imposta por uma regra que sempre existiu, mas agora terá de ser seguida com o máximo rigor: em nenhuma hipótese os dois carros podem se tocar. O comportamento dos pilotos á mudou imediatamente. Hamilton, que acusava Rosberg de ter admitido que havia batido de propósito, mudou o discurso para "nós dois aceitamos que cometemos erros e seria errado apontar o dedo e dizer que um é pior que o outro".

Mesmo que não tenha agido de propósito em Spa, imagino que Rosberg admitiu ter sido uma atitude deliberada apenas para mostrar que está disposto a jogar pesado no duelo que vai decidir o título. Soa como uma demonstração de força de quem ainda luta pelo primeiro título mundial contra um rival reconhecido como um dos melhores da F-1 e já com um histórico de relação complicada quando dividiu a McLaren com Alonso em 2007, mesmo sendo ainda um estreante que disputava as atenções da equipe com um bicampeão mundial.

A situação agora é bem diferente. Foi Hamilton quem chegou a uma equipe que Rosberg já defendia desde 2010. Mas veio como um campeão, dono de 27 vitórias, 35 poles e 63 pódios em uma carreira de 141 GPs. Rosberg, 159 GPs, 7 vitórias, 11 poles e 21 pódios, teve uma carreira bem mais difícil.

Hamilton nunca correu por equipe pequena. Rosberg, ao contrário, até este ano não havia tido um carro que lhe desse a oportunidade de lutar por um título. Eles chegaram à F-1 com um ano de diferença. Depois de terem corrido juntos no kart e na Fórmula-3, sempre numa mesma equipe, tornaram-se rivais na GP2 em 2005. Como primeiro campeão da GP2, Rosberg chegou à F-1 em 2006, um ano antes de Hamilton, que ganharia o título no ano seguinte e alcançaria a F-1 em 2007. Mas enquanto o alemão enfrentou as dificuldades de quem começa por uma equipe média (Williams), o inglês já vinha sendo preparado pela McLaren desde os 11 anos e, portanto, não sabe o que é pilotar um carro ruim. Daí a diferença nos números da carreira de cada um deles. Isso não é uma comparação. Acho que Hamilton tem mais talento. Mas Rosberg está usando mais a cabeça na disputa entre eles.

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