Ventos contrários com a crise mundial

Projeções indicam risco de a receita sofrer uma queda em relação a Londres

Jamil Chade - Enviado Especial, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2012 | 03h06

LONDRES - A partir de hoje, os olhos do mundo se voltam para o Brasil e sua preparação para os Jogos de 2016. O Comitê Olímpico Internacional (COI) promete aumentar as cobranças sobre o País, Não apenas por causa de estádios, ginásios e aeroportos, mas também pelo sucesso comercial do evento. Se a tarefa por si só já é de grandes proporções, a corrida, que começa agora e termina daqui a quatro anos no Rio de Janeiro, já está sendo vítima de um forte vento contrário: a crise econômica mundial que afeta a expansão no volume de patrocinadores. Por seu lado, os organizadores admitem que vão apresentar um novo orçamento do evento e que será inevitavelmente maior do que estava programado em 2009, quando o Rio venceu a corrida por sediar os Jogos.

Londres arrecadou, para 2012, o equivalente a R$ 14,1 bilhões, um recorde. No caso brasileiro, projeções feitas por alguns dos principais responsáveis pela preparação já admitem o risco de que a mesma receita não seja atingida no Rio. Se isso ocorrer, o evento no Brasil será o primeiro em 25 anos a ver uma queda da receita total.

O COI, de sua parte, indicou que arrecadará pouco mais de R$ 10 bilhões em contratos com multinacionais e redes de televisão para 2016, um recorde para a entidade. O montante - que também inclui os Jogos de Inverno de Sochi, na Rússia - inclui mais de US$ 1 bilhão a ser arrecadado em marketing. A previsão é que a venda de direitos de tevê atingirá mais de US$ 4 bilhões.

A entidade vende os pacotes de patrocínio e de tevê em acordos casados. Para que uma empresa possa mostrar os Jogos de Verão, é obrigada também a mostrar o de Inverno. Até agora, os eventos no Rio e em Sochi acumularam US$ 3,6 bilhões em acordos de tevê. Mas os contratos com grande parte da Ásia ainda não foram fechados.

Ainda assim, a expansão é bem inferior ao que o COI registrou entre 2008, em Pequim, e o evento em Londres que terminou agora. No que se refere ao programa de patrocínios, o crescimento é inferior ao que foi registrado entre 2005 e 2012, com um aumento de apenas US$ 100 milhões até 2016. Na venda dos direitos de transmissão, a taxa de crescimento é a mais baixa em décadas. Para a atual Olimpíada. de Londres, a venda de direitos chegou a US$ 3,9 bilhões, 52% acima do período anterior, que envolvia os Jogos de Pequim. Mas, na melhor das hipóteses, a expansão até 2016 será de menos de 10% em comparação a 2012.

Nacional. Além dos patrocinadores mundiais, os Jogos também dependem de dinheiro de empresas nacionais e, nesse aspecto, o vento contrário que o Rio enfrenta parece ficar mais forte. A busca por patrocinadores ocorre justamente em um momento de incerteza mundial. Londres foi beneficiada pelo fato de ter fechado a maioria dos seus acordos entre 2005 e 2008, antes da eclosão da crise. "Isso foi uma benção", disse Jacques Rogge, presidente do COI.

No orçamento divulgado em 2009, os organizadores do Rio apostavam numa arrecadação de R$ 2,1 bilhões em apoios nacionais, divididos em três categorias. O valor já era metade de tudo o que Londres acabaria arrecadando.

Para pessoas próximas ao projeto brasileiro, essa situação pode exigir duas reações por parte dos organizadores. A primeira será a de contar com recursos públicos, caso os gastos continuem elevados. A outra opção será a de cortar o orçamento para os Jogos. Aliás, esse orçamento permanece envolto em mistério pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Nos patamares superiores, a previsão era obter R$ 775,4 milhões no Rio. Essa meta já foi superada, com R$ 1,2 bilhão, graças aos acordos com cinco epresas: Bradesco, Nissan, Claro, Embratel e Ernst & Young Terco. Após Londres, o Rio começará a vender o que seriam as cotas de nível 3, as mais baixas. Mas, na melhor das hipóteses, a receita final não chegaria nem a R$ 2 bilhões, ante mais de R$ 4,2 bilhões atingido por Londres e as 47 empresas que apoiam o projeto.

Dentro do próprio Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos, fontes revelam ao Estado que a situação é bem mais tensa que o que os números revelam. "Até agora, não conseguimos convencer a Vale, a Petrobras ou a Brasil Foods a entrar como patrocinadores no maior evento esportivo da história do País", disse um dos dirigentes do Comitê Organizador, que pediu anonimato. As três são consideradas as maiores multinacionais brasileiras e eram a esperança dos organizadores de apoio.

Oficialmente, o discurso do Comitê Organizador dos Jogos é de otimismo. "Eu não tenho sentido (o impacto da crise)", disse Rodrigo Frazão, diretor de Negociações Comerciais dos Jogos de 2016, que ainda acredita que o Rio poderá repetir os números de Londres. "Acho que dá. Existe muito interesse pelo Brasil e a imagem que temos é de ser um país atrente para investimentos", insistiu o executivo.

Segundo ele, várias empresas tem colocado o Brasil no centro de suas estratégias de longo prazo e os Jogos de 2016 seriam plataformas ideais para isso.

Frazão, porém, evita falar dos números relacionados com arrecadação. "O maior objetivo é o de entregar Jogos", declarou.

Orçamento. Frazão afirma que até o final do ano será divulgada uma nova estimativa sobre o orçamento dos Jogos, baseada em ajustes feitos desde 2009. O COB admite abertamente que será um valor mais elevado ao que foi apresentado há três anos, alegando que a entrada do golfe e do rubgy encareceram o evento. Em 2009, o Rio previsa R$ 23 bilhões em gastos com infra-estrutura e outros R$ 5,6 bilhões na operação do evento.

Em Londres, os brasileiros multiplicaram encontros com empresas inglesas para incrementar o patrocínio. Mas nada foi fechado.

Os números obtidos com patrocinadores nacionais correm o risco de ficarem bem abaixo do que Londres obteve. "Existe uma preocupação real em relação ao impacto da crise e como ela poderá afetar o envolvimento de empresas nos Jogos do Rio", confirmou a fonte.

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