Visando os Jogos Olímpicos, Rio inicia demolições na Vila Autódromo

Por conta das obras, 280 das 583 famílias devem deixar o local

Felipe Werneck e Marcio Dolzan, Agência Estado

19 Março 2014 | 20h29

RIO - A Prefeitura do Rio iniciou a demolição de casas e oficinas mecânicas da Vila Autódromo, comunidade que fica ao lado do futuro Parque Olímpico de 2016, em Jacarepaguá, na zona oeste, cujos donos aceitaram acordo para deixar o local. Pelo menos duas casas e cinco oficinas já foram derrubadas.

De acordo com a prefeitura, os moradores receberam uma indenização. O valor, porém, não foi revelado. Oficialmente, as demolições ocorreram para evitar novas ocupações. "Só está saindo da Vila Autódromo quem quer sair. Não tem remoção nenhuma", alegou o prefeito Eduardo Paes (PMDB).

Relatório em análise no Tribunal de Contas do Município sobre a construção do Parque Olímpico, entretanto, prevê a remoção da comunidade. Estão planejados para o local um estacionamento e uma área de proteção ambiental. De acordo com a secretaria municipal de Habitação, 280 das 583 famílias que vivem na Vila Autódromo "terão que deixar a comunidade" para que a prefeitura possa fazer obras de canalização dos rios e de duplicação das Avenidas Salvador Allende e Abelardo Bueno.

O presidente da Associação de Moradores da Vila Autódromo, Altair Guimarães, de 59 anos, disse que houve "pressão de todos os lados, mas várias famílias não aceitaram negociar". "Todos têm título de posse dado pelo ex-governador Leonel Brizola. Não há tráfico nem milícia aqui, mas mesmo assim querem nos tirar. O que justifica isso é a especulação imobiliária", afirmou.

Segundo ele, mais de 100 famílias querem ficar. "O trato foi que os moradores que não quisessem sair ficariam. O prefeito deu a palavra dele. Tenho uma luta de 20 anos aqui, estou defendendo essa história. Vamos resistir", disse Guimarães, que já sofreu duas remoções, nas décadas de 1960 e 1990, antes de se mudar para a Vila Autódromo, existente há quarenta anos.

O município está oferecendo apartamentos em um condomínio do programa Minha Casa Minha Vida com 900 unidades, localizado a cerca de dois quilômetros da Vila Autódromo. De acordo com a prefeitura, haverá "dois e três quartos com área verde, piscina, espaço gourmet, creche e espaço comercial". Oficialmente, 204 das 280 famílias que estão no traçado da obra optaram pelo imóvel e 76 por indenização. "Outras 172 famílias, que estão fora da área da obra, pediram e aguardam para serem reassentadas. Neste grupo, 140 querem ir para o empreendimento e outras 32 optaram pela indenização."

Nesta quarta-feira, arquitetos visitavam a comunidade para planejar a construção de uma creche com os US$ 80 mil obtidos pela associação de moradores com o prêmio internacional de urbanismo conquistado pelo Plano Popular da Vila Autódromo, realizado em parceria com pesquisadores da UFRJ e da UFF.

PORTO

Paes voltou a defender a transferência da Vilas de Árbitros e de Mídia da região portuária para o bairro de Curicica, na zona oeste, proposta criticada por urbanistas. "A ideia inicial era viabilizar a região do porto, que hoje é a de maior crescimento da cidade. Curicica não é uma região de especulação imobiliária e a mudança vai representar uma economia de R$ 80 milhões para o Comitê Organizador", alegou o prefeito, que antes defendia o uso do porto para a Olimpíada.

Paes disse que pretende incentivar a construção de imóveis residenciais na região portuária, que concentra essencialmente empreendimentos corporativos. O concurso Porto Olímpico, lançado em 2011 pela prefeitura em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), resultou no único grande condomínio residencial em construção na região.

No mês passado, famílias que ocupavam um imóvel abandonado da União na Avenida Francisco Bicalho, na zona portuária, foram removidas pela prefeitura. O local foi escolhido pelo município para a construção de cinco torres comerciais, um projeto do empresário americano Donald Trump.

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