Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Vítimas da violência no Rio tentam se reinventar na canoagem

Sobreviventes de assaltos e tiros tentam reconstruir a vida como paratletas e sonham com os Jogos de Tóquio

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 07h00

Os gêmeos Jeferson e Jackson andavam de moto em São Gonçalo, região metropolitana do Rio, sem compromisso. O dia tinha sido bom na peixaria em Niterói: eles atenderam a atriz Sophie Charlotte, aquela da Globo, que comprou um monte de camarão. Tiraram até selfie. Jeferson estava tão feliz que não entendeu direito quando os ladrões falaram que era um assalto. Era 25 de junho de 2016. Bairro Vermelho. Os irmãos correram. Vários tiros foram disparados.

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Não tinha sangue na rua, mas Jeferson não conseguia se mexer. Foi um disparo pelas costas, que acertou a coluna vertebral. Quando sua mãe chegou, ele pediu uma oração e se desculpou por não ter sido obediente. E então ficou tudo escuro. 

Vinte e três anos atrás, Luciano reagiu a um assalto na Pavuna. Eram dois assaltantes. Pensou que dava para escapar. Não deu. Também foi atingido nas costas. Thaiany Tavares é uma das sobreviventes do massacre do Realengo, aquele em que Wellington Oliveira invadiu uma escola municipal e matou 12 alunos e deixou 13 feridos em 2011. 

Unidas pelo cotidiano de violência que atingiu uma escala sem precedentes nos últimos anos na Cidade Maravilhosa e a região metropolitana e alcançou ponto estarrecedor nesta semana com o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ), as vidas de Luciano, Thaiany e Jeferson têm outro ponto em comum: tentam encontrar na canoagem uma forma de recomeço e de superação. O esporte fornece a eles o caminho de uma vida nova.

Os três são paratletas e integram o clube de canoagem Rio Va’a, aberto para todos, deficientes e não deficientes. O nome se refere ao tipo de canoa que eles utilizam: a polinésia, que tem estrutura diferente das tradicionais e dos caiaques também. Normalmente, tem seis lugares. 

Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, será utilizada pela primeira vez, mas em provas individuais. Entre os paratletas do clube estão não só as vítimas da violência, assaltos e balas perdidas, mas também pessoas com problemas congênitos ou vítimas de acidentes de trânsito. Para eles, o treinamento é gratuito.

O esporte no mar projeta futuros variados. Uns sonham com Tóquio; outros estão felizes porque recuperaram a autoestima e parte da mobilidade perdidas com o tiro certeiro. 

Luciano é o que está mais perto da Olimpíada. Ele é Luciano Meirelles, atleta consagrado que já conquistou 62 medalhas, entre elas a de campeão mundial de velocidade na Polônia em 2012. É atleta de ponta. Por divergências com a Confederação Brasileira de Canoagem, ficou um período sem receber os recursos da Bolsa Pódio e interrompeu os treinos. “Quero recomeçar”, planeja. Luciano é falante e bem-humorado, mas trava na hora de falar sobre a tragédia. “Só falo quando sou obrigado”, diz, diante da pergunta incômoda do Estado. 

Após 23 anos desde que foi atingido na Pavuna, Luciano voltou ao prumo dentro da água. “Quando estou na água, esqueço do meu problema físico. Eu vou embora. Sou igual a todo mundo”, diz o pai de três filhos que mora em Nova Iguaçu, distante 70 km do local dos treinos.

Nicolas Bourlon, presidente do clube, explica que a polinésia facilita a rápida adaptação dos atletas porque ela é mais estável. “Somos iguais dentro da água”, diz Jeferson. 

Ele está tão satisfeito que aposta na canoagem como projeto de vida. Começou a treinar no fim do ano passado, já ganhou uma medalha estadual, mas ainda está na fase de fortalecimento muscular. Um entrave é a situação financeira. Hoje, ele vive com o benefício do INSS; sua mãe, dona Carmem, está desempregada; o irmão Jackson foi atingido no braço naquele dia, trabalha e faz curso técnico em enfermagem. 

Em janeiro, Jeferson lançou campanha para arrecadação de fundos na internet. O objetivo é comprar uma cadeira de rodas nova, mais leve, de alumínio e sob medida. Precisa de R$ 8 mil. Arrecadou R$ 1.650. “Meu sonho é ser atleta paralímpico da canoagem”, diz o rapaz de 21 anos. 

Aos 17 anos, Thaiany não está treinando com frequência. Bourlon explica que ela começou bem no ano passado, mas perdeu a motivação e tem faltado às treinamentos. Ela não foi treinar na terça-feira, e a canoagem caminha para ser apenas o seu hobby. “Cada pessoa reage de um jeito após tragédias. Alguns não saem da cama quando ficam deficientes. A canoagem foi o remédio para minha cabeça”, diz Luciano.

Três perguntas para Luciano Meirelles, paratleta da canoagem

1. O que levou você para a cadeira de rodas?

Em 1994, eu fui até a Ilha do Governador trabalhar, mas errei o caminho. Fui para a Pavuna. O rapaz anunciou o assalto. Achei que dava para fugir, acelerei o carro, mas levei um tiro pelas costas. Eu tinha 22, 23 anos. Hoje, estou com 46 anos. Parece que foi ontem

2. Como descobriu a canoagem?

Um amigo disse que eu tinha porte físico para a canoagem. Eu fui fazer o teste e conhecer, mesmo sem saber nadar. Depois de quatro meses, fui campeão brasileiro.

3. Quais são seus planos para o futuro? 

Meu maior sonho é estar presente em Tóquio em 2020 (Jogos Paralímpicos). Parei de treinar por necessidade, mas eu vou buscar o que é meu.

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Clube de canoagem cobra melhorias na acessibilidade à praia da Urca

Rampa íngreme impede que atletas subam e desçam sozinhos e faltam banheiros adaptados

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 07h00

Com o apoio da Associação dos Moradores da Urca, o clube de canoagem Rio Va’a busca melhorias para a infraestrutura do treinamento junto à prefeitura do Rio de Janeiro. Os principais pedidos são melhor conservação da área e pontos importantes de acessibilidade, como banheiros adaptados e uma rampa que facilite o acesso dos portadores de deficiência à areia.

“O conceito de mobilidade prevê que os próprios cadeirantes consigam se deslocar. No nosso caso, os atletas não conseguem subir ou descer a rampa sozinhos. Ela é muito íngreme”, explica Nicolas Bourlon, presidente do clube de canoagem. 

Por outro lado, o clube conseguiu a cessão de uso do prédio histórico que antes abrigava o Hotel Balneário, localizado na praia da Urca. Por meio de um convênio com a prefeitura, alunos e instrutores podem usar as cabines como vestiário. “Alguns moradores estavam implicando com as canoas, afirmando que elas incomodavam os banhistas. Nós defendemos o projeto e conseguimos um local adequado para todos os equipamentos”, explica Celi Paradela Ferreira, presidente da associação. 

Hoje, o projeto conta com o apoio financeiro da própria associação, das mensalidades dos alunos e da empresa Civil Master Engenharia em Altura, que oferece contribuições mensais. “Nós trabalhamos em locais de difícil acesso, como contenção de encostas em rodovias. Por isso, decidimos apoiar um projeto que mostrasse as dificuldades de acesso na vida”, explica Jan Ghelman, da empresa parceira. “O contato com os atletas da paracanoagem tem sido importante para conscientizar nossos funcionários”, diz.

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